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Lidia Zuin

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Crer e espalhar fake news são decisões voluntárias, não falta de educação

Manifestantes antivacina fazem protesto na frente do Palácio Piratini, em Porto Alegre, em 20 de outubro de 2021 - Agência Enquadrar
Manifestantes antivacina fazem protesto na frente do Palácio Piratini, em Porto Alegre, em 20 de outubro de 2021 Imagem: Agência Enquadrar
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Lidia Zuin

Jornalista e pesquisadora em futurologia. Mestre em semiótica, doutoranda em artes visuais, palestrante, professora e escritora de ficção científica.

Colunista do TAB

24/01/2022 04h01

Em tempos de negacionismo, fake news e ômicron, a supertransmissível variante de covid-19, o que significa discutir desinformação? No passado, argumentos como falta de acesso à informação ou educação midiática (isto é, saber como os meios de comunicação funcionam) eram algumas explicações para esse fenômeno. Um novo artigo publicado na revista Nature, que agora revisa artigos científicos de psicologia, intitulado "The psychological drivers of misinformation belief and its resistance to correction" (Os estímulos psicológicos da crença na desinformação e sua resistência à correção) propõe que há algo mais profundo, psicológico, nessa equação.

Os autores afirmam que usar dados para manipular a opinião pública ou o senso de realidade não é coisa nova: os romanos fizeram isso, por meio de mensagens em moedas, e os nazistas também, propagandeando na mídia impressa, no rádio e no cinema.

Enquanto soluções algorítmicas ou centros de checagem de fatos lutam contra a corrente, notícias falsas e um intenso engajamento em torno delas continuam a ocorrer. Ou seja, essas iniciativas podem ajudar alguém a entender que uma notícia é falsa, mas nada garante que a pessoa nunca mais vá acreditar em fake news.

O que os pesquisadores sugerem é que acreditar em falsidades e defendê-las pode ter mais a ver com fatores cognitivos, sociais e afetivos do que educacional. Em suas palavras:

"Falsas crenças geralmente surgem a partir dos mesmos mecanismos através dos quais crenças verdadeiras são estabelecidas. Ao decidir o que é verdade, as pessoas frequentemente tendem a acreditar na validação da informação e seguem 'seu instinto' e intuição, em vez de deliberar."

O artigo menciona uma pesquisa feita em março de 2020 que mostrou que 31% dos norte-americanos concordavam que o Sars-Cov-2 foi criado e disseminado de propósito. À medida que essa teoria era repetida por diferentes pessoas, em diferentes lugares, mais fácil ficava para um indivíduo concluir que se trata de algo crível.

Segundo os autores do artigo, isso acontece porque nós interpretamos as coisas a partir de referências periféricas, como familiaridade (a sensação de já ter visto aquilo antes), fluência processual (a mensagem está clara ou precisa de mais interpretação), e coesão (há memórias referentes à mensagem que a tornam internamente condizente). Com isso, ao ser repetidamente exposta àquela informação falsa, independentemente de suas capacidades cognitivas, é possível que a pessoa acabe pelo menos dando mais atenção àquela informação.

Outro "atalho" cognitivo que pode ser tomado é quando aquela informação falsa está alinhada a alguma visão particular. Os pesquisadores indicam que, frequentemente, notícias e manchetes são mais críveis quando complementam algo que o leitor já toma como verídico — o tal viés de confirmação. O posicionamento político e a visão de mundo das pessoas pode interferir na formação de memória falsas, bem como um pensamento intuitivo automático.

Um exemplo aparece num estudo mencionado pelos autores. Perguntou-se aos participantes: em uma corrida, se você passar a pessoa que está em segundo lugar, em qual lugar você fica? Intuitivamente, pode ser que você tenha respondido primeiro lugar, mas, na verdade, você precisaria ultrapassar quem estava em primeiro lugar para tomar sua posição.

Os participantes que conseguiram responder corretamente à pergunta tiveram maior capacidade de discernir uma notícia falsa de uma verdadeira, comparado aos participantes que erraram a resposta — e isso independentemente de sua posição política. Só que, se essas pessoas tivessem uma segunda chance ou dedicassem um pouco de tempo a mais para refletir, é provável que elas conseguiriam identificar a incoerência e, assim, superar um primeiro contato mais intuitivo.

Junto a um grupo de profissionais especializados em checagem de fatos, os leigos conseguiram diferenciar notícias confiáveis das enviesadas e falsas. Quando foram deixados sozinhos para fazer a avaliação, essas mesmas pessoas não consideraram a qualidade da fonte e não julgaram a manchete baseando-se em plausibilidade.

Curiosamente, os pesquisadores também descobriram que ter uma logomarca ou um layout já popularmente associado a alguma publicação não reduz as chances de as pessoas acreditarem em uma notícia falsa, bem como também não aumenta a chance de se acreditar mais em informações verdadeiras. Ou seja, não se trata de argumento de autoridade.

É comum que as pessoas parem de dar crédito a alguém que dissemina notícias falsas, mas essas mesmas pessoas também se esquecem com frequência de onde veio a informação incorreta. Como explicam os pesquisadores, essa é uma tendência preocupante. "Mesmo que seja um pequeno número de contas de redes sociais espalhando uma grande quantidade de conteúdo falso, se os consumidores não se lembrarem da origem dúbia, eles podem não descartar o conteúdo corretamente."

Isso nos leva a crer que o conteúdo emocional de uma informação interfere de forma importante nessa equação, ainda que as pessoas consigam, em geral, discernir que há um apelo emotivo em uma mensagem. Também se inclui nesse processo a emoção gerada por uma determinada informação ou notícia, o que, por sua vez, pode influenciar o humor ou a avaliação da pessoa em relação àquele material. Em suas palavras:

"Usar sentimentos como informação pode fazer com que as pessoas fiquem mais suscetíveis ao engano, e encorajar as pessoas a 'se basearem em suas emoções' aumenta sua vulnerabilidade à desinformação. Assim, alguns estados emocionais específicos como a felicidade, podem tornar as pessoas mais vulneráveis ao engano e à verdade ilusória. Semelhantemente, no caso da tristeza, o humor pode reduzir a credulidade das pessoas. A raiva já mostrou que pode promover crenças politicamente incorretas ou mesmo desinformação sobre a covid-19. Finalmente, a exclusão social, que muito provavelmente irá proporcionar um humor negativo, pode aumentar a susceptibilidade a conteúdos conspiratórios."

Como podemos lidar com esse cenário, agora que conseguimos mapeá-lo? Os pesquisadores indicam que uma estratégia de combate precisa ser multifacetada e envolver fatores cognitivos, sociais e afetivos. Sendo assim, algumas saídas são:

  1. Simplesmente mostrar o fato correto para desbancar o falso.

  2. Apontar as falácias lógicas que frequentemente aparecem nesses tipos de conteúdo — por exemplo, correções que salientam afirmações inerentemente contraditórias, como "a temperatura global não pode ser medida precisamente" e "os registros de temperatura mostram o resfriamento do planeta". Ao sugerir uma correção baseada na lógica (como afirmar que está esfriando se não é possível medir?), é possível de se mitigar os efeitos de uma informação falsa.

  3. Enfraquecer a plausibilidade da informação ou a credibilidade da fonte. Diferentes formas de se fazer isso incluem uma única correção (por exemplo, ressaltar as imprecisões factuais e lógicas ou então rechaçar a credibilidade da fonte ao ressaltar os erros factuais).

Lutar contra a desinformação não é um trabalho simples. Os autores do artigo dizem que é necessário muita preparação e estratégia, afinal, informações falsas não advêm apenas das redes sociais, mas também de veículos estabelecidos e discursos políticos. O estudo se propõe um pontapé inicial e faz um convite ao aprofundamento do tópico, de modo que mais pesquisadores consigam relacionar efeitos cognitivos e emocionais no que diz respeito às informações falsas.

A maior parte dos estudos atuais, aliás, se concentra em material escrito. É necessário avaliar vídeos, fotografias e outros meios manipulados. Para os pesquisadores, uma pesquisa mais completa sobre o problema das fake news deve ser interdisciplinar e envolver a psicologia, mas também as ciências políticas, análise de redes sociais e o desenvolvimento de um campo de estudos mais aprofundado sobre psicologia da desinformação.