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Lidia Zuin

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Subcomunidade do Twitter tem seus furtos revelados em fio que viralizou

Karthik Swarnkar/Unsplash
Imagem: Karthik Swarnkar/Unsplash
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Lidia Zuin

Jornalista e pesquisadora em futurologia. Mestre em semiótica, doutoranda em artes visuais, palestrante, professora e escritora de ficção científica.

Colunista do TAB

15/04/2022 04h01

Nas últimas semanas, um usuário publicou no Twitter um fio que expunha uma subcomunidade ("subs") que se organiza na rede social a partir de hashtags como "sltwt" (shoplift Twitter, ou Twitter do furto) ou "cleptwt" (clepto Twitter), embora a última seja menos encorajada devido à associação a um distúrbio psicopatológico. Ainda assim, muitos participantes dessa subcomunidade também estão associados a outros nichos de self-harm (autoflagelo) e transtornos alimentares.

De uns anos para cá, essas pessoas têm compartilhado dicas de como cometer pequenos furtos ou quais foram suas aquisições. Para o psicanalista Lucas Liedke, o fato de essas pessoas estarem publicando esse tipo de informação pode ser um efeito do momento que vivemos, em que valorizamos golpistas como os retratados nas obras "Inventando Anna" e "O Golpista do Tinder". "Mais do que fazer o que é justo e correto, a ideia é viralizar, e isso pode significar brincar com o perigo, estar no limite de algo que é crime e fazer com que as pessoas pensem que furtar é um ato corajoso, sem noção ou mesmo interessante", ele explica.

Podcasts como "Death, Sex, and Money" já abordaram esse tipo de assunto em episódios como "Why I steal" (por que eu furto). Tabus e polêmicas têm sido cada vez mais assunto das redes sociais e na mídia, mas isso não significa que a maneira como isso está sendo feito é correta ou mesmo adequada. Se, por um lado, esse canal pudesse funcionar como um "espaço seguro" para que as pessoas compartilhassem seus sentimentos e desafios, há um grande risco por trás desse tipo de atitude.

De acordo com a psicóloga Fernanda Angelini, há estudos que provam existir um efeito de imitação em casos de suicídio. Por isso, existe também um risco ao facilitar o acesso a esse tipo de conteúdo, ainda mais em uma plataforma como o Twitter, que não tem o mesmo tipo de monitoramento das redes da Meta. "Mesmo se a intenção é encontrar pessoas que passam pelos mesmos problemas que você, isso não quer dizer que essas pessoas terão condições de ajudar ou entender. Casos complicados como esses demandam o acompanhamento de profissionais de saúde qualificados", ela argumenta.

Porém, apesar de esses conteúdos não serem removidos, eles já são, de certa forma, punidos pelo Twitter através de um mecanismo conhecido como "shadow ban" — isto é, quando certos conteúdos ou indivíduos estão mais "escondidos" dos sistemas de busca. Como muitos utilizam "leetspeak" — ato de trocar letras e números para dificultar a indexação — é difícil moderar. No caso do "sltwt", é muito difícil de encontrar os diálogos reais através do buscador nativo do Twitter, por exemplo. Essa punição é até desejável para essas comunidades que ficam em uma "câmara de eco", uma vez que só membros têm acesso e se manifestam corroborando aquelas ideias.

Mas será mesmo que essas pessoas estão preocupadas em se esconder? Há comunidades e plataformas especificamente desenvolvidas para oferecer um espaço anônimo e menos rastreável a elas, como é o caso dos espaços na "dark web". No Twitter, apesar do "shadow ban", basta um usuário fazer um fio expondo esses perfis para que a viralização aconteça e a revelação seja feita.

Adriana Amaral, professora da Unisinos (Universidade do Vale do Rio dos Sinos) e pesquisadora de cultura pop, explica que, de um ponto de vista geracional, o Twitter e o Instagram são redes em que alguns usuários optam por ter vários perfis diferentes, tendo assim controle sobre sua audiência e a liberdade de conteúdos a serem publicados. Contudo, a própria mecânica do Twitter permite o espalhamento desses conteúdos restritos — que foi o que aconteceu com o "sftwt".

Shoplifting no Twitter - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

Uma coisa que chama atenção é que os itens furtados vão de canetas, lápis decorados com Hello Kitty, chaveiros e apetrechos decorativos focados no público feminino. Em alguns casos, esses itens são caros e afetam a renda limitada de algumas pessoas, mais uma motivação para o delito. Nesta pesquisa sobre as comunidades online em torno de transtornos alimentares, as autoras questionam se essas manifestações são patológicas ou de "estilo de vida". O que seria o caso do "sftwt", então?

Adriana explica que, tradicionalmente, subculturas eram definidas como grupos de resistência ao status quo, mas isso mudou nos anos 1990 para abarcar pessoas que compartilham uma identidade de linguagens e estéticas similares. Em casos tão voláteis como esses, talvez não fosse nem o caso de chamá-las de subculturas, mas sim de microcomunidades — termo atualmente usado pelo marketing.

Para Fernanda, porém, esse esvaziamento de sentido nas subculturas e nas manifestações identitárias são apenas sintomas da contemporaneidade. "Conforme as pessoas perdem a confiança nas instituições democráticas e na possibilidade de revolução, tudo que sobra é expressar esteticamente as suas escolhas, principalmente por meio dos objetos que você compra e usa como forma de estabelecer a sua identidade", ela explica. "É uma forma de lidar psicologicamente com a ansiedade e o senso de impotência face a questões existenciais como o aquecimento global ou a desigualdade econômica. Infelizmente, a solução para essas crises não será puramente estética e nem por meio do consumo."

Em um contexto no qual firmar uma identidade é uma ação atrelada ao consumo e, essa prática, por outro lado, é usada como uma forma de aliviar as tensões, o comportamento da subcomunidade "sftwt" se torna sintomático. "Compras são um exemplo do que chamamos de prazeres líquidos, formas rápidas e relativamente fáceis de conseguir satisfação e alívio do estresse", argumenta Fernanda. "Se você tem excesso de estresse e poucas maneiras saudáveis de lidar com ele, a tendência é abusar dos prazeres líquidos. Se sua única válvula de escape é compras, o que fazer quando acaba o limite do cartão e você ainda está se sentindo mal?"

Do ponto de vista de gênero, tanto pacientes de cleptomania quanto de transtornos alimentares tendem a ser mulheres. Uma pesquisa publicada em 2008 apontou que aproximadamente dois terços dos pacientes de cleptomania são mulheres. No caso dos transtornos alimentares, a mesma proporção foi apontada em um estudo publicado em 2020. Observar que há uma interseção entre o "sltwt" e o "edtwt" (eating disorders Twitter), portanto, não é uma coincidência.

Fernanda reforça que é comum que cleptomaníacas sofram com várias outras demandas psicológicas, em especial a depressão. "Existe uma tensão de estresse crescente durante o ato e um alívio de tensão e gratificação enorme quando você consegue se safar do ato. Esse alívio e gratificação passam então a serem viciantes e embriagantes, pois em muitos casos, essa é a única forma que a pessoa conhece de alcançar esse alívio e gratificação", pontua a psicóloga.

Mas enquanto essas pessoas não buscam ou não encontram suporte clínico, seria o caso de o Twitter remover essas mensagens e perfis? Adriana acredita que, as redes sociais precisam de maior regulamentação e que precisamos lutar mais por isso, porém há questões bastante delicadas que precisam de avaliação por parte de profissionais da saúde.

Lucas também acredita que esses conteúdo possam ser nocivos, porém, para ele, a resposta não é a censura. "Não acho bom não falar sobre um mal estar ou sintoma, ou tentar soterrar isso com mensagens positivas. Isso pode ser muito alienante e falso. Mas ao mesmo tempo em que temos a questão da liberdade de expressão, algum tipo de regulação precisa existir."

Para o psicanalista, é preciso ter um olhar mais clínico diante desses conteúdos, porque esses tópicos são importantes de serem abordados, mas precisam de um cuidado editorial mais humano e mais sensível, idealmente feito por especialistas e psicólogos, não simplesmente por um mecanismo de remoção automático. "As plataformas são responsáveis em fazer esses temas chegarem à cultura de massa de forma mais responsável e esclarecedora, com acolhimento e uma abordagem mais prática para quem está sofrendo com isso", conclui.

*Colaborou Allan Mendes, mestre em design pela UnB (Universidade de Brasília), líder do capítulo "Speculative Futures: Brasília" e criador do curso "Design + Fictions". Pesquisa, escreve e leciona sobre as relações de design e narrativa, subculturas e os impactos da tecnologia sobre a sociedade.