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Matheus Pichonelli

Abraço de enfermeiro em paciente nos lembra que a luta não acaba na morte

O abraço comoveu pacientes e funcionários do hospital de campanha na cidade de Caapiranga, no interior do Amazonas - Mirene Borges Da Silva
O abraço comoveu pacientes e funcionários do hospital de campanha na cidade de Caapiranga, no interior do Amazonas Imagem: Mirene Borges Da Silva
Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do TAB

30/01/2021 04h00

No país que aboliu a metáfora, o abraço de um enfermeiro em um paciente com síndrome de Down que demonstrava medo diante da máscara com oxigênio, em um hospital de campanha em Caapiranga, no interior do Amazonas, era a lufada de ar necessária para recobrar os ânimos e o que resta de humanidade em um país embrutecido pela dor.

De março para cá, o acúmulo de notícias e desleixos oficiais registrados diariamente teve como efeito rebote a naturalização de uma tragédia narrada numericamente. O que temíamos dez meses atrás se confirmou no momento em que a morte deixou de chocar. Nem as centenas diárias nem as milhares acumuladas, mês a mês.

Empilhada, a morte virou parte da paisagem, assimilada por quem se distrai para não sentir ou não sente por se distrair.

Foi então que a imagem daquele abraço viralizou.

Naquele hospital de campanha do interior amazonense, onde também estava internada com sintomas de covid-19, coube a Mirne Borges da Silva, operadora de máquina de 38 anos, registrar o momento em que Émerson Júnior, o portador de Síndrome de Down de 30 anos, finalmente se acalmou.

Embora já tivesse sido internado outras vezes, ora com febre, ora com gripe, era a primeira vez que o rapaz, infectado pelo coronavírus, chegava a um hospital em estado grave.

Sua irmã, Eliane Ferreira Loureiro, 45, contou ao repórter Carlos Madeiro, do UOL, que Émerson chegou ao hospital fragilizado física e emocionalmente. Naquela unidade improvisada, como nos tempos da guerra, ele precisava de atenção e confiança — conquistada sempre que alguém pegava em sua mão e demonstrava carinho.

O paciente tinha razão para estar apavorado. Em um ensaio publicado em uma coletânea da Unicamp, a mestranda em Sociologia Bárbara Ferrari Brandi descreve uma série de soluções encontradas por equipes de saúde no combate à pandemia para minimizar a impessoalidade da relação com os pacientes. Uma impessoalidade agigantada pelas armaduras usadas no front, compostas de máscaras, face shields, luvas, toucas e pijamas cirúrgicos.

Em muitos casos, ela descreve, os olhos são o único indício de que por trás dos equipamentos de proteção existe uma pessoa. Para mais de 220 mil brasileiros infectados pelo vírus, foram a janela de um mundo que deixaram do lado de fora antes de fecharem seus próprios olhos pela última vez.

Para encurtar o distanciamento físico e simbólico, muitos enfermeiros e enfermeiras fazem questão de ostentar no peito a imagem de seus rostos sorridentes nos crachás. E gravam mensagens pelo celular para que os enfermos conheçam a voz real de seus cuidadores, apresentados ali com máscaras e pronúncia abafada.

Entre tantos procedimentos de segurança, o distanciamento entre profissionais e pacientes é a margem de segurança por onde um universo é recriado em gestos e palavras.

Raimundo Nogueira Matos, enfermeiro de 38 anos, sabia dos riscos quando quebrou o protocolo e ofereceu um abraço apertado a Emerson na tentativa de acalmá-lo. "Ele estava muito ansioso. Então me abraçou, e eu consegui tranquilizar ele, chegar mais próximo. A gente deu o melhor que poderia ali", descreveu o profissional na reportagem do UOL. "Como é um paciente especial, ele precisava de carinho."

A cena foi registrada no dia 23. Emerson e Raimundo viraram símbolo da resistência. Não a física, que é passageira. A resistência contra a aniquilação total daquilo que nos constitui como gente.

Internado desde então, Emerson foi levado às pressas para a cidade de Manacapuru após sofrer uma parada cardíaca no dia 26. Intubado, recebeu ventilação manual, com a ajuda de um ambu, durante as duas horas e meia de viagem. Morreu no dia em que seria finalmente transferido para uma UTI em Manaus.

Raimundo chorou ao saber da morte do paciente que dias antes ajudou a acalmar.

Émerson acabava de se tornar uma das quase 8 mil pessoas que já morreram por complicações da covid-19 no Amazonas, um dos estados mais fustigados pelo colapso do sistema de saúde. O desfecho faz pensar que o país que aboliu a metáfora destroçou também a esperança. Não é bem assim.

Flávio César de Sá, médico e professor especializado em bioética e saúde coletiva da Unicamp, me disse uma vez, em entrevista, que em suas aulas explica aos futuros profissionais que a morte não é uma derrota. A luta das equipes de saúde não é contra ela. É contra o sofrimento. "Precisamos cuidar do paciente para que ele tenha uma vida boa. Inclusive na hora da morte."

Diante de toda precariedade em uma localidade que se tornou a síntese de um país abandonado à própria sorte, Raimundo foi o herói possível quando Emerson mais precisou. Ele se arriscou a abraçar seu paciente e amigo em um tempo em que abraçar é risco de vida. Emerson certamente sabia disso quando finalmente se acalmou.

Num espelho invertido, a imagem daquele abraço é a janela de que o país precisa para evitar a morte sufocada de qualquer esperança. A luta continua.