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Matheus Pichonelli

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Seleção adere à moda dos manifestos que acabam em pizza

O presidente Jair Bolsonaro exibe uma camisa da seleção brasileira ao lado de Neymar, do presidente da CBF, Rogério Caboclo, e do general Augusto Heleno, chefe do GSI - Divulgação
O presidente Jair Bolsonaro exibe uma camisa da seleção brasileira ao lado de Neymar, do presidente da CBF, Rogério Caboclo, e do general Augusto Heleno, chefe do GSI Imagem: Divulgação
Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do TAB

09/06/2021 09h38

(Contém ironia.)

Ocupada em comparar motociadas de Jair Bolsonaro e Benito Mussolini pela Itália dos anos 1930, a "extrema imprensa que torce contra o Brasil" manteve os ouvidos moucos para o clamor popular. Nas passagens e aglomerações sem máscara do presidente em via pública, os confinados por governadores e prefeitos já arranhavam gargantas e panelas de tanto gritar: queremos a Copa América. Queremos pra já. Queremos Copa América no braço e Copa América no prato.

Bolsonaro atendeu. Numa tabela de craque com Rogério Caboclo, o presidente afastado da CBF, conseguiu trazer alegria ao seu povo que não aguenta mais ligar a TV e ver notícia lixo. Entre os espectadores aborrecidos estão os adeptos da lei Renê Simões, aquele que vê "futebol como fator social para ajudar as pessoas que estão em casa enlouquecendo". Eis a palavra da salvação, dita pelo treinador no começo da pandemia: "Eu tenho amigos que já se separaram, outros já bateram na mulher, outros batem nos filhos. Estão enlouquecendo. Então, se colocar futebol, pode ser que ajude em alguma coisa".

Vai ter visão social assim no comando da seleção.

Por sorte, o que falta a Tite sobra na cartolagem brasileira. A Copa América caiu natimorta no colo brasileiro quando Colômbia e Argentina, ocupadas com protestos e a expansão do coronavírus, desistiram de receber os jogos. Caboclo bateu no peito e disse aos indigentes da Conmebol: podem vir quente que estamos ferrados. E, uma vez ferrados, ferrados e meio.

Desde então, ninguém mais se preocupa com orçamentos paralelos, tratores comprados com sobrepreço, CPI da Covid, a vigarice da cloroquina, anarquia militar, censura, queimadas ou com a polícia no calcanhar do ministro do Meio Ambiente.

Tudo o que importa agora é acompanhar o reality show no entorno dos comandados de Tite e a decisão de disputar ou não o torneio.

À boca pequena, dizia-se que o técnico estava embriagado por delírios comunistas e ameaçava uma rebelião. Fotos do homem com Lula corriam pelas redes como prova do crime.

A torcida prometia mandar o treinador ao paredão, de onde emergiria uma nova comissão técnica formada por Renato Gaúcho ou algum outro patriota sensível às orientações táticas do bolsonarismo para preencher o meio-de-campo com apoiadores, amigos e familiares do capitão.

O vírus do politicamente correto passou perto de contaminar os jogadores. "Nossa posição é unânime", adiantou o volante Casemiro, certamente tentando cavar um lugar no futebol chinês.

A nação aguardou durante dias uma versão canarinho do Manifesto do Partido Comunista, conclamando os proletariados da bola de toda a América a unirem-se contra o dirigente que os obrigava a trabalhar nas férias.

O manifesto, em vez disso, era um track postado em Instagram. Desses que fariam as notas de repúdio de Rodrigo Maia parecerem a bomba H. "Em nenhum momento quisemos tornar essa discussão política", disseram os jogadores, como se a camisa amarela já não colorisse até a medula das manifestações políticas de 2013 pra cá. "Somos contra a organização da Copa América, mas nunca diremos não à seleção brasileira", finalizaram.

Sobre os mortos ao redor dos estádios, nem piu. A pátria de chuteiras é uma pátria obediente em cima de um muro chapiscado com caco de vidro e arame farpado. Azar de quem está embaixo.

O recuo é a vitória do capitão que até ensaiou segurar as cordas, mas a soltou com Caboclo e tudo quando veio a público a denúncia de uma secretária que acusa o dirigente de assédio.

Segundo a denúncia, o chefe costumava trabalhar embriagado, chamar a funcionária de cadela e perguntar em privado se ela gostava de se masturbar.

Maldosos dirão que, com um comandante desses, ainda é um milagre que os herdeiros do penta não enfiem a chuteira nos olhos quando tentam acertar a bola, mas é pura intriga.

Caboclo "morreu pela causa", e é por ela que os jogadores estarão a postos, contentes ou não. Entrarão em campo como quem vai à guerra e, numa guerra, a primeira vítima da tortura é a lógica.

Sim, vai ter Copa América. Se o Japão vai receber os Jogos Olímpicos, por que não podemos? Só porque lá morreram em 15 meses de pandemia o que se morre em uma semana no Brasil? Vamos parar o futebol por isso?

Para a turma do quanto pior, melhor, talentos como Messi, Suárez e Neymar já não podem mais desfilar seus talentos em estádios rodeados por meio milhão de cadáveres que todo mundo "NOOOOOOOSSA".

Vamos chorar até quando?, perguntou certa vez o presidente que conclamou um país inteiro a enfrentar a pandemia não como maricas, mas como homens — de peito aberto, sem máscara, "vachina" ou isolamento.

Agora podemos ensinar ao mundo como se faz.

Ao recuar e bater continência ao capitão, atletas e comissão técnica mostraram que estão imunizados contra o vírus que insiste em ver política onde só deveria haver futebol, ignorância e distração. Vencendo ou não, já entraram para a história como os campeões do maior torneio de gol-caixão já realizado.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL