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Matheus Pichonelli

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Em loja da Havan, depoimento de Hang é assunto de um mundo paralelo

Boneco de Luciano Hang é vendido em loja da Havan de Campinas (SP) - Matheus Pichonelli/UOL
Boneco de Luciano Hang é vendido em loja da Havan de Campinas (SP) Imagem: Matheus Pichonelli/UOL
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Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do TAB

29/09/2021 17h33

Na mesma hora em que o senador Rogério Carvalho (PT-SE) pedia que o advogado de Luciano Hang saísse da sala, em Brasília, o empresário surgia nos televisores de uma das unidades da Havan, em Campinas (SP), dizendo que coisas estranhas aconteciam em suas lojas. "Estamos recebendo mensagens muito esquisitas", alertava ele no vídeo, olhando para a câmera do celular com capinha da bandeira do Brasil.

"Acho que é coisa do outro mundo. Mas sempre dizem que eu sou maluco. Talvez seja coisa dessa minha cabeça careca."

Mal terminou a fala e, em volta dele, os funcionários saíram aos berros jogando papéis para o alto.

Os poucos clientes da loja poderiam imaginar que aquilo tinha alguma relação com a CPI da Pandemia, para a qual Hang havia sido convocado. Mas quem aparecia nas telas era um pequeno extraterrestre de nome Navah (Havan ao contrário), contando que em toda a galáxia nunca viu lojas tão grandes, com tantos produtos e tanta gente feliz.

A peça é uma das tantas propagandas da rede exibidas em looping eterno pelos 16 televisores do mostruário. Elas se revezam com outros vídeos em que Luciano Hang aparece em forma de super-herói, vidente (com direito a bola de cristal) e até desenho animado.

Se alguém quiser saber como o empresário se saíra, no depoimento à comissão, este não é o lugar.

Loja da Havan tem corredores vazios durante depoimento de Luciano Hang à CPI da Pandemia - Matheus Pichonelli - Matheus Pichonelli
Loja da Havan tem corredores vazios durante depoimento de Luciano Hang à CPI da Pandemia
Imagem: Matheus Pichonelli

No café vendido a R$ 5 à entrada da unidade, uma mulher mostrava surpresa em saber que o dono daquilo tudo seria ouvido no Senado em instantes. "Por causa dos rolos de lavagem de dinheiro?", ela quis saber.

Alguém explicou que não. Hang, na verdade, precisava explicar por que a covid-19 não apareceu no obituário de sua mãe, após ela ser internada com sintomas da doença em um dos hospitais da Prevent Senior, operadora de saúde investigada por supostamente usar clientes como "cobaias" de medicamentos ineficazes. Hang é um dos mais apaixonados defensores do governo de Jair Bolsonaro, com quem compartilha afinidades ideológicas e a ojeriza pelas medidas de distanciamento social durante a pandemia.

Hang lamentou em vídeo o fato de sua mãe não ter feito uso prévio do "kit covid" — defendido por Bolsonaro e distribuído pela operadora de saúde aos seus pacientes.

O caldo de tensão que marcou o depoimento no Senado passou longe daquela unidade da Havan, a 917 quilômetros de Brasília. Ali as regras de distanciamento social eram cumpridas normalmente. Apenas um dos 19 caixas funcionava, por volta das 11h. Circulavam mais funcionários do que clientes onde o conceito de culto à personalidade é vendido, literalmente, no varejo. Hang não é figura onipresente apenas nos televisores, na réplica em tamanho real à entrada ou nas miniaturas de músculos avantajados nas caixas de promoção. Era também produto à venda.

Fachada da loja Havan em Campinas - Matheus Pichonelli - Matheus Pichonelli
Fachada da loja Havan em Campinas (SP)
Imagem: Matheus Pichonelli

O principal deles era um boneco de super-herói verde com capa e botas amarelas, disponível na seção infantil, entre cartas de dinossauros e pop-its coloridos em formato de coração. Ele também é marca registrada no desenho das embalagens dos caminhões, helicópteros e até dos ônibus da linha "Patriota" com a marca da loja e o slogan "O Brasil que queremos só depende de nós". As cores da bandeira também enfeitam sacolas, embrulhos para presente, bolas de vôlei e futebol de fabricação própria, além de camisetas vendidas a R$ 12,90 — as mesmas usadas pelos funcionários.

Mas nem tudo é verde e amarelo por ali. Perto da arara onde bandeiras do Brasil são vendidas por até R$ 49,99, os clientes da seção infantojuvenil tinham acesso a uma coleção de camisetas de cores lúgubres com o nome "The original gangster", com desenhos de vilões dos quadrinhos como Coringa, Mulher Gato, Charada e Pinguim.

Às 11h, no café, a conversa ainda gira em torno do depoimento. "Se ele faz isso com a própria mãe, imagina o que não faz com outras pessoas", diz a mulher, em voz baixa, ao saber detalhes da acusação.

Era exceção, não a regra. O depoimento não parecia franzir a testa dos clientes. Uma atendente, muito solícita, fazia um passeio com este cliente em potencial, em busca de qualquer produto de um certo seriado infantil para dar de presente ao filho que estava na escola. Ela afirmava que, semana passada, alguém procurou brinquedos da Galinha Pintadinha e só então percebeu que a febre saiu de moda. No caminho, a funcionária fez careta quando mostrou um brinquedo da linha Luccas Neto e disse, sem entrar em detalhes, que não gostava nem do personagem nem de seu irmão.

Bandeiras e camisetas à venda na loja da Havan - Matheus Pichonelli - Matheus Pichonelli
Bandeiras e camisetas à venda na loja da Havan
Imagem: Matheus Pichonelli

Sugeriu que, se a criança gostasse de carrinhos de mão, uma opção era a linha patriótica protagonizada pelo patrão. "Ele é uma pessoa maravilhosa", afirmou a vendedora.

Seu maior orgulho foi ter tirado uma foto com o chefe celebridade durante uma de suas muitas visitas à loja. A foto está guardada no celular. "A gente fica até arrepiada. Não é puxa-saquismo, sabe? Mas ele trata todo mundo da mesma maneira. Você precisa ver."

Ela conta que trabalha na rede há três anos e que seu maior exemplo é um ex-funcionário da zeladoria que virou gerente regional. Zeladoria? "É como chamamos os responsáveis pela limpeza. Não falamos faxineiros, sabe?"

O sorriso no rosto só desaparece quando ela é perguntada se está sabendo do depoimento do chefe à CPI. "Não estou sabendo. Mas eu acredito em tudo o que ele falar."

Caminhões de brinquedo vendidos na loja da Havan - Matheus Pichonelli - Matheus Pichonelli
Caminhões de brinquedo vendidos na loja da Havan
Imagem: Matheus Pichonelli

Como ela, ao menos 50 funcionários espalhados parecem ocupados demais para acompanhar o noticiário por qualquer plataforma. A única TV ligada na TV aberta estava no alto da praça de alimentação, do outro lado do estacionamento. Ali, os primeiros clientes do almoço assistiam atentos ao programa da Fátima Bernardes.