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Matheus Pichonelli

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Get Back' capturou a angústia dos Beatles diante do fim. Não só da banda

"The Beatles: Get Back": Série documental traz imagens nunca vistas do grupo - Twitter / @DisneyPlusBR
'The Beatles: Get Back': Série documental traz imagens nunca vistas do grupo Imagem: Twitter / @DisneyPlusBR
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Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do UOL

01/12/2021 04h00

No filme "Yesterday", o músico interpretado por Himesh Patel senta ao piano após um pedido dos pais para tocar alguma nova composição. Jack Malik então começa a dedilhar uma introdução familiar aos ouvidos do espectador, mas não à plateia sentada do sofá.

Na história imaginada pelo diretor Danny Boyle, Malik é o herdeiro do espólio de uma banda da qual ninguém jamais ouviu falar. O apagão faz daquelas pessoas na sala as testemunhas da primeira execução mundial de um clássico.

As interrupções constantes do celular, da campainha e as conversas paralelas com uma visita emporcalham a obra-prima com as urgências mais ordinárias.

"Jesus, essa música é Let it Be! Vocês são as primeiras pessoas na terra a ouvir essa música! É como ver o Leonardo Da Vinci pintando a Monalisa, aquela obra-prima, na sua frente! Será que vocês conseguem ficar quietos só por um segundo?"

Em "Get Back", o monumental documentário dirigido por Peter Jackson e lançado em partes pela Disney+ no último fim de semana, profanações do tipo surgem à tela aos montes.

Os registros são resultado de 140 horas de pistas sonoras e 55 horas de filme gravado em 16mm pelo diretor Michael Lindsay-Hogg entre 2 e 31 de janeiro de 1969. A ideia era fazer um documentário para um filme e uma apresentação para a TV, que iria ao ar naquele mês. Para isso John, Paul, George e Ringo precisavam parir músicas novas para ter o que mostrar após anos afastados da plateia. Um trabalho mais de formiga do que de cigarra.

Em uma das cenas, na manhã seguinte a um dia cansativo, o faz-tudo Mal Evans pergunta a Paul McCartney se ele conseguiu pensar em alguma música nova. O que acontece na sequência é a edição real da cena de "Yesterday" — só que na versão "Long and Winding Road".

Evans, a primeira pessoa na Terra a ouvir uma das mais belas composições de todos os tempos, não parece se dar conta de que está diante de uma Monalisa. Antes do refrão ele interrompe McCartney com uma pergunta sobre a logística do show frustrado.

Evans não é o único ali a riscar a Monalisa com giz de cera.

Como bem definiu o colunista Pedro Antunes, aqui do UOL Splash, assistir às quase dez horas do documentário sobre o documentário montado por Peter Jackson é como conferir um protótipo de reality show, sem as interferências de Boninho.

É justamente a ausência de um chefão para coordenar os trabalhos que faz do filme um retrato agigantado de uma época. Tudo ali é uma bagunça. Todos parecem perdidos. A começar por Lindsay-Hogg.

Nas sobras do soturno documentário que ele levaria aos cinemas em 1970 com o nome "Let it Be", abundam agora, em 2021, imagens dessa dispersão. Sob a coordenação de Jackson, essa dispersão confere outro significado à obra e à própria história da banda.

Sim, John, Paul, George e Ringo estavam cansados. Sim, a banda estava no fim. Sim, o convívio já não era fácil. Mas sim: eles ainda eram capazes de se divertir, rir do próprio cansaço, dos próprios limites, e fazer daquilo, conscientemente ou não, um amálgama que estava prestes a ser perdido.

Aquela dispersão, com um mundo aberto de possibilidades, é a parte irritante e fundamental de todo o trabalho. É o que aproxima e afasta os músicos em convívio forçado durante o processo de criação e coloca em perspectiva alguns dos grandes nós daquele século.

Ali é visível o luto dos artistas diante da morte dos jovens que foram um dia, embora traços daquela meninice do início da carreira apareçam aqui e ali. Nenhum deles havia completado 30 anos ainda — Paul, que tentava preencher o vácuo da liderança deixada pelo empresário deles, Brian Epstein —que morreu um ano e meio antes— tinha só 26 anos.

Ele abre o jogo à sua maneira e se queixa da ausência daquela figura paterna. Em um raro momento de concordância, todos assentem: fazia falta, para eles, ter alguém que dissesse o que fazer, como e quando. Que desse um sentido ao que produziam, enfim.

Quem fala ali são os filhos órfãos, que compensaram com um desenho de fraternidade juvenil, por quase dez anos, a ausência de outros referenciais de autoridade — uma ausência fundamental para se entender os pedidos de socorro em suas letras, sobretudo as de John e Paul. Agora naqueles dias eles não pareciam tão seguros de si. E gritavam por ajuda, por alguém que desse alguma dimensão do que era certo ou errado, o que era seguro ou não, naquela sequência de bifurcações existenciais representadas pelos nós, fios emaranhados e microfonias num ambiente labiríntico que parecia transformar todo mundo ali em personagens da música "Nowhere Man", o sujeito de lugar nenhum sentado na terra de lugar nenhum, com planos inexistentes para ninguém.

Sim, era mais fácil o tempo em que os referenciais de autoridades, políticos, religiosos, familiares e sociais mostravam uma cartilha, com prêmios ou palmadas ao fim da jornada, dizendo o que e como fazer.

Mas estávamos no fim dos anos 1960. Tudo naquela década era contestação. E as crenças de que os adultos sabiam alguma coisa havia se estraçalhado com as bombas lançadas nas grandes guerras que definiram aquele século.

Mas até os Beatles, um marco da rebeldia geracional, que iam ao palco uniformizados, pareciam precisar dessa referência.

O luto por Epstein, elaborado por cada um a seu jeito diante das câmeras, não é a única morte prenunciada ali. Os novos papéis sociais dos artistas exigiam um corte, pela base, dos figurinos antigos, em que a camaradagem da juventude compensava qualquer idiossincrasia de indivíduos adultos formados. Gênios ou não.

Paul, com sua barba crescida e a roupa mais bem alinhada, é o primeiro a entender essa urgência. Não sem duelar com ele mesmo. Ele insiste o tempo todo que era preciso tocar e voltar a ser o que eles eram antes, num apelo ao passado recente e agora distante. Mas ninguém ali era mais o mesmo.

Seu humor oscila tanto quanto o nosso ao ver seu desespero. A performance de liderança a exigir seriedade dos amigos era neutralizada (ou compensada) pouco depois com uns goles a mais, quando enfim relaxava e entrava também na brincadeira.

A figura do pai em Paul McCartney já se desenhando com o cuidado em relação à pequena Heather, filha de Linda Eastman, sua companheira e presença constante nas gravações.

George Harrison também parecia mergulhado no mesmo conflito, mas em silêncio. O rompimento, para ele, precedia uma viagem para dentro, num vórtice espiritual já presente em suas composições e flertes com o hinduísmo. E isso também exigia espaço, afastamento.

Ringo, em uma cena, conta sem a menor empolgação que sua companheira está grávida. Ouve um protocolar "parabéns" antes de voltar à esteira de produção.

John Lennon, por sua vez, é quem mais se rebela contra todos os papéis e rompimentos iminentes. Não da banda em si, mas dos novos imperativos.

O pai ausente do primeiro filho está na verdade reivindicando ali, com danças, caretas e uma aparente incapacidade de levar qualquer coisa a sério, o último suspiro da adolescência tardia.

(O aparente descaso, cada vez que eles precisavam regravar as músicas é quase a revelação de um desencanto, um segredo industrial, mecânico, repetitivo, baseado numa fórmula que, para eles, não tinha nada de mais até começar a ter. Eles também não sabiam que estavam diante da Monalisa).

Em resumo, a vida era o que acontecia enquanto todos ali estavam ocupados fazendo planos mirabolantes para o retorno triunfal.

Ao longo de todo o documentário, é recorrente a referência de Lennon ao discurso em que Martin Luther King, morto um ano antes, dizia ter um sonho.

Os planos para aquela apresentação, a princípio monumental, envolviam sonhos gloriosos para disfarçar um medo extremo. O anfiteatro Sabratha, na Líbia, ficou pequeno para tantos planos e tanto medo.

Os inacreditáveis vaivéns do projeto até a banda subir de vez ao telhado (desculpem o trocadilho) só reforçam a evidência da falta que fazia um adulto naquela sala — ou um advogado, para dizer que a ideia final iria dar ruim. Aquela figura de autoridade era o adulto que os meninos que outro dia cantavam "Please, please me" queriam não ser.

John tinha um sonho e não sabia qual. Um ano depois, confessaria na música "God", de quem decretou a morte, como Nietzsche, que o sonho havia acabado. Com o fim do sonho, foi embora também sua crença em magia, na Bíblia, no tarô, em Jesus, em Buda, em reis, em Elvis Presley e, claro, nos Beatles.

Por ironia macabra, quando foi assassinado, em 1980, em Nova York, Lennon estava finalmente em paz com esse papel que tanto rejeitava. De uma forma quase precária, ele tentava dizer que seu interesse, naquele trabalho de formiga que resultou em dois filmes e no álbum "Let it Be", era de se comunicar com o público. Um público, ele sabia, formado por garotos como eles, que saem da infância implorando por amor e entram na vida adulta pedindo desesperadamente pela volta de alguém. A volta ao lugar de onde todos nós viemos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL