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Matheus Pichonelli

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Com inflação em alta, supermercados viram depósito da raiva e da frustração

Imagem meramente ilustrativa - Roberto Parizotti
Imagem meramente ilustrativa Imagem: Roberto Parizotti
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Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do UOL

24/11/2021 04h00

Uns amigos me chamaram a atenção para um fenômeno difícil de mensurar, mas fácil de perceber: andar pelo supermercado virou um teste para a sanidade.

A chance de esbarrar com algum condutor de carrinho enraivecido, soltando fumaça pelas ventas entre gôndolas e corredores é grande. A caminho do caixa, gente que não costumava furar fila já não olha para quem vem ao lado. Na ponta do caixa há sempre alguém cansado ou cansada da espiral de queixas e revolta contando as horas para chegar logo em casa.

Diz o chavão que gentileza gera gentileza. O mesmo vale para os coices. Ninguém já nem ousa botar pra tocar "O que faz você feliz/ Você feliz o que faz" num ambiente assim. O "Então é Natal" da Simone, então, virou artigo proibido por ali.

As caras fechadas proliferam, sorumbáticas. Por onde se olha, pessoas bufam e franzem a testa não como quem vai para uma guerra, mas como quem volta derrotado de uma.

A razão parece óbvia.

Dias atrás, no mercadinho do bairro, uma operadora de caixa, também proprietária e repositora de estoque, me pediu desculpas enquanto disfarçava o desnorteio. Não chegava a chorar, mas a voz vinha em tom de lamento. Minutos antes, um cliente havia deixado o local enfurecido, perguntando se ela não tinha vergonha de vender pó de café a R$ 17.

Ela tentou argumentar que a culpa não era dela, mas o sujeito não queria conversa. Ninguém quer. Ele deixou as compras para trás e respondeu ao bom dia com um insulto.

Enquanto se aprumava, ela se queixava da demora de um fornecedor para trazer, logo cedo, as folhas e leguminosas. Era quase meio-dia e, até então, nada do caminhão. Estava subentendido que ele priorizava as grandes redes, certamente com melhores condições de pagamento.

O maço de rúcula que eu tinha na mão era do dia anterior. Ela não me deixou pagar. Parecia querer compensar o absurdo de registrar R$ 8 na etiqueta da sacola algumas (poucas) ameixas para a semana. Reparei que a geladeira de carnes que havia ali estava vazia. Provavelmente porque não valia a pena manter o estoque sem que houvesse gente disposta a pagar R$ 50 pelo quilo da alcatra — por curiosidade, vi que uma rede de grande porte vendia a mesma peça por esse valor, mas dividido em 12 vezes.

O Brasil de 2021 é isso: você leva o almoço do fim de semana e só termina de pagar no Natal do ano que vem. Paulo Guedes, ministro da Economia, diria que a culpa é do pobre, que não sabe comer pouco e em pequenas porções parceladas. Dizem por aí que ele também tem evitado passear no supermercado.

Fato é que circular nos espaços de compra, do tamanho que for, é esbarrar com os "dias de não" descritos na música do Leoni com a Zélia Duncan. Você chega à prateleira e conclui que é "melhor não". Vai para outra seção e... "não, deixa pra lá".

A área do açougue já pode mudar o nome para o corredor da negação. Ou da ostentação. Outro dia encontrei um vizinho no setor da maminha e pensei: "porran, o cara tá bem, hein". Se for camarão, então, ferrou. Wagner Moura que o diga.

Em outros tempos Freud chamaria isso de narcisismo das pequenas diferenças. Com a inflação, de 30% só na carne (não, isso não é uma metáfora), já não são tão pequenas assim. Nas divisas invisíveis em torno dos itens importados e/ou orgânicos, a sociedade brasileira se revela agora uma sociedade de castas distanciadas entre ossos, para quem ainda pode, e os produtos artesanais, para quem tem. Aos fundos o mesmo país se estapeia pelos ossos.

Não faz muito, sentar à mesa em família era ouvir dos mais velhos a velha conversa de que quando crianças eles só viam "mistura" no fim de semana. "Mistura" é um nome popular para carne. Qualquer carne. No léxico das vacas magras, não deve ser por acaso que o acompanhamento era chamado de "guarnição".

Os relatos levam à conclusão de que também não deve ser casual a associação da felicidade dos encontros com a ideia de fatura à mesa. No fim do ano, a cornucópia das ceias natalinas, com o consequente ranço geracional, quase blasé, com a piada do pavê, que sempre sobrava e nunca faltava, é reflexo desses tempos dos quais millennials em diante conhecem por ouvir falar, mas não como memória. Hoje estamos mais perto dos avós do que dos pais ascendentes.

E isso também eleva o nível de mau humor ostensivo dessa época do ano entre quem bateu o olho na geladeira dos mercados e concluiu que desta vez o chester não virá tão peitudo e o tender serão apenas algumas (poucas) fatias de presunto com muçarela. O queijo da canastra fica para outra hora.

Aqui e ali, a gente faz o que pode, sabendo que excesso agora é luxo, e segue com o que tem. Não é exatamente um conforto, mas fica como lembrete o fato de que nem tem botijão de gás para tudo — em alguns lugares, se acabar, acabou, assim como o óleo de soja, que em setembro já acumulava alta de 84% em relação aos 12 meses anteriores.

O resultado dessas disparadas é um país em constante estado de irritação, cansado de dizer "não" — mentalmente, diante das ofertas que nem parecem ofertas e também na frente das lojas, onde a negação é a palavra-chave dos que esbarram com pessoas de mãos estendidas para a piedade.

Sim, o simples fato de entrar no supermercado e conseguir ficar lá só dez minutos para não entrar na espiral de irritação e só levar o que dá é ainda privilégio num país que vê a fome voltar ao mapa e às ruas. Para isso não existe ainda palavra.

Em outros espaços, o sinal dos tempos já despontam com a face da carestia. A escola, por exemplo. Em uma delas, no Rio de Janeiro, uma professora da rede municipal do Rio de Janeiro contou ter visto uma aluna desmaiar porque chegou à aula sem ter comido nada em casa. Ela não pediu ajuda antes por vergonha.

Pensando bem, existe sim uma palavra para isso. É desolação.

Nesta época de fim de ano, quem ainda puder, vale ficar de olho e contribuir, com o que for possível, no trabalho de grupos responsáveis pela distribuição de alimentos a quem tem fome. Em um país estacionado entre a raiva e a ruína, qualquer pouco é muito.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL