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Matheus Pichonelli

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O que diria Machado de Assis sobre a eleição de Gilberto Gil para a ABL?

 Gilberto Gil foi eleito para a cadeira 20 da Academia Brasileira de Letras   - Grupo CARAS
Gilberto Gil foi eleito para a cadeira 20 da Academia Brasileira de Letras Imagem: Grupo CARAS
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Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do UOL

13/11/2021 04h00

"Quem é esse Gilberto Gil? É algum escritor importante?"

"Gilberto Gil. Inpinologo (sic) de idiotas"

"Quantos livros Gilberto Gil escreveu? Escreveu: Huhuhhhuuuuuu...Ahhhahhhaaaahhhh. Sistema De Cotas?".

O chorume foi içado do Twitter logo que surgiu a notícia de que Gilberto Gil tinha sido eleito para assumir a cadeira 20 da Academia Brasileira de Letras, na quinta-feira (11). Eram manifestações minoritárias em meio a um festival de reverências e congratulações — a maioria lembrando que Gil e Fernanda Montenegro, escolhida dias antes, já eram imortais muito antes da escolha.

Mas a violência das reações, minoritárias mas não isoladas, dá o tom do belicismo ressentido que tomou o debate público. "Pqp...não é possível! Na certa o próximo imortal será o Chico César, por ter escrito: "Oooh, amarrara zaia soiê, dzaia, dzaia, aí, iii, gatuannn", escreveu um tuiteiro com bandeirinha do Brasil ao fundo e que se identificava como 100% cristão e conservador. "Antes tínhamos na ABL Guimarães Rosa, Rachel de Queiroz, Euclides da Cunha e Rui Barbosa. Hoje temos Gilberto Gil. Que decadência", respondeu um dos seus mais de 100 mil seguidores.

Nestas últimas postagens, dois pontos chamavam a atenção. Um é o fato de que algum dos tuiteiros tenha realmente lido alguma linha de Rosa, Rachel, Euclides ou Rui Barbosa. O segundo é a associação da decadência com a chegada de um homem negro à lista — já indicando que a guinada se confirmará na posse de outro cantor e compositor com forte identidade afro.

Os revoltados online talvez preferissem ver vestido no fardão o atual secretário Mário Frias, que dias atrás prometeu trabalhar incansavelmente para que todos os os brasileiros tenham ASSESSO (sic) a cultura. Ou que os flertes ao nonsense via Twitter rendessem uma indicação a Carlos Bolsonaro (da lavra do 02 meu verso favorito é um poema: "Vagabundo, dá uma cheirada nos meus bagos depois de um futebol rala coco e já sabe o que fazer com resto!")

Latidos à parte, a presença de Gilberto Gil na ABL, que teve como primeiro presidente Machado de Assis, também um homem negro, é uma das raras boas notícias em um país acostumado ao luto e novamente às sombras dos coturnos e do recalque das cinturas presas.

O pedaço ressentido do país que agora rejeita Gil e tudo o que ele representa para a cultura popular é o mesmo país que Machado descortinou, sem piedade, com a pena da galhofa e a tinta da melancolia.

Machado, é certo, queria uma Academia restrita aos escritores, mas foi vencido pelo colega Joaquim Nabuco, favorável a um conceito mais amplo de humanidades, a exemplo do que acontecia na Academia Francesa e sua porta aberta a notáveis do direito, da diplomacia e da ciência.

Machado, que brincou ter conversado com entidades durante uma sessão espírita, em crônica de 1885, se tiver aprendido o caminho de volta e ouvido a antologia poética do novo imortal certamente concluirá, 125 anos depois, que Nabuco estava certo. Brás Cubas, seu defunto autor, concordaria que é preciso estar morto por dentro, mesmo depois de morto, para não se render a quem botou em música versos como "O amor da gente é como um grão/ Morre e nasce trigo/ Vive e morre pão".

Vai ser bom assim com as palavras lá no Petit Trianon, diria Machado.

O cantor e compositor baiano chega à Academia com uma folha de serviços prestados à musicalidade e "às arritmias brasileiras", como definiu à Folha de S.Paulo. Nessa mochila, mostrou Gil, cabem samba, baião, fraseado, palavras novas e novas construções poéticas.

Aos que insistem que a uma Academia Brasileira de Letras só deveria valer a letra escrita, não falada ou cantada, é preciso lembrar que Gil é também autor de um livro de referência, "Todas as Letras", publicado em 1966. Além, claro, de ter sido peça-chave para o surgimento de uma multidão de novos artistas, entre eles um cineasta premiado amigo meu que brotou e cresceu a partir dos muitos pontos de cultura espalhados em seus tempos de ministro — ele hoje se define como "um dos muitos filhos de Gil". Invertendo Machado, essa multidão é a herança direta de quem transmitiu ao mundo o legado de sua poética.

Gil, que na juventude via a ABL como uma referência "passadista, de coisa mofada", hoje a reconhece como uma instituição em que "estão nela senhoras e senhores com acumulações significativas de sua vida, do ponto de vista existencial e cultural" e que "é preciso ter apreço por isso".

Para ele, "o significado da presença do negro na vida brasileira precisa reluzir em determinados lugares" e a "ideia da Academia é essa de brilho, de superfície polida". "São oportunidades que têm sido subtraídas aos negros no Brasil", disse ele, na mesma entrevista à Folha.

Gil é o exato oposto a este Brasil que se quer subtrair e impor de cima a baixo.

Ele representa o edifício civilizatório brasileiro que tentam, mas não conseguem, derrubar. Por isso sua presença na ABL pode e deve ser celebrada.

Não tem como não sorrir ao ler no jornal que o novo imortal fez silêncio após o repórter Claudio Leal perguntar se haverá patuscada do bloco baiano Filhos de Gandhy em sua posse. "Acho que todos que me cercam, a própria Academia com suas circunstâncias criativas, meu campo todo de relacionamento na música, meu campo afetivo, todos eles vão se mobilizar para dar uma ritualidade na posse".

Não espero menos do que uma festa do tamanho daquela que Gil levou à sede das Nações Unidas, quando tocou "Toda Menina Baiana" ao fim dos trabalhos e botou o mundo, literalmente, para dançar — inclusive o secretário Kofi Annan.

Para quem insiste em não dançar, aquele abraço.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL