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Matheus Pichonelli

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bolsonaro no G20 representou uma nação de esquisitões que não sabem dançar

30.out.2021 - O presidente Jair Bolsonaro fala com o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, no encontro do G20 em Roma - Reprodução/UOL
30.out.2021 - O presidente Jair Bolsonaro fala com o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, no encontro do G20 em Roma Imagem: Reprodução/UOL
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Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do UOL

03/11/2021 04h00

Se a cúpula era a pista, a antessala da reunião do G20 era o fumódromo onde tudo o que de fato importa acontece numa festa: casais se formam, amigos se reencontram, botam os papos em dia, conhecem gente, trocam números de telefone, impressões, combinam as próximas incursões noturnas. A diferença é que, nas rodas de conversa dos chefes de Estado das 20 nações mais poderosas do planeta, o que estava em pauta era a fórmula para salvar o mundo do colapso.

Era para isso que estavam lá líderes como Olaf Scholz, futuro chanceler da Alemanha, sua antecessora, Angela Merkel, o presidente francês Emmanuel Macron, o primeiro-ministro britânico Boris Johnson, o secretário-geral da ONU Antonio Guterres e a chefe da União Européia Ursula van der Leyen. Todos eles pareciam esperar alguma coisa daquele sábado à noite.

Menos Jair Bolsonaro.

Bolsonaro, com o desconforto escancarado no incrível registro feito pelo colunista do UOL Jamil Chade, parecia só querer estar no escuro do seu quarto, à meia noite, à meia luz, sonhando e concluindo que daria tudo (a Petrobras, a Casa da Moeda, o Banco do Brasil se pudesse) por seu mundo e nada mais. Um mundo com seu cercadinho, seus puxa-sacos e seu pão com leite condensado.

Mais do que um país cada vez mais isolado, Jair Bolsonaro representava, naquele encontro com os pares do G20, uma nação de esquisitões com cintura presa que passaram a adolescência toda num canto da pista, cochichando com outros esquisitões —e talvez com seu amigo imaginário Jim Carrey— sem coragem para dar o passo seguinte.

Conheço gente que não conseguiu ver o vídeo até o fim por motivos de gatilho. Todo mundo em algum momento da vida já experimentou a terrível sensação de estar num lugar sem ter a menor ideia de como circular, puxar papo e parecer espontâneo. Tenho amigos que nunca gostaram do presidente, nem de balada, mas desde o fim de semana, pela primeira vez, se compadeceram com o drama do capitão. Questão de identificação. Se isso se converter em voto, o presidente está feito. Como o capitão, eles também se gabavam entre os parceiros, no lusco-fusco entre o fumódromo e a pista, de feitos que nunca obtiveram.

Um desses amigos lembrou, num grupo de WhatsApp, dos tantos embalos de sábado à noite frustrados pela sensação de não-pertencimento afogada em álcool e tentativas catastróficas de botar o coturno na dança sem pisar no pé de ninguém. (Seu apelido, mas isso ele não sabe — até agora — era "espalha-roda". Aparentemente por causa da mania de querer contar piada na roda de dança quando o DJ começava a tocar "oh, lady, lady don't cry". Tolerem: isso eram os anos 90).

Ao ver o presidente sozinho no canto com seu estafe, tentando emplacar no café uma piada sobre a vitória do Brasil contra os anfitriões da festa na Copa de 70, e apontando de longe para todo mundo na pista, meu amigo de colégio ficou com a sensação de que em algum momento o presidente iria pedir para o tradutor fazer a ponte até a gatinha pra saber se ele tinha alguma chance com ela. Era o que esse amigo sempre fazia. Era um massacre.

Até no desfecho trágico da festa, Bolonaro ativou os traumas dos adolescentes de 20 e 30 anos atrás.

Dos muitos baladeiros frustrados por desfilarem na beira da pista sem serem notados, Bolsonaro mostrou ser da categoria dos que compensam a rejeição arrumando briga do lado de fora — no caso, botando os cães-de-guarda para maltratar jornalistas e quem não estivesse ali para bater palma para autocrata (não) dançar.

Como tantos que perceberam, talvez tarde demais, que aquele não era seu ambiente, e que poderiam ser feliz e encontrar sua turma em outro lugar, Bolsonaro bem poderia chegar em casa e admitir que a fantasia de estadista não cabe mais. Como os jovens de cintura-presa, forçados a mostrar um talento que não tinham em um lugar que no fundo detestavam, sua renúncia ao papel pouparia o sofrimento dele e dos outros. "Às vezes me pergunto, Deus, o que fiz para merecer isso", deu a deixa o capitão, em um dos muitos momentos em que se queixou das obrigações do cargo.

Tudo bem passar vergonha na festa. Tudo bem não se adaptar.

Só que, no caso do chefe de Estado, ninguém o obrigou a ir até lá.

Ele se candidatou para isso. Foi eleito para isso: formar alianças, expandir contatos, mostrar que de fato sabe dançar.

Só que para circular ali e encontrar o lugar de seu país no mundo, é preciso experiência, talento, gingado e inteligência —principalmente emocional. É preciso gostar sobretudo da vida em sociedade e entender por que ninguém o tira para dançar, talvez com receio dos pisões e bordoadas que venha a distribuir.

"Não sou tão mau como dizem", disse para Angela Merkel a certa altura da balada.

Pelo jeito, não colou. Bolsonaro, como galanteador, é um péssimo dublê de presidente.