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Matheus Pichonelli

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Pandemia mudou até minha forma de ouvir música. O novo sempre vem

Toque de recolher deixa ruas e avenidas de capitais vazias durante o amanhecer - Shutterstock
Toque de recolher deixa ruas e avenidas de capitais vazias durante o amanhecer Imagem: Shutterstock
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Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do TAB

03/07/2021 04h01

Dorme na minha gaveta de textos nunca publicados uma crônica sobre como as músicas que costumava ouvir no fim do dia perderam o sentido ao longo da pandemia. Essas canções falavam de um mundo temporariamente suspenso que já não alcanço.

Mesmo os dramas cantados em clássicos da fossa-pop, como "Ouro de tolo", de Raul Seixas, hoje me soam pueris. Quer ver? Depois de meses sentado no trono de um apartamento com a boca escancarada, cheia de medo da vida lá fora, me parece um sonho, e não uma queixa sobre a vida burguesa, poder levar a família ao jardim zoológico num domingo para dar pipoca aos macacos. Macaco-praia-carro-jornal-togobã: agora eu acho tudo isso o máximo.

E distante.

Como tudo nestes tempos de confinamento, músicas assim já não me tocam como tocavam antes. E, num impulso de causar inveja a Rodrigo Hilbert, decidi construir minha própria música. Justo eu, que não toco instrumento algum.

Não, não colhi madeira na vizinhança para fazer meu próprio violão. Mas me inscrevi, no começo de junho, em uma oficina para aspirantes a compositores. "Você vai ver que sabe fazer música, mas não sabe que sabe", disse, mais ou menos com essas palavras, um paciente e generoso professor de música do outro lado da tela.

Era o cantor e compositor Leoni, autor de algumas das minhas músicas favoritas da vida pré-pandêmica. ("Temporada das flores" e "Canção para quando você voltar" foram partes fundamentais da trilha sonora de um começo de namoro que, em 2021, chegou à 18ª temporada. Mas esse é assunto para outra crônica. Ou não).

A oficina tinha quatro encontros online, sempre às quartas.

Ao fim de cada aula, tínhamos que apresentar o progresso de algum exercício: uma melodia sobre uma base de violão, uma letra sobre uma melodia, uma letra sem melodia alguma.

Nos encontros, estudávamos a estrutura nem sempre visível de composições que viraram hits. Música, aprendi, é padrão e repetição. Por isso um refrão bem feito é metade do caminho. Um caminho pedregoso, como todo artifício criativo, que exige trocas constantes de palavras que encaixem no ritmo das sílabas tônicas, não no fluxo da ideia original, como acontece na prosa.

A troca de uma palavra certa por outra possível naquela estrutura é justamente o barato da criação musical.

Parece fácil, mas vai fazer. (Vai ver é por isso que a história da nossa música é a história das grandes parcerias).

Por alguma razão, contextos históricos pesados conspiram a favor da criação. As músicas são clarões abertos em tempos estranhos. As proparoxítonas de Chico Buarque colocadas, tijolo por tijolo, nos desenhos mágicos de obras-primas como "Construção", música feita no auge da ditadura, não me deixam mentir.

Mas onde estão as músicas deste tempo pandêmico, confinado, esfolador da verve criativa para nós, ouvintes? Não estão tão longe quanto parece.

Na última aula, Leoni contou como compôs, em parceria com a Zélia Duncan, uma música nascida da ideia da repetição dos dias na pandemia. Essa repetição apareceu num acorde de violão e levou a outro. Pelo WhatsApp, ele mostrou a ela o resultado e a convidou para colocar palavras naquele som. Melodia vai, letra vem, a música foi ganhando corpo num trabalho de formiga que levou semanas, meses.

A pandemia, vejam só, pariu uma música que capturou o espírito desses dias. Os "dias de não" que nos obrigam a "aprender a começar depois do fim".

"Sobre esses dias" é um pouco a história de todos nós: cidades vazias, pessoas distantes, muita gente paralisada pelo medo, mas com um sol de outono "sobre esses dias, sobre nós" avisando que estar de pé é resistir.

As ferramentas que ganhei da oficina ainda não sei para onde vão me levar. Mas minhas tardes de outono voltaram a ter som.

Aos poucos, dias assim vão produzindo uma nova trilha sonora, como o cinema que se reinventa. Num trabalho à distância, Lô Borges retomou a parceria com o irmão, Márcio Borges, e acaba de lançar um álbum novo. Vem coisa boa por aí.

E a Marisa Monte quebrou a reclusão e gravou seu primeiro álbum solo de inéditas depois de quase uma década. Um trabalho cheio de "afirmacionismo", o exato oposto do afeto que nos paralisa há meses e nos condena ao silêncio.

"Portas", a música que abre e dá nome ao álbum, mal nasceu e já trouxe para minha casa alguma fresta muito parecida com a alegria. Faz algumas horas que ouço no repeat como quem acende um fósforo, e depois outro, e outro, na escuridão.

Se faltava uma boa notícia sobre esses dias, não falta mais.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL