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Matheus Pichonelli

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A geração Z te deixou 'cringe'? Pois espere a ascensão dos alpha

Geração Z destronou os millennials e não destronou pouco - Finn Hafemann/Getty Images
Geração Z destronou os millennials e não destronou pouco Imagem: Finn Hafemann/Getty Images
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Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do UOL

23/06/2021 04h00

Não sei vocês, mas quem era esquisito dentro da própria bolha geracional não viu o menor sentido na choradeira diante da ferida narcísica de quem acaba de descobrir que é feio e não está mais na moda.

(Se vocês pegaram a referência, vocês envelheceram. E estão fora de moda. E provavelmente não estão mais belos.)

Alguns de nós, nascidos no começo dos anos 1980, já éramos cringe antes de virar modinha. Digo isso enquanto ostento meu pijama e minha calça larga no camarote às avessas onde vi entrar e sair de cena todo tipo de moda. Das meias coloridas ao ICQ, passando pelo litrão. Nunca fui usuário nem de um nem de outro. Só fiz conta no Orkut porque valia nota na faculdade.

Durante anos, sustentei a fama de "jovelho" abstêmio que ia pra missa e jogava futebol de salão de All Star e meia branca comprida e camisa verde-limão do Palmeiras de 96 pra dentro, como manda o figurino. Na época a moda era ser grunge, mas eu levaria anos para descobrir Nirvana.

Até então, era só o esquisitão que não sabia cantar uma única música da MTV ou das sete melhores da Pan. Gostava mesmo era dos hinos dos clubes de futebol. E de jornal. Em papel — isso muito tempo antes de me aposentar com cabelos brancos e sentar na varanda para reclamar em paz do preço da carne.

Gostava tanto de jornal impresso que cheguei a ouvir (sem ser visto) o pai de uma namorada dizer, num misto de estranheza e indignação, a um amigo: "ele é bonzinho. Você dá um pedaço de jornal pra ele e ele fica horas no canto sem amolar ninguém".

Era verdade. No cursinho, meu melhor amigo era um professor de literatura que, no intervalo, apostava corrida com a professora de gramática para ver quem pegava antes o jornal para ler o Cony. No clube, enquanto a Turma do Samba arrancava suspiros dos meus amigos descolados, eu gritava "toca Raul" no baile da saudade com os amigos do meu pai.

Pois a geração que ridicularizou o tio do pavê e da piada do "vou Paul McCartney no correio" agora se vê no espelho. É a justiça divina proclamada no Twitter: "Você não ria da sua mãe quando ela batia o dedo indicador na tela do Motorola e levava meia hora pra escrever "oi" no WhatsApp? Agora se ferra aí pra fazer dancinha do TikTok".

Entre os hábitos dos novos velhos ridicularizados pela geração Z estão assistir noticiário, usar sapatilha, ouvir pagode, gostar de "Friends", pontuar frases e mandar emojis amarelos chorando de rir. É nessa hora que o amigo internauta (olá, internauta!) se pergunta: e desde quando tudo isso NÃO foi deprimente?

Aos novos integrantes do baile da saudade, se aceitarem um conselho, diria que ser chamado de "cringe", a nova versão de "deprimente", "uó" e coisa e tal, é mel na chupeta perto do que vocês faziam com os detentores de mullets, dos permanentes, de gírias tipo "broto", dos bigodes à la Belchior ou do disco dos Pholhas..

Meu deslocamento com o que era cool na época certa me deixou com casca. Espanto mesmo foi saber que minha calça larga entrou na moda sem sair do lugar. Daí a reivindicar meu lugar na moda são outros 500.

De onde estou, não guardo recalque ou inveja de quem chegou agora à pista. Até porque não costumo invejar quem não transa.

Preocupação mesmo eu tenho é com a geração alpha. Os nascidos depois de 2010.

Tenho um representante da gangue dentro de casa e já percebo alguns sinais.

Se pudesse, chutaria que os centennials são uma espécie de limbo entre quem nasceu offline e os que vão promover o maior detox digital já visto. Desconfio (na verdade torço para) que meu filho, aos 20 anos, considere o suprassumo da cringice humana ver alguém num sábado à noite com os dedos e os olhos presos numa tela. E que as redes sociais sejam para ele o que foram os sucos em pó sabor câncer para minha turma.

Com os alpha, chuto eu, muitos hábitos milenares estarão com os dias contados. Aí sim haverá choro e ranger de dentes.

Um exemplo é o fanatismo futebolístico, que herdei do meu pai, que herdou do meu avô, que herdou do bisavô. Meu filho de oito anos não só não se identifica com as neuroses do pai diante da TV como não vê o menor sentido em torcer em uma tela plana por algo com o qual não pode interagir, mudar, pausar, deixar pra ver depois. Para quem tem dez segundos de atenção disputados por todos os produtores de conteúdo deste mundo, 90 minutos mais os acréscimos e o intervalo é um latifúndio temporal que ele não está disposto a ceder.

As aulas online aprofundaram também a minha impressão de que não fará mais tanto sentido acordar, se trocar, se deslocar para o outro lado da cidade para passar a manhã ou parte da tarde sentado à espera do sinal da escola. Só não tenho ideia (nem muito otimismo) do que virá no lugar.

Quando criança, meus passeios aos finais de semana eram — para mim — chatíssimas incursões pela chácara dos meus pais e tios. Nossa cidade não tinha shopping center ainda. Quando o primeiro surgiu, andar pela praça de alimentação era como viajar, de galocha, para a Lua. A maior aventura que alguém poderia viver.

Para meu filho, que passou seus primeiros domingos numa bolha de ar condicionado e luzes artificiais, nada é mais empolgante do que um dia no mato.

Se, para a geração Z, não faziam sentido expressões do tipo "namorar pela internet" —como se as duas dimensões já não estivessem fundidas— para os alpha, a noção do real tende a ser mais bem delimitada. Se nossos primos mais novos, hoje na casa dos 20 anos, passam tranquilamente uma noite, uma semana ou dois anos apenas com interações online, quem atravessou o dia nas aulas virtuais quer mais é ficar longe de tudo aquilo na primeira chance.

Para crianças que viram os pais (e tios mais novos) pilhados no celular, interagir com alguém não vale quando a pessoa está presa em uma tela. Vimos isso na pandemia, quando os encontros virtuais só entretinham os jovens adultos. Para nosso filho, a vida mesmo só voltou a aflorar quando revisitou o quintal da vó. De todas, o mundo lá fora ainda é a tecnologia que mais o impressiona.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL