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Matheus Pichonelli

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Rinha da vacina' é só marketing político? Então pode mandar mais

Briga do bem: Flávio Dino (PCdoB), do MA, João Doria (PSDB), de SP, e Eduardo Paes (PSD), do Rio, estão "competindo" para ver quem vacina mais pessoas em menos tempo - Divulgação/Governo do MA; Divulgação/Governo de SP; Daniel Resende/Estadão Conteúdo
Briga do bem: Flávio Dino (PCdoB), do MA, João Doria (PSDB), de SP, e Eduardo Paes (PSD), do Rio, estão "competindo" para ver quem vacina mais pessoas em menos tempo Imagem: Divulgação/Governo do MA; Divulgação/Governo de SP; Daniel Resende/Estadão Conteúdo
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Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do UOL

16/06/2021 04h00

Futucando bem, todo mundo tinha pereba, remela, unha encardida e dente com comida entre os meninos do nosso prédio. Só o Levizinho que não tinha. Minha mãe sabia disso e usou o quanto pode a estratégia para fazer os filhos saírem da letargia — o que, na infância, significava se recompor e limpar o rosto depois de um berreiro girando com as costas ao chão gritando "eu quero, eu quero, eu quero" na frente da loja.

O Levizinho, afinal, jamais faria isso. Pronto. A sentença era a senha pra gente se realinhar e voltar para o caminho da luz. Ou do estacionamento.

O Levizinho, com sua camisa polo do jacarezinho, pulôver e sapatênis, era o filho-modelo cuja onipresença em qualquer assunto em casa tinha mais efetividade do que estalo de chinelo. Modos, higiene, desempenho escolar, bolsa de estudos e futuro pilotando espaçonaves ou inventando a cura de alguma doença: não tinha tema em que o Levizinho, sujeito odiado, não estivesse na frente dos filhos sujismundos daquele prédio.

A sua simples presença no pátio era o suficiente pra gente largar a vida de desleixo e entrar numa competição acirrada por tudo o que mais importava naquela fase da vida: a atenção da mãe.

Em dias de festa, era o menino chegar com sua franja de Leonardo Di Caprio pré-Scorsese que já corríamos para aprumar a roupa estropiada, pentear os cabelos e passar a tarde servindo copos d'água e carne ao ponto para os adultos à mesa. Foi naquele tempo que passamos a oferecer serviços gratuitos como lavar a louça, recolher o lixo e esfregar alvejante nos vidros empesteados de brigadeiro.

Não seria exagero dizer que o Levizinho forjou o caráter daqueles moleques perdidos numa bifurcação sem risco de volta entre o Mega Drive e os revólveres de espoleta. Na vida adulta, o troco das crianças do nosso prédio seria usar agora em voz alta o exemplo dos pais do Levizinho que, olha só que gracinha, parecem mocinhos seguindo todos os protocolos sanitários. "E a senhora aí com a máscara no queixo."

Enfim, a hipocrisia.

Em política, o voto é a atenção da mãe de qualquer candidato à reeleição. Foi-se o tempo em que a vitória nas urnas dava ao postulante o direito a passar quatro anos passeando de chinelo raider e com os filhos pra cima e pra baixo a bordo de motocicleta, cavalo, barco e jet ski pra depois pedir, na cara dura, mais quatro anos de mamata. Quer ver?

No começo do mês o Levizinho da turma, João Doria, avisou no Twitter que até o fim de outubro vacinaria toda a população adulta do estado de São Paulo até 31 de outubro. O anúncio serviu como um chinelo voando no sofá onde já fazia poça uma baba no canto da boca de Jair Bolsonaro.

No mesmíssimo dia, o presidente deixou a sunga de lado e apareceu alinhado, o cabelo bem penteadinho, como um mocinho, em um pronunciamento de última hora na TV falando que todos os brasileiros que assim o desejassem poderiam ser vacinados ainda em 2021. Nem parecia o mesmo agente da aglomeração que, quando perguntado, manda o eleitor comprar vacina na casa da mãe.

Àquela altura, ninguém mais acreditava na sinceridade do olhar preso ao teleprompter, mas a corrida pela atenção dos adultos na churrasqueira estava oficialmente declarada.

De lá pra cá, sem a ajuda do texto decorado, Bolsonaro voltaria a rasgar a fantasia, como quando disse que as vacinas estavam ainda em fase de testes, defendeu a balela do tratamento precoce e mandou andar de jegue os passageiros que o vaiavam em um vôo comercial. Eram a deixa para os adultos da sala usarem o exemplo do Levizinho para exigir modos do capitão.

Coube ao ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, acusar o golpe e pedir créditos a João Doria após outro anúncio de nova antecipação do cronograma de vacinação em seu estado. As vacinas, emendou o ministro, só saíram do papel com ajuda federal.

"Quanto recalque, ministro", respondeu o governador, que já havia manifestado em público a suspeita de que Bolsonaro criou obsessão por suas calças apertadas. Positivada, a indumentária virou praticamente slogan de campanha.

O prefeito do Rio, Eduardo Paes, percebeu a brecha e entrou na querela. Mandou o tucano se cuidar, dizendo que ele era o pai da vacina, mas a criança havia sido adotada.

Doria respondeu: "aqui tem mais vacina na agulha".

Não demorou e, antes que o dia terminasse, boa parte das unidades da federação estava trocando provocações nas redes para ver quem vacinava mais e melhor.

Diante do octógono, tuiteiros de vários estados passaram a marcar seus governadores e prefeitos que estavam de fora. Exigiam que eles também entrassem na rinha.

Do Maranhão, muitos pediam ao governador do estado, Flávio Dino, para mostrar o muque. Lá, quem tem mais de 29 anos já prepara o braço num anunciado "arraial da vacinação".

A rinha chegou ao centro-oeste, onde um enciumado Ronaldo Caiado, governador de Goiás, anunciou que só vai descansar quando o último conterrâneo for imunizado contra a covid-19. "Em setembro vamos vacinar até a faixa etária dos 18 anos", prometeu.

Coincidência ou não, o governo federal, que até outro dia respondia aos apelos com cloroquina e xingamentos, escalou dois modelos para posar nas capas de jornais recebendo suas doses de imunizante pelas mãos do próprio ministro da Saúde: o chanceler Carlos França e o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto.

Todos (pasmem!) com máscaras, sem cometer nenhuma infração de trânsito ou regra sanitária nem oferecer cloroquina para ema.

Como quem duvidava dos personagens reais por trás dos garotos bem comportados do prédio, os que já abandonaram à porta qualquer esperança dirão que tudo não passa de marketing e politicagem. Nada desinteressado, portanto. Pois, por mim, pode mandar mais que tá pouco. Antes isso do que a caminhada do rebanho em direção ao abate.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL