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Em alta, suplementos já são 6 a cada 10 alimentos irregulares no Brasil

O desejo de ganhar massa muscular, melhorar a imunidade, perder peso e até "prevenir" Alzheimer fez explodir no Brasil o consumo de suplementos alimentares do tipo whey protein, creatina e vitamina B12.

Esse mercado, que cresce 20% ao ano, também embala um comércio irregular que assusta.

Seis em cada dez marcas alimentícias com itens classificados como irregulares ou falsificados pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) são de suplementos —e a proporção só cresce desde 2022.

Inspeções de rotina mostram que o consumidor corre cada vez mais risco.

Suplementos irregulares apreendidos em fábrica clandestina de Itapemirim (ES)
Suplementos irregulares apreendidos em fábrica clandestina de Itapemirim (ES) Imagem: Anvisa/Divulgação

A última, no dia 19, resultou no fechamento de uma fábrica clandestina na cidade de Itapemirim (ES). No local, fiscais encontraram suplementos do tipo "cogumelo Juba de Leão" sem registro e em condições higiênico-sanitárias precárias.

Desde janeiro, 58 das 91 ações da vigilância sanitária sobre alimentos que resultaram em veto à distribuição, publicidade e comercialização envolviam fabricantes ou distribuidores de suplementos.

O número é quase quatro vezes maior que os 11 casos relativos a marcas de azeite e café, por exemplo.

Os dados da Anvisa ainda mostram que as fraudes flagradas no setor cresceram 240% entre 2022 e 2024 (de 31 para 105), em ritmo que se mantém neste ano.

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As principais irregularidades referem-se a divergências na composição do produto —com quantidade de ingredientes diferente da informada—, origem não comprovada, propaganda enganosa, ausência de registro sanitário e data de validade alterada.

A lista inclui suplementos como whey protein, magnésio, ômega-3, "chás detox", melatonina, multivitamínicos e novidades que viralizaram nas redes, como a goma de tapioca com creatina.

"A propaganda e a venda online amplificam o mercado ilegal. Muitas marcas só vendem pela internet para evitar fiscalização", diz Rodolpho Ramazzini, diretor de comunicação da ABCF (Associação Brasileira de Combate à Falsificação).

O prejuízo não atinge só a saúde dos consumidores. Segundo a associação, o Brasil deixou de arrecadar R$ 9 bilhões em impostos em 2024 por fraudes no setor.

Nem alimento, nem remédio

Suplementos são produtos destinados a fornecer nutrientes, substâncias bioativas, enzimas ou probióticos em complemento à alimentação.

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Mas, apesar de a Anvisa os colocar na lista de produtos alimentícios durante as inspeções de rotina, eles não são alimentos nem medicamentos —e não têm eficácia comprovada para tratar, prevenir ou curar doenças.

O cardiologista e nutrólogo Daniel Magnoni, do Hospital do Coração, diz que suplementos são úteis, quando bem indicados, para pacientes cirúrgicos em recuperação, idosos e gestantes.

Mas ele alerta para os riscos do uso estético e sem orientação, especialmente em casos de disfunção renal.

"Uma pessoa com função renal alterada não pode tomar proteína sem acompanhamento, seja em pó, barra ou qualquer outro formato", diz.

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Imagem: Arte/UOL

A mesma orientação vale para hipertensos que consomem suplementos contendo altas doses de cafeína.

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A pressão sobe. Aconteceu comigo. Tomava cápsulas de detox e sentia taquicardia e ansiedade. Parei com tudo.
Inara Silva, 50

Após abandonar suplementos, Inara se dedica a exercícios físicos para emagrecer
Após abandonar suplementos, Inara se dedica a exercícios físicos para emagrecer Imagem: Arquivo Pessoal/Divulgação

Diabéticos também devem ficar atentos à quantidade de açúcar incluída nesses produtos para evitar picos de glicose no sangue.

No caso da creatina, o suplemento da moda, Magnoni ressalta que a quantidade máxima indicada por dia é de 3 g —sem a chamada "dose de ataque" (até 20 g por dia), popular entre atletas.

O suplemento é indicado para melhorar o desempenho em exercícios de alta intensidade e auxiliar no ganho de massa muscular.

Mortes de jovens reacendem alerta

O uso dos chamados suplementos pré-treino, com creatina em sua composição, é investigado como possível causa da morte de Mayara dos Santos, de 24 anos.

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A jovem sofreu um mal súbito em maio, em uma academia de Bocaina, interior de São Paulo. Ela havia tomado creatina. Diagnosticada com cardiopatia, morreu após parada cardiorrespiratória.

A médica Liliana Ducatti Lopes, do Hospital das Clínicas de São Paulo, alerta para os riscos dos suplementos desde 2022. Ela acompanhou o caso da enfermeira Mara Abreu, que morreu aos 42 anos após desenvolver uma hepatite fulminante causada por emagrecedores irregulares.

"Sempre temos pacientes assim. Alguns ficam mais graves e evoluem para o mesmo quadro", diz Liliana.

O uso de ervas, chás e quaisquer outras fórmulas naturais pode causar lesões nas células do fígado se consumidos sem indicação e acompanhamento médico. Liliana Ducatti Lopes, cirurgiã do HC-SP

Mara, que não tinha problema de saúde, foi submetida a um transplante de fígado, mas não resistiu.

Após a repercussão do caso, a Anvisa passou a publicar uma lista de emagrecedores irregulares. Atualmente, 300 produtos estão vetados.

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Entre eles estão dezenas de opções do tipo de suplemento que a enfermeira tomava —um chá emagrecedor à base de ervas— e que também fez a manicure Nádia Mendes, 41, passar mal.

Senti taquicardia e uma diarreia terrível. Tomava três vezes ao dia com cápsulas para inibir apetite.
Nádia Mendes

Na pandemia, na busca por um corpo mais magro, Nádia chegou a atuar como revendedora de uma marca de suplementos.

Ausência de registro facilita o crime

Em 2024, a ABCF recebeu cerca de 200 denúncias relacionadas a suplementos falsificados -quatro vezes mais que em 2023.

As queixas resultaram em 18 operações de fiscalização realizadas em parceria com as polícias Civil, Federal e Rodoviária, além da Receita Federal.

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'Falsificação perfeita' confunde consumidor e amplia riscos à saúde
'Falsificação perfeita' confunde consumidor e amplia riscos à saúde Imagem: ABCF/Divulgação

"Fechamos fábricas sem licença, que não cumpriam regras de higiene e que copiavam marcas conhecidas", diz Ramazzini.

Em uma das operações, em Jundiaí (SP), foram apreendidas 3,6 toneladas de creatina sem procedência, armazenadas irregularmente em baldes e sacos plásticos sem identificação.

O responsável terceirizava a fabricação em local sem aval da vigilância sanitária, segundo a polícia.

O excesso de oferta, o uso sem orientação médica e a falta de registro explicam parte das irregularidades no setor.

"A maioria dos suplementos não precisa de registro. O mercado só notifica a Anvisa. Isso democratiza o acesso, mas também abre espaço para falsificações", afirma Filipe Bragança, empresário e membro do conselho da Brasnutri, uma das entidades que representam o setor.

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Só suplementos com enzimas e probióticos exigem registro prévio na Anvisa. Os demais são liberados com simples notificação, desde que sigam a lista de substâncias permitidas.

"É um processo eletrônico, que libera a venda de imediato, mas exige manter um dossiê, disponível para inspeção, com várias exigências, como os estudos de estabilidade do produto", explica o advogado Rafael Arcuri, consultor do escritório Madruga BTW Advogados.

O modelo, segundo Arcuri, concentra a fiscalização no pós-mercado, com coleta de amostras e apuração de denúncias. Infrações podem resultar em multas, apreensões ou cancelamento da notificação.

Pandemia impulsionou procura

Dono de uma empresa do ramo, Filipe Bragança ressalta que a pandemia levou as pessoas a buscar produtos que aumentem a imunidade.

Praticantes de esportes estão entre os principais consumidores de suplementos, mas outros tipos de público são cada vez mais atraídos, especialmente os idosos.

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O boom do setor de suplementos —que no Brasil fatura cerca de R$ 6 bilhões ao ano, segundo a Basnutri— levou a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura a emitir uma alerta em maio sobre o consumo.

A entidade afirma que, sem orientação médica, o consumo pode causar reações alérgicas e prejudicar tratamentos, com risco à saúde pública.

Compostos como resveratrol e quercetina, extraídos de plantas, podem interferir na ação de quimioterápicos, por exemplo, assim como de anticoncepcionais, antidepressivos e antidiabéticos.

A Anvisa permite o uso por crianças, gestantes e lactantes, mas com restrições de doses.

Para não comprar gato por lebre, a dica é pesquisar a origem do produto e só adquiri-lo em sites oficiais ou farmácias conhecidas

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