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Matheus Pichonelli

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Cartas de fã dos Beatles para a filha imaginavam como mundo seria hoje

Karlo Schneider e a família - Facebook/Reprodução
Karlo Schneider e a família Imagem: Facebook/Reprodução
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Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do TAB

12/06/2021 04h01

Em um lote de 50 LPs dos Beatles pode estar a resposta para uma pergunta que mobiliza os fãs da banda desde o começo da semana. Onde foram parar as cartas que Karlo Schneider e os amigos escreveram para a sua filha quando ela nasceu?

A pergunta foi lançada por uma amiga da família, a escritora e podcaster Ulla Saraiva, em um fio de postagens do Twitter que alcança, hoje, mais de 80 mil compartilhamentos. Também foi compartilhada no canal do YouTube The Beatles School, de Gilvan Moura.

Ulla é autora de uma das mensagens escritas pelos amigos da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte) reunidos, há 14 anos, na casa que Schneider, ainda estudante de turismo, dividia com um amigo.

Bárbara, a filha, deveria abrir as mensagens quando fizesse 15 anos, em 2022. Mas no meio do caminho havia uma pandemia.

Schneider morreu em decorrência da Covid-19 em março, aos 40 anos, sem deixar qualquer instrução sobre o paradeiro das cartas.

Uma das possibilidades era um exercício lógico: onde mais um beatlemaníaco de quatro costados, como ele, guardaria tantas mensagens para a posteridade? Todos os longos e tortuosos caminhos levavam a Liverpool. Mais precisamente, à sua coleção de LPs. Mas, de novo, havia uma pandemia no caminho.
Schneider tinha cerca de 500 discos quando perdeu o emprego de gerente em um hotel de Mossoró (RN).

Para conseguir recursos durante o tempo em que ficou sem trabalho, ele se desfez de parte do acervo -- cerca de 300 álbuns, nas contas de Ulla Saraiva.
Mas, na coleção remanescente, não havia sinal das cartas. Schneider teria esquecido da promessa ou a distribuição das mensagens mundo afora, como cartas guardadas em garrafas lançadas ao mar, era parte do desafio?

Karlo Schneider - Acervo Pessoal - Acervo Pessoal
Karlo Schneider durante visita a Abbey Road
Imagem: Acervo Pessoal

A resposta ainda é um mistério. "As cartas não eram um assunto em casa porque foi uma brincadeira como tantas que ele fazia. E seria uma grande brincadeira o dia em que elas fossem abertas", me conta a viúva, Alcione Araújo.

Uma rosa em fundo escuro com a palavra "luto" em seu perfil no WhatsApp indica que o momento ainda é delicado para a família.

Ao longo da semana, trocamos breves mensagens na expectativa de que em algum momento ela contasse que as missivas foram encontradas. "Eu gostaria que você escrevesse que encontramos essa carta. Mas isso ainda não aconteceu, infelizmente."

Schneider morreu no momento em que o aperto que o levou a vender parte da coleção parecia estar perto do fim. Em janeiro, um dos principais hotéis da Mossoró reabriu e ele foi contratado como gerente-geral. "Era tipo um sonho se tornando realidade para ele. O Schneider ajudou na reabertura, fizeram a inauguração. Mas logo depois ele ficou doente", lembra Ulla.

Karlo Schneider - Acervo Pessoal - Acervo Pessoal
Karlo Schneider durante viagem com a família
Imagem: Acervo Pessoal

Desolada, a filha, que herdou a paixão pelos Beatles, vê agora na materialidade das cartas perdidas uma possibilidade física de se reencontrar com o pai.

Até sexta-feira (11), um fio de esperança permanecia estirado. Quando a história viralizou, os compradores dos velhos LPs de Schneider correram para procurar as cartas entre capas e encartes recém-adquiridos. Um deles não conseguiu — justamente o que levou cerca de 50 vinis para casa. Ele prometeu checar o material assim que voltasse de uma viagem. Nem a esposa nem a amiga souberam dizer onde ele estava ou quando voltaria.

A apreensão continua e tem mobilizado até ex-alunos de seus tempos de professor de inglês. A ideia é fazer a thread chegar ao maior número de pessoas que possam estar com os LPs.

"Procuro não ficar ansiosa com as possibilidades. Já é muita emoção para lidar", explica Alcione, que agora conta com uma pequena ajuda dos amigos para manter contato com os compradores.

"Essa nossa história acabou se tornando a história de muitas pessoas. Meu esposo era assim. Ele era uma multidão. Amava juntar e reunir as pessoas. Ele produzia eventos de rock em Natal e o objetivo nunca foi o retorno financeiro. Amava ver tanta gente junto, cantando, pulando, se divertindo", relata a mulher, que hoje mora em Caicó, município de 68 mil habitantes do interior do Rio Grande do Norte.

Ela lembra que o marido sempre dizia ser difícil escolher uma única música dos Beatles como favorita. Mas sempre se rendia a "In My Life".

Na música, John Lennon descreve o desaparecimento de coisas e lugares que se transformaram desde sua infância. Ele dizia ter se inspirado justamente nos amigos que partiram.

Karlo Schneider - Acervo Pessoal - Acervo Pessoal
Karlo Schneider com a filha, Bárbara
Imagem: Acervo Pessoal

Em um dos trechos da canção, o letrista conta que até as memórias perdem o sentido quando pensa no amor como algo novo. "Apesar de saber que nunca vou perder afeto pelas pessoas e coisas que vieram antes, eu sei que sempre vou parar e pensar neles. Em minha vida, te amarei mais", diz a música.

A mobilização digital pelas cartas de Schneider se tornou a ponte para pessoas conectadas encontrarem as memórias que ainda não foram salvas em nuvens. Nada mais simbólico.

"Não lembro o que escrevi exatamente na carta", lamenta a amiga dos tempos da faculdade. "Mas me lembro que tinha conselhos para o futuro. Ele pediu pra gente colocar como era o mundo 15 anos atrás e fazer o exercício de imaginar o mundo hoje. Óbvio que falhamos miseravelmente."