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Matheus Pichonelli

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Médico toca Beatles e faz alertas sobre covid em lives de sábado à noite

O médico e músico Beto Neves, da banda cover Beatles Again - Beto Neves/Acervo Pessoal
O médico e músico Beto Neves, da banda cover Beatles Again Imagem: Beto Neves/Acervo Pessoal
Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do TAB

14/04/2021 09h23

Um pássaro que esperou a vida toda pela liberdade voa para o clarão da noite na música escolhida pelo médico araraquarense Roberto de Moura Neves, 68, para abrir sua live — uma das 16 que já realizou desde o início da pandemia, em um estúdio improvisado em casa. A tensão era inevitável. Naquele sábado, 27 de fevereiro, o boletim epidemiológico da prefeitura de Araraquara registrava mais cinco mortes e 205 casos de covid-19 na cidade.

Em lockdown total havia uma semana, Araraquara contabilizava óbitos durante 18 dias seguidos e alcançava 110 mortes em menos de dois meses. O jeito era cantar Beatles, como já é tradição naquele quarto onde uma imagem aérea de sua Araraquara divide espaço com uma tela de Abbey Road e quadros de John, Paul, George e Ringo.

"Teve momentos da pandemia em que eu estava com muitos amigos e até familiares internados com a doença e cheguei a interromper as apresentações. Depois me convenci que as lives eram muito esperadas pelas pessoas, tanto pela música, como para ter um contato com um médico", relata o doutor, que é especialista em gastroenterologia, cirurgia geral e integrante da Beatles Again, uma das mais tradicionais bandas covers brasileiras do quarteto de Liverpool.

"O momento de lockdown total foi uma experiência muito diferente para todos na cidade. Tudo parou. Até minha clínica fechou por uma semana. Só serviços de urgência podiam funcionar. Não havia uma alma viva à vista."

Quem esteve na cidade naqueles dias pode confirmar o relato. "Blackbird", um hino sobre a liberdade composta por Paul McCartney, fazia todo sentido para aquela noite.

O último show da banda cover aconteceu em fevereiro de 2020, em Ribeirão Preto. Com agenda até o fim do ano, todas as apresentações foram canceladas.

Para quebrar o silêncio, Beto, como é chamado pelos amigos, transmitiu a sua primeira live só com o celular, em 4 de abril de 2020. A repercussão foi maior do que imaginava: conectado com outros celulares, o público presente naquele quarto chegou a 1.600 pessoas.

Hoje as transmissões para Facebook e o YouTube são feitas através de um programa específico de streaming conectado ao computador. Beto toca, canta, capta o som da mesa digital e transmite tudo sozinho. Sobra tempo também para falar sobre a pandemia.

Nas apresentações, é comum ouvir o artista cutucar as autoridades responsáveis pelo colapso. Em uma delas, pediu ao público para tomar cuidado com político que receita remédio. Nem precisou citar nomes. Ele já falava da importância do distanciamento e do uso de máscaras antes de que as medidas virassem hábito no país. Também foi uma das vozes da cidade contra o negacionismo a respeito da imunização e da obrigatoriedade da vacina. Para ele, é papel do médico lutar contra o que chama de obscurantismo.

A batalha é construída nas entrelinhas das apresentações, que têm entre 15 e 20 músicas, quase todas tiradas do "lado B" dos Beatles e das carreiras solo dos ex-integrantes. Cabem também canções de outros artistas, como Creedence Clearwater, Pink Floyd, Elton John, Simon e Garfunkel, Tavito, Moraes Moreira, Lulu Santos e Raul Seixas. As lives são também uma forma de homenagear artistas vítimas da covid-19. "Quando morreu Aldir Blanc, toquei 'O bêbado e a equilibrista'. Quando morreu o Paulinho, do Roupa Nova, toquei duas músicas da banda", relembra.

Há músicas, porém, que são praticamente obrigatórias no repertório. "Hey Jude" e "Yesterday", por exemplo. Mas a que mais o emociona, sempre que toca, ainda é "Something".

Para o músico e multinstrumentista araraquarense, o fato de as apresentações serem ao vivo e o público poder interagir é o que move as pessoas a assistirem as lives em uma época em que toda a discografia da banda está disponível no streaming. "Faço questão de, nos intervalos, ver quem está assistindo e comentando, e conversar, algumas vezes atendendo pedidos para tocar alguma música. Com exceção de um breve período no fim do ano passado, quando alguns bares abriram, as pessoas não saem de casa praticamente há um ano. Ter um evento, mesmo online, no sábado a noite é importante para as pessoas e as famílias. Para mim, semana de live é a semana mais feliz."

No ano passado, Beto até se reuniu com os outros integrantes da banda para três apresentações online — duas delas beneficentes. O último encontro foi em outubro.

As interações são agora pelas redes sociais, por onde os covers de outras bandas se veem, se assistem e, muitas vezes, colaboram com vídeos nos quais cada um toca o seu instrumento à distância. "Muitos viviam quase exclusivamente da música e têm tido muita dificuldade", diz o cantor, que ouviu a banda britânica pela primeira vez nas férias de 1963, durante um passeio com a tia em São Carlos. Ele ficou curioso para saber que música tocava em uma loja de discos. Era "She Loves You". "Mas me apaixonei de vez quando meu pai me comprou o disco "A Hard Day' s Night" em 1964, que eu ouvia numa vitrolinha portátil. O disco no Brasil se chamava "Os Reis do Ié Ié Ié", e o meu está comigo até hoje. Depois disso, comprava cada álbum que saía."

Beto é músico antes de ser médico. Toca piano desde os quatro anos de idade e, quando estudava medicina na USP de Ribeirão Preto, passou a se dedicar ao violão. Era o que tinha à mão na república onde morava com os amigos. Hoje toca 14 tipos de instrumento.

Antes da Beatles Again, criada em abril de 1993, ele fez parte do grupo de jazz instrumental Onix, nos anos 1980. "A música para mim é uma terapia. A vida do médico é muito sacrificante e árdua. Com a medicina eu ajudo as pessoas a se curarem dos seus males físicos. Com a música ajudo a serem mais felizes e a buscar seu equilíbrio emocional e mental."

Beto conta ter assistido recentemente ao filme "Yesterday", de Danny Boyle, e ficado aflito só em imaginar um mundo sem os Beatles, como na trama. O mundo seria o mesmo? Jamais, ele garante. "Eles estão para a música contemporânea como Mozart e Beethoven estão para a música clássica."

Não fosse o maldito Mark Chapman, John Lennon, se estivesse conectado ao Facebook num sábado à noite de pandemia, provavelmente concordaria em rever o sarcasmo dos versos de "Doctor Robert", música inspirada em um conhecido médico de celebridades de Nova York nos anos 1960. "Se você está por baixo, ele levanta seu astral", diz a música.

Em Araraquara, o doutor (quase) homônimo da música-título de fato tem feito tudo o que pode, inclusive para fazer o público entender a gravidade do momento.

Enquanto prepara os embalos da live de sábado à noite, marcada para sábado (17), Beto, que já tomou as duas doses da Coronavac, lista tudo o que planeja fazer quando a longa e sinuosa estrada da pandemia chegar ao fim: abraçar a família e os amigos, viajar e, claro, tocar com os parceiros da banda, Rogério Pinotti, Beto Placco e Daniel Mattos. Dessa vez, olhando para o rosto de quem os assiste.