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Matheus Pichonelli

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Favorito ao Oscar, 'Druk' é viagem etílica de caras que não querem crescer

Mads Mikkelsen em cena de "Druk - Mais uma Rodada" - Divulgação
Mads Mikkelsen em cena de 'Druk - Mais uma Rodada' Imagem: Divulgação
Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do UOL

03/04/2021 04h00

Em uma entrevista para o lançamento, nos cinemas e streamings brasileiros, de "Druk - Mais uma rodada", longa dinamarquês favorito ao Oscar de filme estrangeiro deste ano, o diretor Thomas Vinterberg declarou que, ao retratar a história de quatro professores dispostos a serem cobaias de uma experiência etílica, não queria promover uma lição de moral. Caberia apenas ao espectador julgar os personagens beberrões.

Pois eu julguei um tanto.

Antes de mais nada, "Druk" tem talvez as melhores cenas de bebedeiras do cinema. Eu, pelo menos, não lembro de ter saído tão breaco de uma sessão (de streaming, mas sessão) estando abstêmio. Em casa, só podemos beber entre sexta e domingo.

A embriaguez vem como efeito rebote da câmera trêmula, que sobe, desce e rodopia conforme os personagens avançam uma linha tênue entre o relaxamento e o pé na jaca, seja em casa, em restaurantes, em uma rua deserta da madrugada e até nos cantos escondidos da escola. É o álcool que leva luz e leveza para os ambientes mais lúgubres de uma região notadamente fria.

Como bons professores, daqueles com um mínimo de curiosidade científica, os personagens tentam racionalizar a bebedeira, justamente o dispositivo que interrompe nosso discernimento, através de uma hipótese lançada pelo psiquiatra norueguês Finn Skarderud, que preconizava: o corpo humano possui um déficit de 0,005% de álcool no sangue e, para controlar esse desnível, é preciso manter-se embriagado. Coisa de uma ou duas taças, que os amigos logo convertem em garrafas.

Usam para isso exemplos de mentes brilhantes e ébrios contumazes como Winston Churchill, Ernest Hemingway e Tchaikovsky.

Seria só uma história sobre amizade não fosse um detalhe. A relação que cada indivíduo do grupo desenvolve com a bebida é reflexo da deterioração de suas vidas particulares. O filme desenha graduações de dependência conforme os arranjos afetivos dos personagens são revelados.

O mais jovem deles, casado e com três filhos pequenos, consegue domar a iminente dependência na primeira bordoada da companheira.

O mais velho, sem vínculos familiares a não ser um cachorro doente, é quem enfrenta as consequências mais traumáticas. Mas não vamos dar spoilers.

Numa ponta e outra está Martin, personagem de Mads Mikkelsen (o rosto mais conhecido do cinema escandinavo) que encontra no experimento uma saída para a própria melancolia. A certa altura da vida, aquela conhecida como a meia-idade, ele já não se comunica com a geração de jovens alunos na sala de aula, mais interessados pelos smartphones do que por suas lições (confusas e monocórdicas) de história.

"Eu não vejo muita gente, eu não faço nada demais", lamenta, segurando as lágrimas, o novo velho professor, antes de abrir as comportas para inundar até a alma de vinho e vodka.

A bebida é seu veneno anti-monotonia que garante confiança e calibra sua autoestima. Com ela, sai de cena o pai e marido apático, que se torna invisível no ambiente sombrio da própria casa, e entra no primeiro plano um personagem desbotado pela idade —não parece, mas em sua juventude ele ria, dançava e não parecia ainda destituído da própria alma. A bebedeira o salva da escuridão.

Até que a dependência, como todo mundo que já se relacionou com pessoas dependentes pode imaginar, começa a criar rusgas ainda maiores.

Em uma das cenas, um dos professores — o pai dos três filhos —, sentindo-se oprimido pelas demandas da vida doméstica, vê a mulher sair sozinha de casa com os pequenos, um deles um bebê. Conforme mergulha na experiência, ele passa a se comportar como mais uma das crianças que acorda inundado pela própria incontinência urinária. De pai presente, mas inseguro, ele se torna um marido incapaz de entrar num supermercado e trazer o peixe fresco encomendado; com os amigos, sacoleja estourando as gôndolas onde tenta firmar os braços e as pernas. Uma criança não faria mais estrago.

Como no filme, que perambula entre a comédia e a tragédia, tudo entre eles é uma grande diversão até começar a perder a graça.

A crise dos homens da história é a crise dos meninos que não querem crescer.

A necessidade de viver sob uma embriaguez controlada tem menos a ver com o déficit de álcool do sangue do que o superávit de neurose envolvida no envelhecimento, quando se perde um pouco de tudo, dos cabelos à força física. Em outras palavras, o problema daqueles personagens não é a abstinência; é a síndrome de Peter Pan.

Com uma exceção entre os personagens, todos naquele grupo tinham o controle das próprias escolhas quando decidiram, num cálculo racional, descalibrar o peso da vida adulta e promover um encontro idílico com a irresponsabilidade juvenil.

Ela acaba, ou deveria acabar, quando somos colocados num abatedouro de testes e provações em que fracassar não é uma opção. Numa das cenas, ao ver o pânico de um aluno antes da prova, o professor de psicologia não hesita em passar a ele um bastão em forma de garrafa. São as boas-vindas à vida adulta.

A viagem etílica serve ali como uma transposição de pesos. Libertos das amarras mundanas, os corpos daqueles personagens giram em torno de si enquanto tem alguém para organizar minimamente suas casas, rotinas, como fazer e dar comida para os filhos em uma casa em que os homens já não são o centro das atenções.

Como a experiência registrada, o filme vai até o limite da idealização, esta que durante anos nos fez rir dos vídeos nonsenses de nossos ídolos adoecidos pelo álcool, como Diego Armando Maradona.

Longe dali, sobretudo nas quebradas dos países periféricos onde falta tudo, menos bar aberto, a ressaca é um quadro nada divertido em uma época em que se morre mais por doenças relacionadas ao álcool (4% dos óbitos globais) do que de Aids, por exemplo.

Visto com essas ressalvas, e sem o medo dos enfrentamentos que o diretor tenta evitar, o filme dá pistas e joga luz para entender por que, só no estado de São Paulo, 89% dos internados por transtornos relacionados ao alcoolismo sejam homens.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL