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Sem plateia, artista dos palcos sobrevive fazendo móveis na garagem da mãe

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A cenotécnica e arte-educadora Katiana Aleixo, 32, recebeu a encomenda quase um ano após trabalhar em seu último espetáculo — quando montou a estrutura e a iluminação de um arco-íris de ferro e tubos de LED para o grupo UltraVioletas.
Confinada entre o apartamento e a garagem da casa da mãe, em Guarulhos (SP), onde improvisou seu estúdio, a artista nascida em Garanhuns (PE) e criada na periferia de São Paulo levou cerca de 15 dias para encontrar os materiais, montar os componentes, arrumar um carreto e transportar até o cliente a sua obra: um balcão de madeira e ferro com gavetas gigante, de 3,20 metros, pensado, construído e instalado por ela em um salão de estética em Presidente Altino (SP).
Isso entre o fim de fevereiro e o começo de março — quando a pandemia se agravou e tudo (praticamente) fechou novamente.
Como outros colegas e da classe artística, Katiana viu a crise do coronavírus devastar as oportunidades de trabalho nas coxias e bastidores dos palcos, exposições e instalações — cenários que a profissional especializada em cenotecnia, design e serralheria ajudava a construir desde 2017. Em seu portfólio estão os cenários de edições recentes do Valongo Festival Internacional da Imagem (SP), do Festival Cultura Inglesa (SP) e da exposição interativa "I, Game: Interpretar, Investigar, Imaginar".
Com a agenda cultural paralisada, o design de móveis se tornou o principal meio de subsistência da artista, que já desenvolveu projetos em parceria com o cenógrafo Leo Ceolin e os cenotécnicos Alício Silva e Edson Luna.
Como uma tempestade perfeita, a crise sanitária e a suspensão dos eventos culturais a fizeram enfrentar um outro inimigo além do vírus: o baque psicológico. Foram quase quatro meses vivendo apenas com reservas, algo comum diante da precariedade e instabilidade do trabalho como freelancer em tempos normais. "É complicado deixar de fazer o que a gente gosta. Fiquei um bom tempo sem trabalho. Precisava arrumar dinheiro. Se não, como ia me manter?"
Ela entrou na fila do auxílio-emergencial, deu oficinas online de serralheria e passou a aceitar mais encomendas para fabricação de móveis para lojas e pessoas físicas, além de fazer reparos e consertos em residências.
Não era nem de longe o que ela imaginava antes da quarentena, quando montava o motorhome para as apresentações da dupla Chicas on The Road e o cenário para uma série de apresentações do coreógrafo Jorge Garcia no Theatro Municipal de São Paulo — série interrompida já na fase de ensaios. "O cenário estava 60% pronto. E estava incrível", relembra.
Na semana passada, Katiana participou de um encontro digital com outros profissionais que, como ela, sumiram das coxias do palco. Não por acaso, o evento ganhou o nome de Os Invisíveis.
A ideia era justamente visibilizar e chamar a atenção para a situação, durante a pandemia, de operadores de luz e som, aderecistas, figurinistas, visagistas, entre outros trabalhos que parte da a plateia sequer conhece o nome.
Antes da crise, segundo os organizadores, a indústria cultural empregava 5 milhões de pessoas e movimentava R$ 170 bilhões ao ano. O setor de atividades artísticas, criativas e de espetáculos foi a atividade econômica mais afetada pela pandemia — e é ainda mais grave para os artistas técnicos que atuam nos bastidores, a maioria autônomos, de acordo com a figurinista e uma das idealizadoras do encontro, Laura Françozo. "Sem apresentação não há renda", lembra ela. O resultado dos encontros está disponível no YouTube.
Katiana, que integrou uma mesa com cenógrafos e cenotécnicos, é um exemplo. "As pessoas que hoje demonstram hostilidade com a classe artística, mas que iam para shows e compravam DVDs, não sabem que estamos por trás de toda a cenografia, sonoplastia, iluminação. A galera não para pra pensar o quanto isso gera de emprego."
A piora na situação, quando o Brasil se aproximava dos 300 mil mortos por coronavírus, aconteceu poucos dias após ela voltar a pisar nos palcos. Não sem estranhamento. "Ver um teatro vazio dá aquela angústia. Estamos acostumados a ver gente sorrindo, a expectativa das pessoas, do público. Quando olhamos para o lado e não vemos ninguém, nem nossos parceiros de trabalho, dá aquela dor no coração. A gente lembra de colegas que tiraram a vida na quarentena. Passa um filme na cabeça e a gente se pergunta quando isso vai se normalizar. Está todo mundo muito carente de abraço, de encontros, de sorrisos, de alegria. De sentir vibração. O brasileiro é assim", diz ela, que perdeu uma irmã, vítima de um câncer, no último ano, e viu muitos amigos entrarem em depressão por conta do medo e das dificuldades.
"Nas redes de apoio que criamos por WhatsApp, fizemos um trabalho de terapia diário para fortalecer o psicológico. O famoso 'ninguém larga a mão de ninguém'."
Katiana, que não se infectou, conta que duas amigas tiveram mal-estar e acharam que era covid. Descobriram, então, que falta de ar, dor de cabeça e febre são sintomas também de ansiedade e pânico.
A pandemia interrompeu temporariamente a trajetória da cenotécnica no ambiente artístico e a levou aos primórdios de seus primeiros trabalhos: quando tinha 12 anos, inventava e instalava prateleiras, desmontava a bicicleta e destruía tudo o que via pela frente em sua casa, em Paraisópolis. Só para poder reconstruir novamente.
O gosto em montar e desmontar ela levou para as oficinas de percussão, onde aprendeu a tocar aparelhos de couro e corda e se tornou especialista em consertos e afinação. De lá, seguiu para a construção civil. Não fez faculdade, mas aprendeu o ofício ouvindo e observando o trabalho de engenheiros e arquitetos. Conectada, ela contou com a ajuda também dos tutoriais no YouTube.
Até que um amigo, monitor de aulas de percussão, a chamou para fazer o cenário do festival Mirada, no Teatro Coliseu, em Santos. Foi quando ela viu o trabalho pronto e pensou que era aquilo que queria fazer pelo resto da vida.
O tom do relato oscila entre a saudade e a melancolia. O futuro? Para Katiana, as pessoas vão, um dia, voltar a frequentar o teatro, mas terão de conviver com o coronavírus até o fim da vida. "Olha há quanto tempo existe a dengue, a chikungunya, a H1N1. A gente aprendeu a lidar com tudo isso. A lidar e a se proteger", diz ela, para quem as máscaras e o álcool em gel vão sempre fazer parte do cenário. Literalmente.
A retomada, porém, não será imediata. "O teatro já enfrentava dificuldades antes da pandemia. As pessoas se viravam com pouco. Muita gente escreveu peças no tempo em que ficou em quarentena em casa e vai tentar inscrever nos editais que surgirem. Mas vai faltar grana para todo mundo produzir. Quem já tinha companhias consolidadas vai sair na frente. Para quem está começando, vai ter um certo desequilíbrio. No meu caso, os mobiliários serão o trabalho principal por um bom tempo."
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