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Matheus Pichonelli

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Com 3 mil mortes ao dia, o que falta pra convencer alguém a ficar em casa?

Estratégia considerada mais eficiente para evitar a propagação do coronavírus, isolamento social também tem causado problemas - Getty Images
Estratégia considerada mais eficiente para evitar a propagação do coronavírus, isolamento social também tem causado problemas Imagem: Getty Images
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Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do UOL

20/03/2021 04h00

Uma mulher de 31 anos, grávida de oito meses, morreu de covid no ano passado após um chá de fraldas surpresa, organizado pelos colegas da escola onde trabalhava. Ela ficou sem graça de recusar a homenagem. Foi uma tragédia consumada pela falta de noção dos amigos.

De tão repetidas, histórias como esta já não comovem, mas deveriam. Com o avanço da pandemia e o recrudescimento das medidas de isolamento, é incrível como, por aqui, o argumento de que há um vírus lá fora empilhando corpos não seja razão suficiente para manter alguém em casa e evitar eventos sociais. Toda negativa parece um acinte e precisa ser envolta das melhores desculpas — aparentemente, tudo isso não é suficiente.

Nunca morei em outro país, mas desconfio que em nenhum lugar do mundo as coisas descambem para o lado pessoal como aqui. É assim desde os tempos pré-pandêmicos: você nunca fez nada para a pessoa e, ainda assim, ela te chama para subir uma montanha de bicicleta no fim de semana, num sítio do cunhado do amigo, a 380km de casa.

Você poderia dizer "não posso, tenho planos", sem precisar entrar em detalhes. Mas não. Você precisa de uma desculpa melhor.

"Não posso, tenho criança pequena e..."

"Ah larga de frescura, leva ele junto. Todas as crianças lá sobem o morro de boa".

"Mas pode ficar tarde depois pra voltar e..."

"Tarde? Antes das onze da noite estamos em casa".

"É que tem a hora do leite, né? Precisamos de uma estrutura mínima pra fazer a mamadeira e tal".

"Faz na fogueira, caralho. Larga essa vida sedentária. Você tem filho mas não está morto".

Já na pandemia, a recusa a qualquer convite, para colar, ainda precisa vir com algum agravante. Já reparou? "Adoraria, mas vou ter que levar minha avó ao médico porque estourou uma bomba da Segunda Guerra enterrada no quintal dela, e só por isso não vou cruzar o país de moto na sua garupa no pior momento da pandemia. Foi mal mesmo".

Em outubro, com a ligeira e enganosa melhora nos índices de contaminação — e a possibilidade de ser atendido ao menos com um cilindro de oxigênio em um hospital ainda não colapsado —, fomos aos pouco relaxando e deixando de lado a fama de chatos da quarentena, aquele meio fio entre o negacionista que não vê perigo em nada e o patrulheiro que liga a cada cinco minutos na portaria pra denunciar quem anda no pátio sem máscaras ou recebe visitas estranhas.

Com os protocolos, conseguimos receber algumas (poucas) visitas, fazer um bate-e-volta na cidade dos pais, caminhar pelo clube ou por praças públicas e até entrar numa loja quando precisamos de um novo computador.

Não fomos a festas, baladas, não encaramos ônibus lotados. Ainda assim, a culpa se manifestava toda vez que explicávamos ao interlocutor, sem que nos fosse requisitada explicação alguma: "estávamos de máscara, tá?", "fizemos isso mas com o devido distanciamento social, viu?", "teve essa pizza aí mesmo, confesso, mas nossos amigos estavam imunizados".

Só que, de lá pra cá, a coisa piorou e muito. Mas, pra muita gente, a reabertura lenta e gradual em direção ao que chamávamos de vida normal virou um caminho sem volta. No último mês, voltamos ao constrangimento de ter que explicar que não, o problema não é você, temos certeza de que o churrasco seria incrível, que seria muito massa ver o jogo com vocês, adoraríamos tomar um chope no bar de portas fechadas só do lado de fora, mas realmente estamos tentando manter o isolamento nesses dias, porque a situação está feia e...

"Bobagem, isso só pega no escritório."

"Tá com medinho, é?"

"Mas faz um ano que você tá com essa conversa".

"E sua saúde mental?"

As respostas vêm sempre com um tom acusatório embutido. Como se manter ou não a distância ou botar a máscara diante da pessoa fosse uma decisão individual, um crime confesso de desconfiança. Mas como pedir, por favor, sem parecer rude demais, que a criança com nariz escorrendo solta no condomínio em busca de alguém para brincar volte para casa sem soar ofensivo ou dar margem para os pais contestarem o tratamento de seu filho como ser radioativo? Faz um ano que estamos nessa e ainda não sabemos responder.

Mesmo nos círculos mais próximos, ainda é difícil se desprender da fama de antissocial quando amigos e familiares preparam convescotes e tentam o tempo todo confirmar nossa fama de povo hospitaleiro que gosta de festa e deixa a vida nos levar. Fica difícil explicar que a negativa não é desfeita; é pelo bem geral deles e da nação.

A impressão é que, com tantas vozes dissonantes falando coisas diferentes sobre o mesmo assunto — "fique em casa", "frescura", "escravo do Doria", "quer levar multa?", "vamos todos morrer um dia" — o nível de gravidade da pandemia, no fim, é uma métrica usada por cada um como questão de opinião ou preferência política. Faz sentido em um país onde tudo é pessoal, e nunca uma orientação sanitária e coletiva baseada em evidências.

Dias atrás, preocupado com o recorde de quase 3 mil mortos por coronavírus divulgado na véspera, e com a possibilidade de a média móvel passar em breve esta marca, uma amiga quase engasgou com o café quando encontrou na cozinha o marido empolgado para passar o fim de semana em uma casa de praia —algo viável há pouco tempo, mas hoje arriscado por toda a logística que envolve. O diálogo beirou o surrealismo e descambou ao "pensa nos seus filhos, estamos trancados aqui já faz um século e não aguentamos mais", "você é chata, nunca faz nem topa nada", "isso é vida pra você?".

Como todo chato de quarentena, uma espécie de fiscal de trânsito que todo mundo tenta driblar quando flagrado sem cinto de segurança, minha amiga tentou argumentar que não foi ela quem criou as regras, que estava cumprindo as recomendações, que as medidas visavam a segurança da população, e não sacanear a liberdade do bonitão etc. Não adiantou.

Minha amiga desconfia não ser coincidência que o surto aconteça justamente agora que não é mais recomendável aquela caminhada com o amigo sem máscara ou as escapadas para o supermercado, a quitanda, o posto de gasolina e outros lugares de serviço essencial que ele visitava 20 vezes ao dia para não parar em casa. Talvez ele só não suporte mais aquela casa e seus habitantes.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL