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Matheus Pichonelli

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Síndrome dos não-essenciais: lockdown reforçou ressentimento mais doentio

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. Imagem: kues1/ Freepik
Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do UOL

06/03/2021 04h00

Está no dicionário Houaiss: tudo o que não é essencial é acessório, acidental, episódico, secundário. O contrário é absolutamente necessário. Indispensável. O que constitui a essência.

Em tempos de pandemia, a palavra entrou em disputa. Uma disputa que ganha tensão à medida que prefeitos e governadores anunciam medidas mais restritivas de circulação nas cidades, e a fila da vacina é organizada pelo viés da escassez.

Em março do ano passado, quem foi dormir pensando estar no auge da carreira acordou, tempos depois, com a estranha sensação de não ser "prioridade". Nem para se vacinar nem para manter as portas abertas de seus negócios em caso de lockdown, como os já adotados em algumas cidades do país.

Entre o rigor científico e o lobby das categorias, as decisões sobre o que é essencial e quem deve ser tratado como prioridade criaram terreno para acelerar a produção, já em escala industrial, da matéria-prima que move nossos afetos ao longo da última década: o ressentimento.

No Brasil açoitado pela covid-19, muitos dos que esperavam sentados o fim da corrupção e a recuperação econômica em V, agora lidam com a ferida narcísica de serem relegados à prateleira dos "não-essenciais". É um golpe e tanto para quem cresceu ouvindo "você quer, você pode", "estude enquanto eles dormem", "você é especial" e outros itens da escola da meritocracia.

Num dia ele carregava o país nas costas; no outro, conclui, está amordaçado em casa, sem poder circular, graças a uma doença que ele desconfia nem ser tão grave assim. Seria um complô?

Alguns dos campeões foram para o fim da fila. E, sem a válvula da consciência coletiva, viraram uma panela de pressão com fúria até a tampa. "Como assim os presos vão receber as doses antes de mim?", ouvimos alguns deles gritar pelas redes.

A bronca não é totalmente incompreensível. Vem da confusão torta e histórica entre justiça e justiçamento; e é justamente o papel do Estado tratar os desiguais e mais vulneráveis a uma contaminação de forma...desigual.

Na gritaria, porém, todos querem se converter em item essencial. Do dono da academia ao proprietário da rede de varejo, passando pelos líderes religiosos — que acabam de criar uma emenda à lei divina segundo a qual Deus estaria em qualquer lugar do mundo em que duas ou mais pessoas estivessem reunidas em seu nome. A Bíblia não falava de igrejas e templos de aglomerações e perdigotos sagrados, mas isso é detalhe.

Fato é que quem ficou na rabeira está com raiva.

Muitos até começaram a pandemia com boa vontade. Há um ano, sacrificaram-se, sacrificaram seus negócios e se adaptaram ao novo normal. Caíram no conto de que sairíamos melhores dessa, que a quarentena iria reforçar os laços sociais, as pequenas coisas simples da vida ou os hábitos mais saudáveis.

Nada disso aconteceu e, agora, eles são acusados de serem os culpados pelo colapso da saúde coletiva.

Como ganhar esses caras?

A resposta não está no textão do Facebook. Passa por um esforço que deveria vir de cima. Especialistas são unânimes em apontar, não sem horror, a ausência de um discurso unificado e de comunicação de crise até agora no Brasil. Coisa que países-modelo como a Nova Zelândia tiraram de letra.

Aqui o cidadão comum liga o rádio ou a TV e encontra uma polifonia bizarra: o prefeito quer abrir o shopping, o governador quer fechar o boteco e o presidente diz que máscara e vacina podem causar prejuízos à saúde.

Sem um alinhamento mínimo no alto, as decisões coletivas logo abaixo entram no campo das transgressões e concessões individuais; nelas, fica difícil explicar ao pequeno comerciante à beira da falência que, veja bem, tem uma pandemia ali fora e não, não é uma questão pessoal nem política. É uma questão de sobrevivência. E que esse sacrifício, quanto maior o esforço, menos tempo levará.

Praticamente todos os estados já se preparam para as piores semanas de uma pandemia que, até agora, já matou mais de 260 mil pessoas. Uma cidade do tamanho de Ipatinga, em Minas. Nesses dias, ninguém pode se dar ao luxo de ficar sem comida, água, energia elétrica; mas pode deixar o passeio no centro da cidade ou o corte de cabelo para depois.

Não era para ser difícil entender, mas tem sido. Justamente porque quem deveria liderar os esforços tem usado suas redes para bagunçar o jogo em caixa alta. "ATIVIDADE ESSENCIAL É TODA AQUELA NECESSÁRIA PARA UM CHEFE DE FAMÍLIA LEVAR O PÃO PARA DENTRO DE CASA", escreveu Jair Bolsonaro, que na mesma semana pediu para que os brasileiros deixassem de frescura e mimimi diante do morticínio. "Vão chorar até quando?", perguntou.

O discurso que divide, deseduca e estimula a paranoia só acentua o caldo do ressentimento, como se uns fossem mais prejudicados que outros. Mais que isso, desrespeita e desprestigia quem precisa de apoio nessas horas. No caso dos médicos, esgotados em hospitais superlotados, não deve existir nada mais frustrante do que ver as orientações de obediência a protocolos e distanciamento social serem rasgadas por quem se autodeclarou especialista de WhatsApp — e sai receitando remédio e tratamento precoce sem diploma ou apreço às evidências científicas.

O resultado está nos números assombrosos de mortes e contaminações estimuladas por quem não se preparou a tempo para organizar um programa de vacinação em massa, nem se preocupou em explicar que ninguém adota lockdown sorrindo, num desejo sádico de prejudicar o seu negócio. De novo: não é sobre você. É sobre como sobreviver.

Por conta da escassez de imunizantes e dos boicotes aos esforços pelo isolamento, direitos e possibilidade de trabalhar são vistos agora como privilégios. O surto de ignorância não vem de hoje.

Como no mundo pós-guerra, as esperanças de reconciliação vão aos poucos dando lugar a mais raiva e mais ressentimento. Em vez de solidariedade, nos estapeamos discutindo quem perdeu mais, quem deveria ter mais valor, quem está de sacanagem, quem deveria puxar a fila dos não-essenciais. Não íamos sair melhores disso tudo?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL