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Matheus Pichonelli

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Mesmo com tantas opções, por que sentimos falta das velhas videolocadoras?

Videolocadoras que resistem ao tempo: na Charada, no Sapopemba (SP), o dono Gilberto Petruche abriu o espaço para lives toda sexta-feira - Reinaldo Canato / UOL
Videolocadoras que resistem ao tempo: na Charada, no Sapopemba (SP), o dono Gilberto Petruche abriu o espaço para lives toda sexta-feira Imagem: Reinaldo Canato / UOL
Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do UOL

03/03/2021 04h00

Meu filho de sete anos entrou em pânico ao ver minha irritação com os destroços no banheiro. Por alguma razão, ele achou que seria uma boa ideia levar para o chuveiro meu bule com imagens de arte rupestre.

Reprodução de um objeto ancestral, aquele bule veio da Serra da Capivara, no Piauí. Comprei há cerca de dez anos, em uma feira na praça Benedito Calixto, em São Paulo. Durante um tempo, ornou uma república de decoração parca na avenida Paulista. E estava na bagagem quando voltei a morar no interior. Dividiu espaço das prateleiras com livros e DVDs em uma casa, depois outra, e outra, até que mudou de vez para nosso último e — esperamos — definitivo endereço.

No canto, à entrada da sala, a reprodução em terracota queimada e esmaltada ligava os lugares onde andei, habitei e criei raízes ao novo espaço, onde tudo parece tão novo quanto fugidio. Aqui, onde vivo desde outubro, ainda não me reconheço, mas tento, aos trancos, instalar um pouco de subjetividade refletida em objetos inanimados. O bule era um desses fios. Mas não só.

Faço esse floreio todo como um exercício de autodefesa. Para o menino e a mãe, sou só um mero acumulador, alguém com dificuldade em encerrar ciclos, reconhecer o fim, se desfazer das coisas, dos lugares e que tem dificuldade quase crônica de se adaptar a novidades. E que explode quando alguma coisa em casa quebra ou vai para o lixo. Só isso explica tanta mídia física, para ver e ouvir, abarrotada nas estantes e gavetas e que pulam de casa em casa ao som da mesma pergunta: "quando vamos nos livrar disso tudo?"

Como o bule que reconta a história de um passeio em uma cidade onde já não moro e em uma época que trago e já não trago comigo, passo meus dias tirando a poeira e a pecha de tralha dos velhos CDs e DVDs. "Isso não é tralha, é memória afetiva", me defendo.

Posso contar a história de cada um deles — o que fazia, onde trabalhava, por onde caminhava e que bichos me atormentavam enquanto perambulava por uma de loja ou livraria em busca de alguma "coisa" que, no fim das contas, era uma busca por mim mesmo.

Preservados, os filmes, as músicas e também os livros me permitem reacender algumas luzes ativadas em cada nova-velha crise ou emergência. E que já teriam ido para o espaço se confiasse na memória e no baú dos clássicos dos sistemas de streaming.

Era nisso o que pensava enquanto lia, na última segunda-feira, o relato dos repórteres Letícia Naisa e Daniel Lisboa sobre as videolocadoras que ainda resistem em São Paulo. Para sobreviver, todas elas precisaram se reinventar. Uma se conjugou com a pizzaria vizinha. Outra virou um espaço cultural onde são oferecidos cursos, apresentações musicais e stand-up. Outra vende vinhos, brinquedos e salgados.

A atividade-fim virou praticamente um quadro na parede. Parte decoração, parte lembrança de um outro tempo em que era preciso ter 50 cópias de um filme de sucesso para atender a tantos clientes.

Um dos proprietários calcula que a venda e locação de filmes mal pagam, hoje, o aluguel de R$ 2.500 em um espaço de 200 metros quadrados na zona leste de São Paulo. Então por que insiste? "Faço isso por amor. Não tem outra explicação", ele diz.

A insistência é a sobrevida de um modo de funcionar que custa a desaparecer em uma época em que a efemeridade é a norma. Não sem prejuízos.

Na última vez que pisei em uma locadora, estava em busca não de um filme específico, mas de algum pôster que pudesse decorar o cenário de um quarto onde passaria a gravar resenhas de filmes para um canal de YouTube. Detalhe: os filmes me chegavam por links e senhas. Expirados, sumiam do universo sem deixar rastros.

Parecia um contrassenso, e era.

O atendente estranhou o pedido. Foi ao depósito e voltou com o cartaz de "Silêncio", recém-lançado por Martin Scorsese. Aproveitei a deixa e comprei alguns filmes em DVDs esquecidos em uma caixa abarrotada. Aquela caixa era o prenúncio do fim dos tempos — ao menos para aquela videolocadora e os clientes acostumados a verem filmes no esquema offline.

Poucos dias depois de descolar o pôster, a videolocadora, localizada na frente da rodoviária, deu lugar a um banco de microcrédito. Não resistiu ao novo modelo de negócios. E eu já não tinha o que fazer ali quando desembarcava ou esperava o ônibus.

Vinte anos atrás, custaria a acreditar se alguém me dissesse que, em breve, poderia ter acesso a uma infinidade de títulos pelo preço do aluguel de duas fitas ao mês. O anunciante do futuro só não poderia omitir um pequeno grande detalhe: pouco do muito que tem ali interessa — e muito do que interessa não cabe ali.

Hoje, boa parte do que entra em cartaz nos cinemas sequer chega a se transformar em mídia física (ou não chega, e muitas vezes tem estadia limitada nas plataformas pagas). Os custos não cobrem as vendas. A crise das grandes livrarias, onde era possível comprar para presente algum box dos cineastas favoritos, viraram a tempestade perfeita para produtores e colecionadores. Isso sem contar, claro, a pandemia.

A história dessa mudança é contada no documentário "Cinemagia", hoje em cartaz nas plataformas de streaming. Não tem saudosista que resista.

Com a falência daquele espaço, veio a sensação de que algo se perdeu, algo se quebrou, está se quebrando em um mundo que oferecia, até outro dia, uma sensação mínima de organização e controle das coisas — e não só nas distrações de fim de semana.

Na nova ordem a palavra "permanência" entrou em desuso. Com ela, uma noção (ilusória, é verdade) de pertencimento — uma noção alimentada toda vez que cruzávamos uma porta de vidro para trocar ideia com um vendedor-cinéfilo-curador que radiografava nosso estado de espírito antes de abrir um leque de filmes como lanternas, coabitando prateleiras vizinhas.

É saudosismo, eu sei, mas tente dar bom dia aos algoritmos e entenda o que estou falando.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL