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Matheus Pichonelli

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Nem BBB nem futebol: no Brasil, militância não descansa. E isso não é ruim

BBB 21: Karol e Projota conversam sobre Lumena - Reprodução/globoplay
BBB 21: Karol e Projota conversam sobre Lumena Imagem: Reprodução/globoplay
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Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do TAB

20/02/2021 04h00

Quem queria só uma distração escapista, com alguns beijos, pequenas traições e gente à toa na piscina vai ter que esperar o BBB 22.

Quem queria só assistir futebol e desopilar de um dia trancado, melhor procurar outro programa. Quem sabe o do Ratinho, apresentador que outro dia manifestou o desejo de ver uma ditadura instalada por aqui só para varrer os mendigos da cidade. Ou o do Luciano Huck, pré-candidato a pré-candidato a presidente.

Mais ou menos como uma velha atração do Sérgio Mallandro, em que era mais fácil encontrar um monstro trancado do que um brinquedo ao abrir alguma das Portas dos Desesperados, o grau de politização da sociedade brasileira não deixou uma tramela para o espectador da História, com H maiúsculo, olhar, descansar e esquecer da vida por alguns segundos antes de deitar, apagar e dormir. É tudo tiro, porrada, bomba e insônia em alta voltagem.

Pior é que isso nem é necessariamente ruim.

Explico.

Tenho comigo uma tese de botequim de que só estamos assim, meio empolgados, meio estúpidos diante de qualquer discussão, porque aprendemos desde cedo a não discutir.

Quem cresceu ao longo da redemocratização provavelmente já escutou o mantra, ensinado por pais e avós calejados no silêncio e nas artimanhas anti-esporro da ditadura, que futebol, política e religião eram paixões de ordem pessoal, vedados e lacrados para qualquer discussão. "Não mexe nisso que dá briga", ensinavam.

Durante anos, a regra só era driblada no campo esportivo. Desobediente, o bom torcedor nunca perdeu a chance de cornetar juiz, técnico, escalação e atuação de seus perebas. A devoção das arquibancadas nunca foi condicional. Durava até o primeiro escanteio curto.

Nos outros campos, crescemos como crianças obedientes e sonolentas. Eu, pelo menos, nunca vi ao fim da missa alguém levantar a mão e dizer que achou, sei lá, meio inverossímil aquela história de camelos passando por agulhas ou cobras oferecendo maçã e pecado para quem estava de boa na floresta. Como nada disso estava em discussão, íamos para casa em paz, em companhia do Senhor.

Da mesma forma, a tal "política" foi, durante anos, apenas um caderno de jornal pelo qual passávamos a vista correndo, para chegar às páginas esportivas ou às notas dos filmes na editoria de cultura. Os minimamente interessados no que rolava em Brasília estavam condenados a vagar sozinhos pelos corredores do trabalho — e ficar sem assunto nos churrascos regados a futebol, cerveja e outros opióides e objetos alienantes, como gostava de dizer.

Hoje é mais fácil encontrar no churrasco alguém que saiba escalar de ponta a ponta os 11 ministros do STF do que a seleção brasileira. Alguns, inclusive com mandato parlamentar, querem esfolar os integrantes da Corte, como querem esfolar o meia que perdeu o pênalti.

Sintoma clássico de uma sociedade que, durante anos, só se reunia em grupo para torcer, nunca discutir.

Em algum momento da história — numa esquina entre a crise política e econômica com o surgimento das redes sociais —, aquele espírito do torcedor insatisfeito aflorou e transformou até as atrações mais inocentes da TV em trincheira dos embates mais acalorados.

Como não fomos educados ao debate, era inevitável que a falta de hábito produzisse algumas confusões. Uma delas foi achar que as micaretas de domingo à tarde com a camisa amarela eram demonstração de maturidade cívica. Ou que as panelas batidas na janela cozinhariam, sozinhas, o caldo da pureza republicana.

Mas há margem para amadurecer — e nem de longe pode ser ruim a consciência de que tudo é política, a começar por representação de padrões de comportamento, noção e beleza. (Viu? Gosto também se discute).

Com os dedos em riste, começamos a contestar o que dizem os líderes espirituais com pretensões eleitoreiras e até os atletas que reproduzem ou servem de palanque para os atos e discursos políticos mais violentos.

No dia 30 de janeiro, longe do estádio, sem poder aglomerar com amigos nas ruas ou nos bares, comemorei sozinho, de forma quase tímida, a conquista da Libertadores da América pelo Palmeiras. Foi, pensei, uma ilha de alegria gratuita e irracional em um mundo cercado por uma pandemia e todos os fantasmas encarnados por ela, a começar pelo medo da perda de amigos, familiares, familiares de amigos, da sanidade e do emprego.

Quando acordei da minha festa particular, no dia seguinte, encontrei um país conflagrado. A vitória do meu time me jogava automaticamente para as fileiras dos inimigos, fãs de ditadores e projetos de ditadores. E quem celebrava, conivente era.

"Se estes homens estão felizes, o Brasil está infeliz", dizia uma postagem com a foto de um encontro recente do volante palmeirense Felipe Melo e seu ídolo Jair Bolsonaro.

O raciocínio era tão lógico quanto dizer que a derrota do Santos, adversário da final, era a derrota dos homens violentos que se decepcionaram ao ver frustrada a contratação de Robinho, um condenado por estupro, pela equipe rival. Mas mostrava como a hostilidade do debate político havia saído dos estômagos, das redes e invadido os gramados. Já não falamos do atleta, mas daquilo que ele representa — e defende.

Isso não necessariamente é ruim, mas há consequências.

Uma delas é transformar qualquer respiro em um campo de batalha. Não há tempo ou espaço para descanso. Nem recurso para desopilar antes de desligar a cabeça e resetar o corpo para a batalha do dia seguinte. Se é que já existiu.

Na forma e no conteúdo, é possível apontar falhas e limites em posturas e discursos problematizadores full time que fizeram do "descansa, militante" um hit na virada dos anos 2010 e 2020.

Em sua atual edição, o BBB virou um laboratório de sujeitos e objetos das experiências de engajamento em um país que parece só agora disposto a discutir a reprodução de posturas, discursos, padrões e pequenas grandes vilanias — de quem cancela, de quem cancela quem cancelou e de quem cancela quem cancela quem cancelou. Na forma e no conteúdo, participantes e espectadores reproduzem o que em tese deveriam combater. Por isso, não há descanso. Podemos estar mais cansados e desesperançosos por ver tudo acontecendo em tempo real, mas calma lá: não estamos piores por isso.

A impressão é que, num passado recente, a gente era infeliz e não sabia. Agora sabe. E começa a desconfiar por quê. Não há foto de gatinho fofo ou "bom dia grupo lindo" de WhatsApp que dê conta de cobrir com fumaça nossa miséria — que sempre varremos para debaixo do tapete, evitando falar sobre isso. Isso explodia em ansiedade, pânico, tensão e violência. Agora, ao menos falamos sobre isso de cara limpa.

Durante anos, os programas de entretenimento, inclusive o futebolzinho de domingo, eram a Pasárgada dos versos de Manuel Bandeira, onde buscávamos refúgio, éramos amigos do rei e ninguém nos acusava de monarquistas. A consequência mais notável da alta voltagem das discussões é a sensação de não haver refúgio em um horizonte próximo. Talvez não haja por enquanto. Talvez não haja nunca mais.

Mas essa violência sempre esteve aí. Só era mais bem disfarçada entre sorrisos, silêncios, naturalização e falso escapismo.

Dias atrás, ao ver a invasão do Capitólio por militantes pró-Trump, cheguei a um nível de estafa que me fez confessar nas redes: estava cansado de ver a História acontecer todo dia e toda hora. Perto dos 40, escrevi, só queria envelhecer em paz ouvindo Molejão — o conjunto das músicas mais alienantes que consegui pensar na hora.

Fechava os olhos e me imaginava em alguma festa de quintal, com os amigos de escola cantando "pera, uva, maçã e salada mista" — como era bom. Tem coisa mais inocente? Tem.

Meu post envelheceu em tempo recorde. Líder da banda, o cantor Anderson Leonardo é hoje acusado de estuprar um jovem de 21 anos. Enquanto se defende, e é bom que possa se defender pelos meios legais, ele causou choque ao reproduzir, em uma live, todas as violências das quais jurava ser inocente. Não podia ser mais decepcionante.

Não é bem um cancelamento, mas precisei tirar a música da playlist do bloco do eu sozinho que desfilou na minha sala no sábado de Carnaval. Pois em casa, até as músicas que sempre ouvimos impune e inocentemente, também estão o tempo todo sob o escrutínio da revisão.

Sinal dos tempos. Tempos em que já não é proibido discutir — nem política, nem religião nem o entretenimento que consumíamos para não pensar na vida.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL