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Matheus Pichonelli

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Falabella, seu Caco Antibes não saiu de cena. Apenas perdeu a graça

Caco Antibes (Miguel Falabella) em Sai de Baixo (Foto: Reprodução/TV Globo) - Reprodução/TV Globo
Caco Antibes (Miguel Falabella) em Sai de Baixo (Foto: Reprodução/TV Globo) Imagem: Reprodução/TV Globo
Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do UOL

10/02/2021 04h00

"Sai de Baixo" foi um programa de estilo sitcom da TV Globo exibido nas noites de domingo entre 1996 e 2002. Um de seus personagens mais marcantes era Caco Antibes, o protótipo do brasileiro médio e decadente, tomado de ódio e preconceito de classe, interpretado por Miguel Falabella.

"Eu tenho horror a pobre" era seu bordão.

Em uma entrevista publicada no Estadão, no último fim de semana, o ator e dramaturgo afirmou que seu antigo personagem "não teria como existir hoje em dia". "Ele é representativo de uma época. Idiota seria eu se quisesse repetir o Caco Antibes", disse Falabella.

Eu não poderia concordar menos.

Quando o sitcom estava no ar, Caco Antibes era o apelido de todos os parentes que causavam mal-estar à mesa quando, depois da segunda cerveja, começavam a expelir perdigotos e planos higienistas para nossa cidade. A exemplo do personagem fictício, quase nunca eram levados a sério.

Como uma risca de chão imaginária, estava claro que Caco Antibes era uma caricatura resguardada pela impotência. Falava, falava e falava absurdos porque era tudo o que podia fazer.

Por isso provocava riso.

"Sai de Baixo" foi o programa que marcou o fim dos anos 1990. E foi na década seguinte que o Brasil botou para funcionar um dos mais bem-sucedidos programas de distribuição de renda do planeta. O Bolsa Família reduziu as taxas de extrema pobreza em 25% e as de pobreza, em 15%, entre 2001 e 2017. Naquele ano, 6,6 milhões de pessoas saíram da pobreza ou da extrema pobreza. Era o equivalente à população do Maranhão, segundo dados do Ipea.

Como contrapartida, o Bolsa Família tirou do armário o espírito insepulto do personagem.

O ranço nascido ali fez explodir o discurso de ódio, manifestado nas iminentes redes sociais, a começar pelo Orkut. Chegou ao Twitter e se espalhou pela deepweb.

O que era piada virou força política.

Jair Bolsonaro, em seus tempos de deputado, dizia que o programa do governo era uma mentira. Para ele, tratava-se de um projeto para "tirar dinheiro de quem produz e dar a quem se acomoda". Ele lamentava que, no Nordeste, já não se conseguia pessoas para trabalhar por causa do programa, que se tornara uma ferramenta de "cabresto".

Na época, o futuro presidente defendia um polêmico programa de planejamento familiar para que "o cara que faz três, quatro, cinco, dez filhos" não virasse problema do Estado. "Esse cara já vai viver de Bolsa Família, não vai fazer nada, não produz bens e serviços, não colabora com o PIB. Aqueles oito filhos vão ter que ter creche, escola, depois vão ter cota lá na frente. Para ser o que na sociedade? Nada."

Já candidato a presidente, Bolsonaro provocou aplausos ao calcular o peso de quilombolas em arrobas. Dizia que eles não serviam sequer para procriar.

Depois de eleito, apostou alto as fichas na imunidade de rebanho quando chegou a pandemia. Tinha a seu favor uma tese peculiar: os brasileiros, sobretudo os mais pobres, precisavam ser estudados, porque porque nadavam em esgoto e não acontecia nada com eles. Não seria diferente em contato com o coronavírus. Hoje o país soma 230 mil mortos e ele pergunta "e daí?".

A ironia é que o deputado que fazia cosplay de Caco Antibes para ganhar engajamento tem hoje a popularidade atrelada ao auxílio emergencial — e não perde chance de posar nas redes como um político de base humilde, que fala a língua do seu povo. Haja leite condensado no pão para adoçar a fantasia vestida no condomínio Vivendas da Barra.

Bolsonaro deu corpo e empoderou o espírito cacoantibeano, mas não está só. Seu Posto Ipiranga é um ministro da Economia que acredita que a maior inimiga do meio ambiente é a pobreza, que pobres são pobres porque consomem tudo e não guardam nada, e que já demonstrou alívio com o fim da farra dos governos anteriores em que até a empregada doméstica podia viajar para a Disney.

A ascensão de Bolsonaro e sua turma não é resultado de uma conversão repentina dos brasileiros à cartilha de Caco Antibes. Há muitos elementos que explicam a sua chegada ao Planalto, inclusive a implosão do sistema político e partidário a partir da Lava Jato.

Na semana passada, a divulgação de trocas de mensagens entre procuradores da força-tarefa e o então juiz Sergio Moro mostrou que a bronca dos responsáveis pelas investigações não era só pelos supostos malfeitos dos investigados.

Ex-operário nascido em Garanhuns (PE), Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente que colocou em campo o Bolsa Família, era ridicularizado sistematicamente pelos investigadores no grupo do Telegram. Deltan Dallagnol o chamava de "9", em referência ao acidente de trabalho que fez o ex-presidente perder um dos dedos.

E Januário Paludo, o "pai" da equipe, dizia não ter dúvidas de que o sítio em Atibaia, alvo das investigações, era do ex-presidente porque, "além de deprimente, tinha muita roupa brega de mulher, decoração horrorosa e vinhos de boa qualidade, mas muito mal conservados."

Se fechar os olhos, é possível ouvir Caco Antibes pronunciando cada linha.

Só não dá para escutar as risadas ao fundo.

Desculpa discordar, Falabella. Mas seu personagem nunca foi tão atual nem teve tanta força política. Apenas perdeu a graça.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL