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Matheus Pichonelli

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Lute como um padre: Júlio Lancelotti é bom exemplo para 'cidadãos do bem'

Padre Júlio Lancellotti caminha entre pedras instalas pela Prefeitura de São Paulo sob o viaduto Dom Luciano Mendes de Almeida, no bairro do Tatuapé, Zona Leste da capital - Henrique de Campos
Padre Júlio Lancellotti caminha entre pedras instalas pela Prefeitura de São Paulo sob o viaduto Dom Luciano Mendes de Almeida, no bairro do Tatuapé, Zona Leste da capital Imagem: Henrique de Campos
Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do TAB

07/02/2021 04h00

De máscara, luvas e óculos escuros, jaleco branco sobre um avental amarelo em homenagem a Irmã Dulce, a Santa dos Pobres, o padre Júlio Lancellotti levou, no último dia 2, uma marreta para uma território inóspito da zona leste de São Paulo. Tomada de pedras acinzentadas, a área mais parecia outro planeta — desses visitados por sondas espaciais após meses de viagens, pesquisas, esforços e recursos para investigar se existe vida fora da Terra.

Com a parafernália sobre o corpo, que conferia a ele um ar entre um mandaloriano e uma versão local de Walter White, o religioso escavava a mensagem mais óbvia soterrada debaixo dos escombros de um projeto de país. Lembrava que havia vida naquela quebrada, daquela cidade, daquele país, naquele planeta. Isso até algum gestor municipal fazer, naquela rampa sob um viaduto, uma instalação hostil a quem não tem onde dormir.

Em suas redes, o padre defendeu o uso da marreta no combate à opressão representada pelas "pedras da injustiça". Como quem sabe manejar a imagem em tempos em que ser e parecer se confundem, virou notícia e ganhou notoriedade na queda de braço com a prefeitura — desequilibrada, pouco depois, pelas máquinas à disposição do poder público para remover as pedras da insensatez após a pressão popular contra a medida.

Não foi a primeira nem será a última, espera-se, performance midiática de Padre Júlio.

Sua atuação à frente da Pastoral do Povo da Rua e dos grupos mais vulneráveis coincide com a escalada da crise econômica, social e política que redundou na explosão no número pessoas em situação de rua na maior cidade do país — e da violência contra elas, consequentemente.

Segundo um censo realizado pela Prefeitura de São Paulo, quase 25 mil pessoas fizeram das ruas da cidade as suas casas provisórias em 2019 — índice provavelmente multiplicado e ainda não auferido ao longo da pandemia.

Com quase 120 mil seguidores só no Twitter, Lancellotti tem usado as redes sociais para mostrar essa escalada e visibilizar a luta em defesa da população de rua. Recentemente, o padre postou uma foto ao lado de duas travestis em situação de rua com a legenda: "acolher sempre, discriminar nunca". A atuação rendeu, em outubro, um telefonema do Papa Francisco, que pediu ao sacerdote brasileiro que não desanimasse e seguisse ao lado dos mais pobres. Mas aqui já não basta ser amigo do papa para ter a trajetória preservada.

A postura combativa do religioso é quase um contrassenso em um país que se acostumou a ver líderes políticos e espirituais usarem o santo nome em vão para viralizar preconceitos e fustigar justamente as vítimas das injustiças históricas dos que se negam a reconhecer o sofrimento.

Padre Júlio lembra que um profeta, em seu tempo, não é quem promove curas ou é capaz de prever o futuro. É quem não perdeu a fé nem a capacidade de gritar ou anunciar a esperança.

Quem fez catequese ou frequentou a igreja nos anos 1990 vai se lembrar das palavras de uma passagem bíblica sobre pedras e profetas musicadas pela poeta e teóloga Cecília Vaz Castilho. A certa altura, a música provocava e chamava à ação os que têm fome e sede de justiça: "No banquete da festa de uns poucos, só rico se sentou. Nosso Deus fica ao lado dos pobres colhendo o que sobrou. O poder tem raízes na areia, o tempo o faz cair. União é a rocha que o povo usou pra construir".

Relembrados hoje, os versos parecem profetizar as marretas que todos os que se dizem cristãos deveriam carregar até que todas as estruturas de opressão sejam detonadas, uma a uma. Por isso, era preciso tornar-se "um perigo". Os adeptos da morte como solução política chamam isso de subversão. A música se tornou um hino e um lembrete permanente da luta sofrida do povo que quer ter voz, ter vez e lugar. E nunca fez tanto sentido como agora.

Em setembro, após virar alvo de ofensas de um deputado e candidato a prefeito da base reacionária de São Paulo, Lancellotti precisou registrar um boletim de ocorrência e acender o alerta. Estava na praça com os moradores de rua quando um motoqueiro o ameaçou, chamando de "padre filho da puta que defende noia". Era mais um cidadão de bem agindo em nome de um Deus violento e vingativo, que só existe na cabeça de quem não entendeu nada. Nem das pedras nem das profecias.

É que a luta por justiça e o acolhimento dos excluídos cobram um preço.

Na distopia em que se transformou o país que aboliu a metáfora, e converteu em estrutura física a alegoria do caminho das pedras e dos pedregulhos diários quebrados e mastigados para seguir, a velha passagem sobre a censura dos fariseus ao clamor popular ressoa alto nas regiões inóspitas administradas pelos doutores e mestres da lei. Ela avisa que, se calarem a voz dos profetas, as pedras falarão.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL