Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
Sobrevivencialistas: medo da extinção põe em risco o que nos fez evoluir

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"Por que a gente sempre perde? A gente é maior e mais forte".
A pergunta é levantada por um Neandertal em um ringue criado pelos ilustradores David Vandermeulen e Daniel Casanave na versão em HQ do livro "Sapiens: O nascimento da humanidade". Quem responde à pergunta é o próprio autor do best-seller, Yuval Noah Harari, também transformado em personagem na adaptação.
A hipótese analisada por Harari é que, em uma disputa "mano a mano" com os Sapiens, a espécie humana fisicamente mais forte poderia até vencer. A chave do sucesso dos coabitantes das cavernas, porém, era outra. Estava na revolução cognitiva, que os levou a desenvolver a capacidade de confiar em desconhecidos, formar grupos maiores, liderar grandes empreendimentos e, por fim, conquistar o mundo.
"Se vocês não confiam em desconhecidos, como vão comercializar com eles?", pergunta a certa altura o autor-personagem, lembrando que o comércio global de hoje se baseia justamente em confiança nos totens das finanças, como dinheiro e a credibilidade das empresas.
"A gente prefere fazer ferramentas com coisas locais", respondem os nossos primos distantes no quadrinho seguinte.
O resto é História.
Um dos desafios de quem se debruça sobre os nós civilizatórios do século 21 é entender como o dispositivo que nos levou à vitória na corrida da evolução (e também a casas equipadas e alimentadas por sistemas elétricos, hidráulicos, logísticos etc) seja visto hoje como um perigo à sobrevivência da espécie.
O coronavírus, a doença como metáfora do nosso tempo, parece punir um modo de vida baseado no encontro entre desconhecidos, na expansão da ideia de aldeia e na fragilidade das conexões humanas que estabelecemos com a moeda da confiança — aquele dispositivo em decadência que nos leva a abrir a torneira da pia confiantes de que alguém fez seu trabalho direito em algum canal da empresa de saneamento.
A pandemia, que nos obrigou a ficar em casa e temer pelo fim de um modelo que até outro dia nos garantia emprego, mobilidade e o abastecimento da geladeira, mostrou a vulnerabilidade, tantas vezes alardeada, de tudo isso.
Nem todos desdenharam dos alertas sobre o fim do mundo. Produzido e recém-lançado pelo TAB, o documentário "Sobrevivencialistas" mostra como, no Brasil, ganhou corpo um movimento de indivíduos que se prepararam justamente para momentos como este. Precavidos, eles hoje parecem prontos para todo tipo de tempestade ou crises decorrentes de rupturas políticas, econômicas, sociais, a catástrofes e emergências sanitárias. Ao colapso, enfim.
"Aqui não existe o apocalipse. Aqui não existe covid. Não existe encrenca política", diz um dos personagens do documentário enquanto dirige seu veículo numa estrada de terra de Alfredo Wagner, município do interior catarinense onde montou o seu refúgio.
Quem não conhece o movimento chega a ficar em dúvida se o "aqui" da conversa se refere ao veículo ou à localidade. Esta é só uma das muitas leituras possíveis de serem extraídas dos cenários deste mundo pós-colapso, que tem na desconfiança de tudo e de todos uma estrutura elementar que une e desconecta.
O que os une é o medo da extinção e a consciência da fragilidade de um tecido social cada vez mais complexo e interdependente. Um dos sobrevivencialistas entrevistados é, antes de tudo, um sobrevivente da crise econômica — que o fez perder todos os clientes de sua empresa em duas semanas. "Não estava preparado para isso. Hoje estou", garante ele, que usou cada centímetro cultivável de seu quintal para produzir a própria subsistência.
Voltando aos primórdios, os tempos em que nossos avós construíam as próprias casas, cercas, plantavam, colhiam e matavam o próprio jantar, os sobrevivencialistas do filme parecem revolucionar o presente com as armas do passado. Não só no sentido alegórico. O armamento é uma das bases de uma lógica que junta e embaralha os signos do debate político contemporâneo que tornou incompatíveis, em condições normais de pressão e temperatura, as palavras "armas" e "sustentabilidade".
Nas grandes cidades, muros, grades, vigilância, monitoramento e armas são usados para proteger os indivíduos da figura do outro — essa figura fantasmagórica que nos ameaça de subtração o tempo todo. No caso dos sobrevivencialistas, a solução foi se apartar dos centros urbanos como quem se afasta do pecado original.
Cidades Sitiadas
Na metade da década de 1970, menos de 40% da população global vivia nas cidades. Hoje, mais da metade do planeta convive em áreas urbanas. Com essa expansão, ascendem também os movimentos conservadores e antiurbanistas, como mostra o geógrafo Stephen Graham no livro "Cidades Sitiadas".
Estes movimentos veem as cidades como versões atuais de Sodoma e Gomorra, alvo da fúria divina na passagem bíblica por serem território da perversão. A ideia de que nas cidades vive o que há de pior no mundo parece unir os que querem se proteger dela a todo custo, seja com a ajuda de milícias e fortificações internas, seja em pequenos grupos distantes e em busca da comunhão com um velho modo de vida.
No caso dos sobrevivencialistas, não se trata de leitores do arcadismo nem de candidatos a poetas dispostos a percorrer os bosques tocando harpas. O deus Pan, se vier, que venha armado nas fortificações construídas pelos personagens em busca da imunização contra um mundo contaminado, interdependente e tomado por parasitas, como define um deles. "O coletivo não funciona. O Estado é inimigo. Saiu fora do meu mundo é inimigo", resume.
Neste mundo particular, eles se perguntam, sem chegar a um consenso, o que é preciso para viver distante da sociedade e dos chamados serviços essenciais. A resposta passa certamente por uma visão assumidamente individualista de mundo. Por esse ângulo de individualidade positivada, estocar alimento não é egoísmo, é precaução; se o vizinho fizer o mesmo é sinal de que ele é forte, e uma sociedade forte não se constrói com indivíduos frágeis, despreparados, que não sabem se proteger nem prover os seus recursos.
Como qualquer recurso, porém, o argumento têm limites. Como quando um dos entrevistados descreve que já teve a liberdade de ir e vir pelo campo interrompida a tiros. O local era uma propriedade privada.
Um mundo de caixas-pretas
Em um ensaio do livro "Pequeno Manual de Procedimento", o escritor e ensaísta argentino César Aira rememora os tempos de criança, em que os donos de automóveis se gabavam por desmontar as máquinas até o último parafuso só para montá-las novamente. Era, segundo ele, uma proeza necessária para manter uma relação boa e confiável com o veículo. O mesmo acontecia com outras invenções do século passado, como a máquina de lavar louça. Até que, em algum momento daquele mesmo século, a humanidade deixou de saber qual era o funcionamento das novas tecnologias.
Quem passou a ter as chaves do conhecimento, cada vez mais fragmentado e especializado, foram os engenheiros dos laboratórios de pesquisa e desenvolvimento. O cidadão comum, define Aira, perdeu a pista e passou a habitar em um mundo de caixas-pretas, no qual ninguém sabe o que acontece dentro do mais simples dos aparelhos de que nos servimos para viver. Um pequeno celular, por exemplo.
"A complicação da economia, os deslocamentos populacionais, os fluxos de informação traçando caprichosas espirais num mundo de estatísticas contraditórias acabaram por produzir uma cegueira resignada, cuja única moral é a de que ninguém sabe 'o que pode acontecer'; ninguém acerta os prognósticos, ou só acerta por casualidade".
Isso não acontece sem reação. A insegurança diante desse mundo imprevisível, tomado de caixas-pretas, nos leva a buscar segurança em uma ideia de liberdade que só dura até a segunda página. Ela é, antes de tudo, capacitista, pois parte da ideia de que o mundo é dos mais fortes e mais aptos — e nele não parece caber as limitações humanas mais diversas, da velhice às deficiências.
De alguma forma, os sobrevivencialistas são a versão mais bem acabada de uma ideia que tomou corpo durante a pandemia, segundo a qual era preciso dirimir as contingências do atual modelo de desenvolvimento que nos tornou hiperdependentes dos grandes centros produtores. Deveríamos, em vez disso, valorizar nossos espaços, produzir nossos próprios pães, nos desfazer do que é excedente, circular menos, reforçar os laços comunitários e nossa localidade.
Quando percebemos, estávamos ainda mais dependentes desses mercados — os que nos mantinham conectados à rede via Vale do Silício e os que forneciam insumos para imunizantes e matéria-prima das seringas. O que deveria ser minimizado apenas ficou escancarado.
No caso dos sobrevivencialistas, o sonho de consumo é um sonho sem consumo além do necessário. A desconexão com esse mundo rejeitado se dá, por ironia, pelo crescimento dos canais por onde espalham suas ideias. É o que une os influencers da auto-substsência a youtubers criados em apartamento: se a conexão cair ou as plataformas eletrônicas falirem, eles compartilharão as mesmas vulnerabilidades. É o que diferencia um influencer sem conexão de um influencer ensinando a sobreviver em uma cabana.
Na contramão dos exercícios de autodescoberta, no entanto, afirmar e lidar com o desamparo ali é para os fracos, segundo essa concepção. É como remediar o fim e a decadência, inevitáveis desde que o mundo é mundo, com algum controle do próprio espaço, mas não do tempo. Como resume um entrevistado, talvez sem perceber o ato falho, ao mostrar para a câmera o seu estoque de arroz. "Temos bastante, mas até quando?"
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