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Matheus Pichonelli

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Sequelas do negacionismo serão profundas mesmo no pós-pandemia

Manifestantes fazem protesto contra Doria - Ronaldo Silva/Estadão Conteúdo
Manifestantes fazem protesto contra Doria Imagem: Ronaldo Silva/Estadão Conteúdo
Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do UOL

24/03/2021 04h00

Na cidadezinha para onde os pais de um grande amigo se mudaram no começo da pandemia, circula como alma penada um morador que nos últimos meses ganhou o apelido de Trintinha.

Não procure o significado no dicionário. Trintinha é uma derivação semântica do algarismo 30. É uma referência ao índice de eleitores dispostos a aceitar, obedecer, apoiar e divulgar tudo o que faz ou fala o presidente da República.

Na descrição das pesquisas de opinião, o Trintinha tem 100% de aproveitamento no check list. Ele já minimizou a gravidade do coronavírus, já defendeu que a histeria em relação à doença mataria mais do que o vírus em si, já disse que não era cobaia da "vachina do Doria", já promoveu aglomeração, já bateu no peito pra dizer que tem histórico de atleta, já desafiou todo mundo que encontra paramentado com máscaras e álcool em gel a enfrentar a situação como homem, não como maricas. Enfim, fechou invicto o Grand Slam da cartilha bolsonarista em tempos de crise.

De um tempo pra cá, ele até admite a gravidade da doença e a possibilidade de se imunizar, mas essa não é nem de longe a sua nova obsessão. A nova obsessão é convencer os familiares, amigos e vizinhos que de nada adianta restringir a circulação de pessoas para conter o morticínio; para ele, o vírus é capaz de passar por baixo das nossas portas e invadir nossas narinas quer queiram ou não os confinados. Ele, como o presidente, vê muito exagero no noticiário, diz que hospitais sempre estiveram lotados e as filas só têm a exposição que têm agora porque os gestores estaduais e municipais querem usar a pandemia para receber repasses e engordar os próprios bolsos.

Quem convive com o Trintinha está preocupado com as sequelas do seu negacionismo. Acham que elas podem perdurar por muitos anos, caso sobreviva à pandemia. Entre os prejuízos à sua saúde social está a visão turva, a perda de tato e, principalmente, o isolamento forçado de quem ganhou a fama de espalha-roda — expressão comum naquela região do país que significa "dispersa que o mala chegou".

Curioso é que até pouco tempo o Trintinha era o tipo conhecido de todos. Não era exatamente um sujeito antipático. À distância, parecia só meio desocupado, meio folclórico, e às vezes, não sempre, testava a paciência dos interlocutores com histórias fantásticas relacionadas à viagem do homem à Lua ("nunca aconteceu, posso provar"), às propriedades miraculosas do orégano para curar sarna, ao satanismo incrustrado nas letras dos Beatles, às relações perigosas entre o síndico e confrarias secretas e outros delírios conspiratórios.

O Trintinha é, antes de tudo, um sujeito contrariado e desconfiado que encontrou em 2018 a representação de toda a sua paranoia (não fossem os governos anteriores, ele jura que a uma hora dessas estaria na capa da Forbes, e não mandando correntes o dia inteiro por WhatsApp). Fato é que, em 2018, ele finalmente encontrou alguém para ouvir e compartilhar as teorias no grupo "Melhor Jair Se Acostumando". Foi lá que ele se realizou como homem.

O coitado nunca fez mal a ninguém, diziam os que não se negavam a dar a ele o que no fim era a maior das queixas: o déficit de atenção. Não deixava de ser um trabalho de cunho social, para o qual a companheira e os filhos, sobrecarregadas pelo sujeito entediado em casa, seriam eternamente gratos.

Só que, de um ano pra cá, quando a pandemia deixou de ser um medo distante e passou a vitimar amigos, familiares e vizinhos, a conversa do Trintinha deixou de ser uma mera amolação. Passou a gerar revolta.

Quanto menos adeptos às suas teorias, mais agressividade ganhavam as suas pregações. Aos poucos, os conhecidos iam se conscientizando — pela própria experiência — da necessidade de ficar em casa e restringir o contato social, mas a obsessão do Trintinha era alugar uma van e fazer acampamento na porta da casa do João Doria, em São Paulo, com alguns amigos que conheceu no grupo. O mote era reconquistar, como os cruzados da Idade Média, a liberdade de ir e vir, salvando a nação das garras da tirania sanitária. Para isso precisava de adeptos, como quem sobe no caixote no centro da cidade e passa a gritar, para quem não quer ouvir, que o fim está próximo.

O Trintinha já havia cotado o preço do deslocamento, disponibilizado barracas e até jingle contra o tirano de calça apertada. Sem a aderência imaginada, e prestes a desistir da empreitada em uma vizinhança em quarentena, o patriota dobrou a aposta. Agora, não pode ver ninguém sair de casa para esticar as pernas que já cola, gruda e pergunta se o interlocutor tem cinco minutos para ouvir a palavra do Messias.

Às negativas ele responde, entre perdigotos livres do uso opressivo de máscara, se eles não pensavam nos pequenos comerciantes da cidade ou na onda de saques e arrastões que estavam por vir. Um princípio de bate-boca por pouco não virou vias de fato quando alguém o mandou sossegar porque em breve, quando tudo passasse, a quadra de bocha seria aberta e ele teria o que fazer — há quem veja nesta interdição temporária a origem de toda a revolta do Trintinha.

Fato é que, enquanto se ancora no argumento de que ele é livre para pensar e agir como quiser, e enfrentar a tal da pandemia (sempre agora com o prefixo "tal"), o Trintinha escancara um pouco da nossa falência como sociedade. Aquela que confunde direito de se sabotar ao direito de sabotar os esforços de quem preferiu se cuidar, ouvir o que os especialistas têm a dizer, restringir a circulação, o contato social e não cair no conto dos curandeiros de ocasião.

Se antes havia uma aura inofensiva nas andanças e pregações do Trintinha, hoje, quando ele pergunta a alguém que perdeu pessoas próximas até quando vamos chorar, lamentar e nos isolar, o raio de distanciamento de sua figura e suas ideias se amplia como uma corrente tóxica.

Com o tato social afetado pelo negacionismo, o Trintinha não percebeu o momento em que deixou de ser o cidadão falastrão e virou um sujeito inconveniente a caminho de se tornar radioativo, daqueles que ninguém quer o contato e, menos ainda, a amizade. Talvez seja pedir demais que ele reparasse como as pessoas já alteram o trajeto e mudam de calçada para fugir daquele encontro. O nome disso é desprezo, e ele pode ser avassalador para a vida em sociedade.

Já não se trata de dar ouvidos a quem defende mudança no currículo escolar por ver perversão até no extintor da escola; os estragos, neste caso, não eram tão visíveis no curto prazo como agora.

No caso do terraplanismo sanitário, quanto mais a tragédia nacional se confirma, com a marca dos 300 mil mortos em um ano, mais ela ganha materialidade nos círculos próximos, onde todos os dias nos despedimos ou vemos alguém se despedir de alguém. Consequentemente, mais irresponsável e cretino fica o esforço para dizer que nada disso é grave quando ele nos afeta direta e imediatamente.

Fica difícil dissociar a tragédia nacional das pequenas grandes correias de transmissão do negacionismo-mor. Pela má fé ou pela ignorância, eles apostaram alto na própria convicção e agora colhem a erosão dos laços sociais, familiares e afetivos. Quase um terço do país, o Trintinha reunido ainda é uma multidão, embora cada vez menos aceito pelos outros 70%.

Naquela cidade afastada dos grandes centros, as feridas que o embate negacionista produziram são o legado de um caminho sem volta de degradação.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL