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Matheus Pichonelli

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

'Também somos vítimas de golpes por telefone', diz dono de funerárias

Lourival Panhozzi, presidente da Abredif (Associação de Empresas e Diretores do Setor Funerário) - Lourival Panhozzi/Acervo Pessoal
Lourival Panhozzi, presidente da Abredif (Associação de Empresas e Diretores do Setor Funerário) Imagem: Lourival Panhozzi/Acervo Pessoal
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Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do TAB

07/04/2021 09h07

"Pessoal reclamando que eu tô de mau humor hoje, porra, acordei com ligação de plano de assistência funerária. Vocês queriam o quê?"

A pergunta do ator e humorista Leandro Ramos — o Julinho do "Choque de Cultura" — resume o espectro que ronda o Twitter, o canal por onde potenciais clientes correm para se queixar da abordagem dos vendedores, muitos deles com uma gravação como cartão de visitas.

"Eles também me ligam. O slogan da campanha é: cemitério, só falta você, seja bem-vindo. Cada um tá vendendo o seu peixe e nesse momento é o que tem", respondeu uma seguidora.

Os relatos são recorrentes. "Estar com covid é, às 20h56, receber ligação de funerária oferecendo planos", escreveu uma usuária da rede. "Nada mais motivacional pro início de 2021, onde as mensagens de bom dia dos parentes dividem espaço com seguro de vida e ligação de funerária", postou outro.

Interessado em saber como é o trabalho de quem está do outro lado da linha, perguntei, no mesmo Twitter, quem já recebeu ou contratou serviços do tipo. Em vão. Todos eram unânimes em dizer que encerraram a ligação ou deletaram as ofertas surgidas em suas páginas. "Bloqueei e mandei um recado indignada para o Facebook. Tenho um app que bloqueia ligação de funerária toda hora", disse uma amiga.

Sem muitas pistas, corri para a outra rede e pedi para participar de um grupo privado no Facebook que reúne cerca de 14,4 mil agentes funerários de todo o país.

Ali, um post fixado pelo administrador mostra que a regra é clara daquele portal em diante: "O bom agente funerário fala pouco, escuta mais e age com prestabilidade e rapidez. Falar é prata, ouvir é ouro".

Parecia um contrassenso diante da estratégia agressiva de marketing digital. E era.

Durante alguns dias, acompanhei as postagens em busca do personagem ideal — de preferência alguém incansável na missão de prospectar clientes por telefone em um momento delicado. Como reagem as pessoas do outro lado da linha? Como fazer essa abordagem? Como, afinal, fazer seu trabalho honestamente e lidar com a fama de mensageiro (ou mensageira) da morte nas postagens-desabafo pelas redes sociais?

Para minha surpresa, pouco se falava no grupo sobre esse profissional que intriga a tuitosfera. A maioria das postagens lembrava os bons dias, boas tardes e boas noites dos grupos da família no WhatsApp — só que com caixões e mensagens motivacionais ao fundo. "Seguimos firme e forte", escreveu um participante, encerrando com um punho fechado. "Mais um traslado concluído com sucesso", escreveu outro, ostentando a marmita no banco do motorista com a entrada de um cemitério à frente. "Que nosso dia comece bem e termine melhor ainda. Excelente plantão a todos."

A maioria do público pode não entender, mas lidar com a morte tão de perto não impede que profissionais dedicados manifestem orgulho da missão, essencial sobretudo em tempos como os atuais.

Entre as postagens com mais engajamento estava o vídeo em que amigos e familiares de uma vítima da covid desconfiam do diagnóstico e abrem o caixão para conferir se ela estava viva (a câmera que capturou a cena não permitiu chegar a alguma conclusão, e minha curiosidade jornalística não ia tão longe).

Ali, selfies de agentes com máscaras, face shield e outros equipamentos de proteção são recorrentes, mas poucos chegam a falar sobre sua relação com a doença que já matou quase 340 mil pessoas no país. Um dos poucos a tocar no assunto era um agente que trabalha há anos no setor e perdeu a mãe para o coronavírus em dezembro. Ele relatava a dificuldade de, na sua vez, não poder participar do velório.

Havia postagens também com pedidos urgentes de encomendas de urnas funerárias, artigo disputado e muitas vezes em falta.

Chamei alguns dos participantes por mensagem para falar sobre o timing do telemarketing funerário. Uma apenas, que vendia serviços digitais, respondeu, ainda assim prometendo que o chefe entraria em contato. Espero até agora.

Foi quando o administrador da página avisou que todos os caminhos levavam a Lourival Panhozzi, o presidente da Abredif (Associação de Empresas e Diretores do Setor Funerário). Após alguns dias tentando contato, ele topou conversar por telefone na última terça-feira (5) e revelou: como meio mundo do Twitter, ele também recebe diversas ligações com ofertas de planos funerários. As propostas só aumentam desde o início da pandemia.

Da última vez, ele ficou na linha para saber até onde ia a conversa. A oferta parecia ótima, não fosse um detalhe: o vendedor dizia ao cliente em potencial que, à exceção da morte, não havia o que temer. Ele garantia que sua empresa tinha convênio com a funerária da cidade e não o deixaria na mão caso precisasse. Só que o dono da funerária da cidade era o próprio Lourival, que atua no setor há 45 anos — mais precisamente, desde que ouviu do pai, pioneiro da família nos negócios, em Botucatu (SP), que estava grande o suficiente e já podia começar a carregar caixões com ele. Lourival tinha 15 anos e não parou mais.

Panhozzi lembra que seu pai foi um dos primeiros empresários a atuar com seguros funerários no país. Na década de 1960, ele ajudava a reunir um certo número de famílias que pagavam uma espécie de vaquinha a cada funeral. O jovem que aprendeu com o pai o ofício tem hoje 60 anos, ostenta barba longa e branca, em contraste com a cabeça raspada, e é dono de uma rede de funerárias pelo interior e grande São Paulo. Com trajes escuros que denotam sobriedade, Panhozzi foi visto recentemente na TV em entrevistas sobre os riscos de o Brasil enfrentar um caos funerário com o agravamento da crise sanitária.

Tal figurino e experiência dão a ele autoridade para cravar: 90% das propostas de planos funerários que recebemos em redes sociais e ligações de telemarketing são golpe. "Várias dessas companhias entram no mercado, capturam clientes por meios eletrônicos com taxas atraentes e depois desaparecem. É um esquema de pirâmide. Muitas usam nomes de grandes empresas e investem em ações agressivas de telemarketing", afirma.

A estratégia dos oportunistas, claro, tem como motor a pandemia, que deixou as pessoas mais suscetíveis —embora assustadas com propostas do tipo. "A morte entrou na casa de todo mundo. A pessoa pensa que também pode morrer e, quando recebe a oferta e vê que o preço é mais barato, que o vendedor tem um site bonito, colorido, acaba caindo na conversa. A pessoa compra e não leva 100%. É como o golpe do bilhete premiado, que até hoje atrai muita gente", diz.

Ele admite que o tema é sensível demais para se falar com um desconhecido ao telefone. "Ninguém quer comprar um seguro funerário, como ninguém quer comprar caixão. Mas todo mundo tem essa necessidade. Quando uma empresa faz isso de forma indiscriminada, acaba atingindo pessoas que estão em um momento delicado e acaba ferindo sensibilidades. Esse tipo de abordagem à distância não me agrada, embora em algum momento todos vamos ter que aprender a usar. O problema é que se trata de um campo vasto e a concorrência com os golpistas é desleal."

O especialista diz que a única maneira de não cair em propostas furadas é falar diretamente com as funerárias da própria cidade. (Quando fala em propostas furadas, ele se refere a contatos que, à primeira vista — ou toque de telefone — parecem bons negócios, mas que só entregam parte do combinado). Panhozzi reitera que ninguém pode garantir atendimento funerário em todo o Brasil, porque é praticamente impossível que todas as funerárias sejam credenciadas.

Ele explica que esse tipo de venda ainda funciona à moda antiga — no caso, presencial. E, por motivos óbvios, esse trabalho ficou mais limitado com a pandemia.

O empresário afirma que as próprias funerárias são vítimas preferenciais de golpes por telefone. Um clássico é o que simula uma contratação após um suposto acidente envolvendo o nome de alguém que está no IML (Instituto Médico Legal). Com base nessas informações o falso cliente diz que perdeu alguém no acidente e pede para o empregado da funerária depositar um dinheiro para poder se deslocar até o local, assinar o atestado de óbito e encaminhar a contratação. "Essas ligações são feitas dentro do presídio", diz o empresário.

Ações do tipo, segundo ele, acontecem no momento em que as funerárias já trabalham no limite — com escassez de mão de obra e de matéria-prima. "Na crise em que vivemos, alguém conseguir se manter de pé já é um sucesso."

Escaldado de truques do tipo, o relato do dirigente ajuda a atualizar Nelson Rodrigues. O golpista brasileiro não é solidário nem no enterro.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL