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Matheus Pichonelli

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Vacina de soro' entra para história como monumento ao embuste nacional

Laudo da PF comprova que vacina tomada por empresários em BH era soro fisiológico - Getty Images
Laudo da PF comprova que vacina tomada por empresários em BH era soro fisiológico Imagem: Getty Images
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Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do UOL

10/04/2021 04h00

Durante anos, o projeto que iria revolucionar o modelo de transporte público em São Paulo ligou o nada a lugar nenhum. Invertendo Lévi-Strauss (e, consequentemente, Caetano Veloso) as obras do Fura-Fila pareciam ruína e ainda eram construção.

Da promessa de transportar 300 mil passageiros por dia só não sobrou a piada porque, entregue como estava, ficou a aberração. O Expresso Tiradentes, como a obra foi renomeada para tirar do batismo as bênçãos dos idealizadores, Paulo Maluf e Celso Pitta, custou R$ 1,2 bilhão aos cofres públicos e, 20 anos após o início das obras, segue subutilizado e isolado de outros meios de transporte. Um amigo do Ipiranga não hesita em dizer que o Fura-Fila é o maior fiasco da história da cidade.

Vinte e cinco anos após ser apresentada aos eleitores na campanha à prefeitura paulistana de 1996, quis o destino que a expressão Fura-Fila voltasse ao noticiário com a aprovação, pela Câmara dos Deputados, de um projeto que permite à iniciativa privada passar à frente dos órgãos públicos para comprar as próprias doses da vacina para covid-19 — desde que doasse metade do produto ao SUS.

Em coluna recente, falamos por aqui sobre o risco, agora mais evidente, de jabuticabas do tipo, que só existem no Brasil, transformarem um país inteiro em um arquipélago de condomínios sanitários — nos quais, na contramão do plano nacional de imunização, o acesso às vacinas se converteria em privilégio. Um privilégio para quem pode pagar por elas. Como quase tudo no país.

Os paralelos com a menina dos olhos de Paulo Maluf ficam por conta do leitor. A versão 2021 do Fura-Fila, como a proposta foi batizada pela oposição, só não virou lei ainda porque falta aprovação do Senado.

Antes disso, em Minas Gerais, dois empresários do setor de transportes decidiram que não era uma boa hora para esperar nem a legalização da ultrapassagem nem a sua vez na fila oficial.

Com um plano mirabolante, pensaram escrever o roteiro para um thriller e entregaram uma patacoada digna de "Os Trapalhões".

No mês passado, eles contrataram uma enfermeira que, não se sabe como, se aproximou e garantiu que na mão dela o ingresso imunológico sairia mais rápido. Como quem cai no conto de cambista na frente do estádio, correram o risco e se deram mal.

Pela pechincha de R$ 600, ao menos 57 pessoas, entre elas os dois barões dos transportes, pagaram para furar a fila pela qual um país inteiro aguarda. A vacinação coletiva aconteceu em uma garagem de ônibus e em um edifício de luxo. Só que o programa clandestino de imunização era puro embuste — e rendeu aos fura-filas uma passagem apenas para as páginas policiais.

A cambista, desconfia a polícia, não tinha ingresso de verdade. Ela seria uma falsa enfermeira que já havia dado outros golpes na praça e tinha passagem pela delegacia por roubo. Foi presa e, por ordem da Justiça, aguarda o desfecho do processo em liberdade.

O episódio não deixou exatamente uma moral da história, mas sim um alerta: a autoestima do homem rico é mais ou menos como um chamariz luminoso que atrai a atenção de insetos no lusco-fusco da noite. Essa esperteza é alimentada com promessas de atalhos e garantias de que eles merecem o assento privilegiado porque são especiais.

Os clientes teriam saído satisfeitos com a barganha se a história não tivesse vazado e virasse tema, com ampla repercussão, de reportagem da revista piauí.

Foi só então que os furões descobriram que na seringa, possivelmente, não havia imunizante algum. Havia, suspeita-se, soro fisiológico. Os investigadores desconfiam que as seringas sequer eram novas.

Não fosse a repercussão, é possível que o esquema tivesse chegado a outras dezenas, centenas de vítimas que, uma hora dessas, estariam estourando champanhe na sacada gourmet e contando aos amigos, entre risos, como conseguiram dar o pulo do gato enquanto a reba se rói esperando sua vez na fila dos mortais.

Chega a ser tentador dizer que o episódio, espremido, virou puro suco de Brasil. É com apostas do tipo, afinal, que gente graduada dá um jeito de esconder dejetos de mineração em locais impróprios contando que ninguém vai perceber. Até que a barragem estoura, matando quem estava no caminho e não tinha nada com a história.

Mas seria injusto com a imensa maioria de brasileiros que sabe seu lugar na fila e toca a vida sem a pretensão de ter nascido com o DNA do Indiana Jones. Essa maioria é bem melhor que isso.

Certo, porém, é que o golpe no golpe atualizou o refrão de Bezerra da Silva. Malandro é malandro, mané é mané. Rico iludido da própria malandragem é só um mané enganado.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL