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Matheus Pichonelli

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Jovens, não creiam em 'Friends': vida em república é tiro, porrada e bomba

Os personagens de "Friends" na sacada da "república" - Reprodução / Internet
Os personagens de 'Friends' na sacada da 'república' Imagem: Reprodução / Internet
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Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do TAB

05/06/2021 04h00

Pareço, mas não sou doido de entrar, de graça, em alguma das muitas refregas sobre "Friends", como fez Felipe Neto, em pleno 2021. Prefiro me enfiar em brigas menos pontiagudas, como política e religião.

Das seitas e perdigotos de haters e amantes dos personagens da série americana — que deixaram meio mundo em polvorosa ao se reunir 17 anos depois do último episódio — quero só distância segura.

Mas confesso. Mentalmente, sigo apreciando um dos raros programas de TV que me fazem relaxar e dormir depois de um dia colecionando derrotas. Não é pouco. Relaxo e durmo porque tudo aquilo parece agora um mergulho idílico e alienante das questões mal resolvidas de outras vidas.

De alguma forma, gosto de voltar no tempo em que a palavra "amigos", além de turnê de música sertaneja e nome de série, era o ponto de chegada e partida para nossas feridas à entrada do mundo adulto, esse que estica até onde dá a corda de uma adolescência que se desmente com os primeiros cabelos brancos.

Não, o mundo não era melhor naquela virada de anos 1990 para 2000. A série é contemporânea, mas praticamente fingiu que não viu outra série de desgraças, de genocídios de sua época à guerra ao terror, passando pelo 11 de Setembro, a invasão do Iraque e do Afeganistão.

Ainda assim, com personagens hermeticamente fechados naqueles apartamentos bem decorados, "Friends" era a distopia possível para quem também estava cansado dos conflitos familiares e das perguntas sobre os namoradinhos, as namoradinhas e os primeiros apertos financeiros que nos levavam a dividir a conta e as despesas de casa com conhecidos e desconhecidos.

Na série era possível vislumbrar as versões locais do Dia de Ação de Graças sem tia reaça. Era possível rir (ou se identificar) com a burrice do Joe, da nerdice insegura do Ross, do humor ácido e autodestrutivo do Chandler, das brisas da Phoebe, da tentativa frustrada da Mônica em superorganizar o caos e dos esforços comoventes da patricinha Rachel para vir, ver e vencer na cidade grande.

Aqueles apartamentos imensos numa área nobre e lotados de gente ferrada com grana era uma miragem, e isso bastava. No fim, a gente se identificava com as panaquices do menino que reencontra na vida adulta a garota que nos desprezava nos bailes da adolescência. Ou com a frustração de quem só queria extrair um pouco de maturidade das relações e fugir das cornetas da mãe que venerava o irmão na mesma proporção que a depreciava. Era possível rir também com a estratégia escapista de quem se autossabotava para fingir que o trauma familiar não estava ali, pegado como gosma, até no riso contido das fotografias.

Enfim.

Eu nem queria falar da série. Queria chutar apenas que parte do sucesso dela foi ter entendido que, por alguma razão, os jovens adultos daqueles anos 1990 estavam emparedados entre a urgência de deixar a casa dos pais e a necessidade de dividir as contas para poder viver sozinhos, mas em companhia. Não eram mais hippies ou yuppies com seus sonhos e metas geracionais. Não eram exatamente libertários nem cínicos confessos. Eram um eterno "entre" registrado pouco antes de o mundo parir os primeiros hipsters.

Uma pena que na língua portuguesa não exista tradução para roommates.

A certa altura, aquilo que deixamos de ser — mas que não somos — ainda é também um nome incerto, como uma condenação ao purgatório. Desses que atravessamos com uma pequena ajuda dos amigos, durante uma fase em que as pessoas mais indicadas para ouvir e dividir o peso de estar vivo são as que pegam e compartilham as mesmas referências de época. Nada disso encontramos na casa dos pais.

Esse retrato de uma adolescência expandida cria identificação a todo mundo que, como eu, durante um bom tempo ainda ao fim da faculdade precisou renovar o contrato do aluguel junto com amigos, e não cônjuges e filhos. Eram os primeiros anos de uma imersão incerta na profissão. Isso antes de cada um tomar seu rumo.

Da última vez que fiz as contas, haviam passado em algum momento pelo nosso velho apartamento, alugado a alguns metros da faculdade, um total de 20 pessoas. Com eles, vieram, por baixo, 300 agregados e 2.500 baratas.

Qualquer dia boto no papel as histórias de cada um desses perrengues para mudar a perspectiva saudosista simulada por aquela turma que se reunia no Central Perk para tratar de amenidades como abandono, medo do fracasso e pressão social para ser alguém na vida.

Nossa república de jovens adultos é um roteiro de "Friends" nível hard, e valeria uma série à parte. Quer ver? Teve um dia em que um dos moradores, de férias, abrigou um primo, o irmão e dois amigos para passar lá uma noite e descer para a praia na manhã seguinte. Como choveu, eles decidiram esperar o dia seguinte. Como continuou chovendo, eles desistiram da viagem e resolveram acampar por lá mesmo.

Poucas vezes eu quis tanto deitar em posição fetal e chorar como no dia em que, ao fim de uma árdua e dolorosa faxina, os viajantes do quarto-e-sala voltaram ensopados do supermercado com um kit para churrasco e decidiram fritar carne numa cozinha sem parede ou porta para a sala.

Eu juro: nem se todos eles tivessem aberto as latas de óleo e dançado lambada pela casa eles conseguiriam espalhar tanta gordura pelo ambiente. Durante anos, ainda era possível encontrar resquícios de óleo no controle remoto, na tela da TV, nos livros, no chão escorregadio, na maçaneta do banheiro. Uma desgraça.

Pior foi quando um dos moradores resolveu afogar no álcool as mágoas de um término traumático de relacionamento e passou a trazer amigos, igualmente bêbados e traumatizados, para casa toda sexta-feira.

No sábado, pela manhã, após uma dessas noites de desafogo, encontrei um cenário de guerra, com direito a vômito no tapete da sala. Tampei o nariz, fechei os olhos e viajei logo cedo para a casa dos meus pais, esperançoso de que na volta tudo estaria em seu lugar, graças a Deus. Pois na segunda de manhã, ao voltar para a capital, o vômito continuava no mesmo tapete da mesma sala.

"I will be there for you", eles diziam, mas para mim era o fim da linha. Hora de vazar. (Se autor do regurgito estiver me lendo, saiba que a amizade ainda é a mesma e ainda fico feliz em receber visitas. Só não dava mais para viver junto).

Hoje, como um adereço de porta da série, aquela vida de república é só um retrato na parede. Não chega a doer, mas segue empanado até hoje com óleo velho de cozinha.