PUBLICIDADE
Topo

Matheus Pichonelli

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Paulo Guedes atualiza Maria Antonieta: não tem pão, comam migalhas

Paulo Guedes fazendo um grande círculo com as mãos - Sérgio Lima/Poder 360
Paulo Guedes fazendo um grande círculo com as mãos Imagem: Sérgio Lima/Poder 360
Conteúdo exclusivo para assinantes
Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do UOL

19/06/2021 04h00

O balde, de latão, se equilibrava numa corda mais ou menos esticada da carroceria. Com a velha Saveiro, meu pai passava por casas de parentes e conhecidos da Vila Xavier, em Araraquara, recolhendo os alimentos que, não fosse nossa coleta, iriam para o lixo.

As sobras enchiam o latão. Com o tempo, a gente se acostumava com o cheiro e os contorcionismos dos bigatos tentando escapar à superfície. Rezava para que nenhum amigo estivesse nos carros emparelhados nos cruzamentos. Tinha vergonha dos meus chinelos e das minhas roupas de chácara, para onde íamos nas manhãs de sábado depositar aquelas sobras.

O chiqueiro ficava nos fundos, entre o campinho de futebol improvisado e o canavial do vizinho. Os porcos se refestelavam com a lavagem, o nome dado às sobras dos nossos pratos. Tiradas de algum baú da memória afetiva, as incursões entre a cidade e o campo com nosso balde de sobras me veio também à superfície quando ouvi a declaração de Paulo Guedes sobre nossos hábitos peculiares de alimentação.

Pela lógica pauloguediana, se há fome no Brasil, a culpa é dos nossos "pratos de pedreiro", verdadeiras montanhas de baixa proteína que mandamos para o bucho ou para o lixo sem pensar que poderiam ter outro destino. Os porcos? Não, os excluídos dos banquetes do Senhor.

Podia ser nossas mães falando que o olho é maior que a boca e que é pecado jogar comida fora, mas é só o superministro da Economia.

A sugestão levou um amigo a perguntar no Twitter por que nenhum site montou ainda um quiz com um desafio do tipo "Quem disse isso? Caco Antibes ou Paulo Guedes?". A lista de declarações do nosso ministro da Economia envolvendo as classes populares é extensa.

Quem não se lembra de quando ele declarou que a pobreza era o real motor do desmatamento? Pela lógica, os brasileiros têm o estranho hábito de alugar tratores, correntões e invadir áreas de preservação para empilhar toras em busca de palmito e outras iguarias toda vez que o estômago ronca.

O ministro já se queixou também da mania das classes baixas de torrar o dinheiro que nunca sobra em vez de acumularem e investirem o capital, como os vizinhos ricos. Esses vizinhos tinham razão, segundo o ministro, para comemorar a alta do dólar que freou a farra danada dos aeroportos invadidos até pela empregada a caminho da Disney.

Com muita convicção e nenhuma prova, Guedes já acusou o Fies, sistema de financiamento estudantil, de beneficiar até filho do seu porteiro que zerou no vestibular. Ele também já reclamou que, hoje em dia, todo mundo quer viver "100 anos, 120, 130" sem pensar na incompatibilidade entre longevidade e capacidade de investimento estatal. Mais um pouco e ele sugere uma bolsa-eutanásia para quem cansou de comer lavagem.

A essa altura, já nem espanta o grau de desconhecimento do ministro sobre a realidade do próprio país. Mas ele poderia pelo menos se esforçar para entender os impasses que levaram a fome a voltar às manchetes brasileiras. Spoiler: a culpa não é da pele de frango que você, de regime, deixa na beira do prato.

Se quisesse entender essa dinâmica, o ministro não precisaria gastar as solas do sapato tendo em mãos um Bilhete Único. Poderia telefonar para Rodrigo Afonso, diretor-executivo da ONG Ação da Cidadania, que em entrevista a Gabriela Caseff, da Folha de S. Paulo, praticamente desenhou a situação para os interessados: nossa insegurança alimentar é resultado da destruição de políticas de combate à fome e do aumento do preço de alimentos decorrente da ausência de planejamento e da desidratação de programa de estoques reguladores e incentivo ao pequeno produtor (de R$ 1,3 bilhão em 2014 para assombrosos R$ 151 milhões em 2020). É resultado, também, do investimento maciço na agricultura de exportação, que expandiu as plantações de milho e soja vendidas para fora e minguou as áreas de cultivo de feijão e arroz.

Escolhido como o "Posto Ipiranga" de Bolsonaro, Guedes se mostrou até aqui uma bomba de gasolina aditivada com ignorância e o preconceito. Se fechar os olhos, é possível imaginar até as caretas e beiços enojados do personagem de Miguel Falabella descrevendo o prato de comida dos brasileiros e hábitos rudimentares.

Ao apontar para o bom exemplo do europeu, o alter ego da antiga sitcom inverte e atualiza a sentença atribuída a Maria Antonieta na França pré revolução: não tem pão, comam farelos. Ou lavagem.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL