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Ansiosa, geração Z quer acabar com #TBT e ter direito ao esquecimento

Fololia
Os centennials tratam com muita naturalidade usar o celular o tempo todo, enquanto millenials fazem detox Imagem: Fololia

Matheus Pichonelli

Colaboração para o TAB, de São Paulo

2019-04-16T04:02:00

16/04/2019 04h02

Centennials é como são chamados os jovens da geração Z, nascidos a partir da segunda metade dos anos 1990.

Se você só agora conseguiu captar as tendências da chamada geração Y, nascida entre os anos 1980 e 1990, é melhor atualizar o software. Os millennials também envelhecem.

Para acessar a nova geração, as empresas tentam mapear o que quer, como vive e do que se alimenta esse novo sujeito que já nasceu conectado, não desliga o celular por nada e, perto da vida adulta, já imprime a sua identidade nas relações de trabalho e na busca por diversão e arte.

Novas relações com as redes sociais

Vamos começar pelo passado. Após anos de overdose eletrônica, o millennial quer agora fazer detox. "Ele cresceu com a internet e hoje se questiona o que a internet fez dele. Entrou de cabeça no Tinder achando que era a melhor coisa do mundo, mas transa menos do que a geração anterior. O filho dele não tem ideia do que seja uma família", resume o antropólogo especializado em consumo Michel Alcoforado, colunista do TAB e sócio-fundador da Consumoteca, consultoria que há cerca de dois anos deu início a um grande levantamento para entender os centennials na América Latina. Os resultados serão publicados nos próximos meses.

Hoje, os millenials, esses jovens adultos, querem apenas se desconectar - ou fugir para o mato.

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Imagem: Reprodução

Já o centennial lida com as redes sociais como se fossem uma extensão do próprio corpo. Para ele, o YouTube é o canal de construção de conhecimento e conteúdo. Já o Facebook se tornou a agendinha da nossa avó: é bom ter porque o contato de todo mundo está lá.

Se no Instagram os millennials tentam construir uma memória de si, os centennials estão prestes a acabar com o #TBT, tradição quase milenar (sem trocadilho) de postar fotos antigas na timeline às quintas-feiras.

Direito ao esquecimento

Os centennials sabem que vão mudar de opinião ao longo da vida e não querem ser cobrados por isso. "Querem ter o direito ao esquecimento. Escrevem e apagam o tempo todo", explica Alcoforado.

Eles não se preocupam com a qualidade da foto nem com o local onde ela foi tirada. Em outras palavras, não buscam ostentação.

Segundo o pesquisador, depois que o Twitter foi "domesticado", virou um verdadeiro boteco virtual. E se transformou em um dos pontos de encontro preferenciais da geração seguinte. Lá, as informações, resumidas em trending topics, chegam filtradas pelas lentes do deboche - a grande marca de uma geração que descobre quem é o ministro da Economia pelo meme.

Além isso, diz o antropólogo, esses jovens não estão preocupados com a construção de uma persona consistente. No Twitter, podem ter duas ou três contas com personalidades diferentes, para poder emitir opiniões diferentes sobre o mesmo assunto.

Uma velocidade nunca vista

A mudança é percebida desde o berço. Segundo João Nagano Jr., diretor de marketing da fabricante de brinquedos Grow, "esta geração é marcada por consumir uma diversidade incrível de informações, numa velocidade nunca vista".

"Saber que esta geração está na internet é insuficiente. Todo o conhecimento acumulado precisa ser revisto", resume.

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Os irmãos Lucas e Felipe Neto são youtubers que falam para a geração Z Imagem: Reprodução

Uma das saídas foi pensar em produtos com realidade ampliada ou que tivessem, literalmente, a cara dessa geração: os irmãos Luccas Neto e do Felipe Neto, fenômenos do YouTube. Juntos, eles somam 54 milhões de seguidores em seus canais.

Minha opinião, minha vida

Uma coisa é certa, adianta Alcoforado: a forma como eles consomem informação é completamente diferente das gerações anteriores.

O interesse por jornais, por exemplo, é baixíssimo. Quem pauta é as redes sociais.

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Imagem: Reprodução

Essa geração, afirma o especialista, tem uma "necessidade extrema" de ter opinião sobre tudo. "Eles olham a timeline, veem que estão falando sobre o Paulo Guedes (ministro da Economia) e buscam saber quem é. Aí sim vão expor sua opinião".

Em busca de referências

Um ponto que distancia um millennial de um centennial é que, para o primeiro, o passado é tudo o que já passou. Para os 'Zs', o novo é tudo o que (ainda) não se conhece. "O Cartola é novo se ele conheceu hoje", diz Alcoforado.

A construção do conhecimento é uma peça de quebra-cabeças em busca das referências. Na música, um dos artistas que dialoga melhor essa geração, segundo o antropólogo, é o rapper Kanye West, que mistura estilos musicais de grandes cantores do passado. Aplicativos como o "Who Sampled" ajudam mapear essas referências.

Divulgação
O desenho animado O Irmão de Jorel mistura referências a muitos itens da cultura de décadas passadas Imagem: Divulgação

Na TV, um exemplo de sucesso entre com esse público é o desenho "Irmão do Jorel". Na produção, o protagonista, que não tem nome, é fã de uma paródia de Teletubbies com referências a Shakespeare e Chespirito, tem como ídolo um tal Steven Magal e sua mãe é um cosplay das videoaulas da Jane Fonda.

As referências estão no passado, mas, jogadas no liquidificador, ajudam a explicar o fenômeno contemporâneo.

Uma geração mais pragmática

Prender a atenção desses jovens, porém, não é tarefa fácil. Acostumados a fazer muita coisa ao mesmo tempo, eles obrigam as editoras a lançarem livros cada vez menores e mais diretos.

Pela internet, existe uma infinidade de respostas às mais complexas perguntas com um clique. Há também tutoriais para baixar programas que aceleram a velocidade de filmes e séries. Não à toa, essa geração passou a ser chamada também de "geração fast forward". Alcoforado resume: esta é uma geração do atalho. O aplicativo vai sempre mostrar o caminho mais fácil.

Para os millenials foi vendida a ideia de que era preciso estudar para ser alguma coisa na vida e encontrar no trabalho uma forma de satisfação e felicidade. Isso criou, segundo o antropólogo, uma geração frustrada e em crise permanente.

Já a geração Z não trabalha para ser feliz e não aceita trabalhar de graça, em troca de conhecimento, em programas de treinamento ou estágio. Também não veem sentido em viajar para fazer intercâmbio, como fizeram os mais velhos em seu ano sabático.

Uma geração com menos preconceitos?

Com 15 anos, se o milennial ouvia rock, ele vestia roupas de roqueiro, tinha cabelos de roqueiro e só andava na tribo dos roqueiros.

A geração seguinte não tem isso, afirma Alcoforado. "Eles escutam rock como se fosse pagode e vice-versa. São grandes caleidoscópios". Isso significa que eles terão menos preconceitos? "Isso ainda não está claro, dado o momento conservador que surgiu com muita força", diz.

Segundo o antropólogo, os centennials têm simpatia por muitas causas, mas pouco engajamento. Isso será um desafio para ONGs ambientalistas, por exemplo, que precisam do engajamento de doadores para sobreviver.

Uma geração no divã

Para a psicanalista Teresa Pinheiro, coordenadora do Núcleo de Estudos em Psicanálise e Clínica da Contemporaneidade na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), parte desse desengajamento tem a ver com a passividade de quem recebe informações e notificações eletrônicas o tempo todo - e perdeu o interesse por obras e filmes de referência que não podem ser consumidos em alta velocidade.

Ela diz conhecer casos em que a apatia é quebrada apenas quando o time de coração entra em campo. Isso possibilita o que ela chama de "emoção do pertencimento", algo raro para quem já não se reconhece em grupos nem criou laços afetivos com pessoas e lugares para além de fotos trocadas no celular. Resultado, segundo ela, da confusão entre imagem e presença.

"Essa é uma geração infinitamente mais ansiosa que as outras. Isso é relatado por 55% desses jovens na pesquisa", diz Alcoforado.

Por que tanta ansiedade?

Alcoforado afirma: é uma geração que quer fazer, fazer, fazer. Que está cansada do presente e planeja um futuro glorioso. Mas, para isso, precisa fazer acontecer.

Segundo Teresa Pinheiro, é como se o jovem centennial estivesse o tempo todo antecipando coisas ou imaginando catástrofes. É uma geração que parece ter abolido a ideia de "parcialidade". "Há uma busca pela felicidade total, um ídolo total, tudo total. Mas isso não existe e faz com que a pessoa sofra loucamente."

Entre séries e mensagens de WhatsApp, ela alerta, os laços sociais estão sendo construídos "no imediato". "Já não se pode conviver com expectativa."

Para Alcoforado, não há motivo para pânico. Ele lembra que a ideia de juventude é uma invenção da sociedade americana do pós-Guerra. Desde os baby boomers, a grande pergunta é como os jovens (X, Y, Z e, em breve, os alpha) vão impactar o mundo. "O jovem é sempre parte de uma geração que vem para abalar."

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