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Matheus Pichonelli

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Caso Lázaro: nosso aparato militar e tecnológico come poeira no mato

Polícia Civil de Goiás realiza buscas por Lázaro Barbosa - Divulgação/Polícia Civil-GO
Polícia Civil de Goiás realiza buscas por Lázaro Barbosa Imagem: Divulgação/Polícia Civil-GO
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Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do TAB

26/06/2021 04h00

Helicópteros e drones com sensores infravermelhos, capazes de identificar movimentações na mata durante a noite, auxiliam um batalhão de policiais nas buscas por Lázaro Barbosa de Souza. Enquanto escrevo, o "psicopata imprevisível" do Planalto Central segue foragido após uma caçada que dura 17 dias.

A busca pelo homem que conhece a mata, o caminho das pedras e ataca pelas sombras mobiliza soldados, armas, munição, satélites, mapeamento do campo de calor, sensores com ultravisão — as composições que fazem do Estado moderno um super-homem capaz de levantar voo, cercar inimigos, localizar perigos microscópicos no escuro e disparar à distância.

Com tantos recursos, não surpreende que Lázaro esteja perto de completar 20 dias sem ser capturado. Surpreende que tenha passado um dia sem ser capturado.

Tenho usado mais do que deveria a expressão "ferida narcísica" para descrever as decepções de quem chegou à segunda metade do século 21 com as crenças abaladas sobre si e a sobre a própria espécie. Ser chamado de cringe a essa altura do campeonato é só uma delas. A lista é engrossada por um leque de profecias não realizadas —a quela história toda de que, em vez de carros voadores, estamos hoje explicando para o vizinho que não, não é verdade que a vacina chinesa traz um chip para ser implantado no cérebro e nos escravizar.

Mas não deixo de observar o desaparecimento de Lázaro Barbosa como uma nova baixa, talvez a maior, nas crenças nos superpoderes de quem ainda tenta digerir a informação de que a Terra (redonda) gira em torno do sol — e não o contrário —, e que nossos ancestrais são animais primatas, não dois belos jovens, rebeldes e entediados, perdidos no paraíso.

Até o caso Lázaro, a ilusão da onipotência humana acelerada pela tecnologia parecia consolidada. Parecia não haver ponto do planeta que não pudesse ser localizado ou colonizado com ajuda de equipamentos relativamente acessíveis. Tal cobertura eliminou do mapa os territórios inóspitos e ainda não explorados. Tudo e todos estariam, assim, ao alcance.

Não era verdade.

Como numa encruzilhada, a civilização chegou até aqui tão dependente do GPS e outros dispositivos de localização e vigilância que simplesmente não sabe o que fazer nem para onde ir se sair a poucos metros do radar da última torre de telefonia. Desativado, o instinto de sobrevivência de nada serve quando somos alertados de que entramos numa área sem cobertura de sinal.

No caso de Lázaro, a desorientação não tem sequer a desculpa de ocorrer nas franjas distantes dos grandes centros; ela acontece nas barbas da capital da República. A brutalidade esfola tudo, menos a ironia.

Quando li a primeira notícia sobre o sumiço de Lázaro, imaginei que as buscas se detinham em uma grande área de mata fechada serpenteada pelos cursos de rios amazônicos, turvos, violentos, impenetráveis.

Mas estamos no cerrado, território de vegetação baixa, cortado por estradas e áreas descampadas. O imaginado rio de proporções amazônicas para onde ele levava suas vítimas era, na verdade, um ribeirão. A estratégia de caminhar pelas pedras das margens era um trunfo para não deixar vestígios. E uma folha de bananeira era seu escudo anti-bala.

No primeiro filme da franquia que se tornou um marco das histórias inverossímeis, dessas que só acontecem no cinema ou na novela, John Rambo é um sobrevivente de guerra que viaja até uma pequena cidade do interior dos EUA para visitar um amigo com quem dividiu a trincheira. Pobre e mal vestido, o andarilho de fala rudimentar, uma das consequências da guerra, é visto como elemento suspeito pelo xerife local, que o aborda de forma violenta e é desacatado.

Agredido, Rambo responde reativando a máquina de guerra levada ao Vietnã. Ele reage à agressão, quebra a delegacia e foge para a mata inóspita como quem volta ao útero da mãe. Ali é o seu habitat.

Na ficção, a caçada frustrada ao foragido é uma alegoria que desmonta o mito fundador do herói americano de faroeste e também o da potência bélica recém-humilhada num confronto quase tribal no Vietnã.

Desgovernado e fora de controle, Rambo é não um agente operador da máquina, mas a própria máquina voltada contra seus criadores. Sua fuga bem-sucedida, com paus e pedras, é um alerta de que o pulso do estado de natureza ainda pulsa.

Lázaro, claro, não é o anti-herói mandado para a guerra que retorna com a guerra na bagagem. É um assassino e estuprador julgado e condenado com um rastro de crimes e destruição em cada fuga. Um deles é usar a tecnologia contra as próprias vítimas. (Em suas invasões, ele costuma roubar celulares, apontar as câmeras para os reféns e registrá-los como vieram ao mundo, sob a ameaça da vingança digital — ali, no cárcere, o menor dos problemas).

Mas seu curso intensivo de sobrevivência na selva para quem acompanha a caçada parece subverter o clichê segundo o qual, diante do avanço tecnológico, ninguém poderia dizer como seria a Terceira Guerra Mundial, mas que a quarta certamente seria com paus e pedras.

Pois com paus e pedras, o fugitivo do Planalto Central alvejou o coração da máquina a poucos metros do centro do poder, onde habita o mito da autoridade armada até os dentes e que espalharia ordem e segurança a todos os lares brasileiros por ordem divina, acima de todos. O mundo mapeado, colonizado, catalogado, hiper vigiado, controlado e decodificado pela tecnologia hoje esbarra num ponto cego entre uma margem e outra de ribeirão — um ribeirão, não o Solimões.

Este mundo em alerta contra vírus e sistemas de espionagem das grandes potências não consegue localizar o perigo escondido escondido numa folha de bananeira. Não sei vocês, mas me parece um caso notório de fracasso.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL