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Matheus Pichonelli

Fakes sobre 'vacina chinesa' são encontro do preconceito com a ignorância

Vacina do coronavírus, vacina contra covid-19, imunizante - iStock
Vacina do coronavírus, vacina contra covid-19, imunizante Imagem: iStock
Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do UOL

17/12/2020 04h01

Em seu dia da marmota natalino, o personagem de Leandro Hassum, que odeia a festa cristã, dorme cansado e acorda inconformado na mesma data do ano seguinte em "Tudo bem no Natal que vem", filme que virou hit da Netflix pelo mundo.

Todos os anos, como se fosse uma volta ao passado, e não um passeio pelo futuro, o tio mala de sua mulher repete a mesma reclamação a respeito do preço das castanhas e pergunta aos parentes se esse governo aí vai chegar até o final.

Como diria meu amigo e compadre Fernando Vives, o filme tem cotação de duas em cinco azeitonas, mas é tanta cena comum de qualquer reunião familiar que a gente não tem nem coragem de mudar para a Disney Plus.

De uns tempos pra cá, o sobrinho jornalista já não responde sobre se o governo chega inteiro até 2022. É emparedado a respeito dessa história que circula por aí, vinda de fontes confiáveis e detentoras de informações privilegiadas — geralmente o irmão do vizinho do primo que trabalha na indústria farmacêutica — sobre a verdade a respeito da vacina chinesa.

A corrente do chip já virou um clássico.

Segundo a lorota recebida e compartilhada pelos parentes, a instalação, em nossos corpos, de uma lâmina miniaturizada de silício era o real objetivo da potência oriental, antes mesmo de criar o vírus em laboratório. Por isso é preciso ficar esperto. Quase metade dos brasileiros concorda.

Na ausência de reuniões de fim de ano, a pergunta sobre se estou sabendo o que está rolando, e por que eu, como representante da tal grande imprensa, tenho escondido o que sei, chegam com mil interrogações pelo WhatsApp. Foi por lá que minha mãe me pediu pra, pelo amor de Deus, não oferecer a testa aos revólveres de medição de temperatura, à entrada do supermercado. Produzidos em laboratórios chineses, as armas eram altamente contagiosas e produziam tumores incuráveis em nosso cérebro. Foi o que avisaram no Zap e, na dúvida, era melhor dar o braço a torcer — na verdade, o antebraço, por onde, presume-se, as células cancerígenas não se reproduziriam.

No meu círculo, especialistas em governança e disrupção política "para mudar tudo isso que está aí, tá ok?", mudaram de ramo. Falam agora com propriedade cirúrgica sobre RNA mensageiro, um cavalinho de Troia criado em laboratório para alterar nossa formação genética, que da noite para o dia passaria a aceitar, sem resistência, a destruição de todos os valores ocidentais, entre eles a família (um contrassenso, pois é notório que antes mesmo da dinastia Han as famílias ocidentais já se destruíam por qualquer razão, inclusive pelo primeiro pedaço do peru de Natal e a dianteira nas piadas do pavê). Pela lógica, trocaríamos, assim, nossa vulnerabilidade sanitária pelo ingresso ao exército da ideologia de gênero e outras invenções chinesas.

Não sei vocês, mas eu preferia falar sobre castanhas.

Uma vacinação possível contra o surto de ignorância que fatalmente vai explodir agora no fim do ano, entre reuniões presenciais ou amigos secretos a distância, é se antecipar e enviar para os grupos infectados pelas teorias da conspiração pequenos resumos do "Roda Viva", exibido na segunda-feira (14) pela TV Cultura.

No programa, a pesquisadora Margareth Dalcomo, da Fiocruz, desenha para iniciados e iniciantes que os riscos relacionados à vacina residem na quantidade de tolices que a reação a ela já produz.

De forma elegante, a cientista pede para os ativistas do Zap voltarem às aulas de biologia (não com essas palavras) para entender que RNA sequer chega ao núcleo da célula e, portanto, não, não pode alterar nossa composição genética tão bem trabalhada por papai e mamãe.

Ela lembra também que o Brasil possui histórico de credibilidade e segurança em programas de vacinação (para mais de 20 patógenos, e não só o coronavírus da Covid-19). Chama as informações falsas de "desserviço" e pede paciência e resiliência para explicar isso a quem insiste em compartilhar lorotas — inclusive a de que o parente jornalista não quer que a família saiba do número de voluntários mortos nas fases de testes da vacina porque está comprado pelo governo sino-paulista. O que não é verdade, diga-se.

Entre a ciência e a ignorância, porém, existe uma espécie de Muralha da China. Chama-se preconceito. Xenofobia, para ser mais exato. Ou sinofobia, para ser preciso. A expressão poderia entrar na lista das palavras do ano e que significa, segundo o dicionário Houaiss, medo, antipatia e hostilidade contra os chineses, sua cultura e sua política.

Esse imaginário circula entre nós há séculos e nos faz torcer o nariz até para o pastel da lanchonete chinesa no centro da cidade (o da minha é ótimo). Coisa bem diferente, porém, é boicotar a própria imunização com medo de receber na veia as sobras do yakissoba que ninguém lavou direito. Esse preconceito não é só maldoso. É estúpido.

No mesmo "Roda Viva", Dalcomo chamou de preconceito ingênuo a demonização em relação à produção chinesa, que corre (ainda mais) solta desde que o governador paulista, João Doria (PSDB), antípoda de Jair Bolsonaro, intermediou um acordo entre o Instituto Butantan com o laboratório chinês responsável pela produção da Sinovac, a tal "vacina chinesa", como já chamam seus detratores vestidos e municiados de equipamentos eletrônicos produzidos, provavelmente, em alguma província daquele país.

"A China é o maior produtor de insumos em biotecnologia do mundo. Se formos levar na ponta da faca, tudo é chinês", lembrou a pesquisadora. Inclusive a fábrica onde é produzida a vacina europeia na qual o governo federal apostou a maior parte das fichas.

Quando o assunto é biotecnologia, o Brasil, lembrou a especialista, não produz coisa nenhuma. A matéria-prima é chinesa, inclusive dos medicamentos de combate a doenças endêmicas. De lá é possível que venha até a caixa que embalam os insumos da aclamada cloroquina que oferecemos às emas — estas, sim, típicas representantes dos campos nacionais.

Até o Natal, é possível que outras correntes de WhastApp sejam replicadas para desmentir a autoridade da Fiocruz. Alguns certamente dirão que ela era apenas uma replicante produzida em Wuhan e contratada para espalhar fake news em um programa da TV paulista, um soldado chinês infiltrado na federação brasileira para impedir celebrações natalinas com arminhas na mão.

Convém não reagir com a mesma agressividade. A persistirem os sintomas, os livros de biologia deverão ser consultados.