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Matheus Pichonelli

'Sujeito periférico não é só personagem de livros. É autor', diz ativista

Eleilson Leite, da Ação Educativa - Acervo Pessoal
Eleilson Leite, da Ação Educativa Imagem: Acervo Pessoal
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Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do UOL

12/12/2020 04h01

A novidade veio da quebrada. Mais especificamente das periferias da região metropolitana de São Paulo, onde um levantamento da ONG Ação Educativa identificou a existência de 18 editoras e selos estabelecidos ou vinculados aos bairros periféricos que, em menos de 15 anos, já lançaram 375 livros de cerca de 275 autores — um terço são escritores negros; um terço, mulheres.

Entre 2005 e 2019, essas editoras periféricas venderam 187.500 exemplares e movimentaram R$ 3,75 milhões, um número considerável em tempos de crise e queda no interesse pela leitura em todo o país.

De lá saíram títulos como "Pra quem já mordeu um cachorro por comida, até que eu fui longe" (Literarua), de Emicida, o finalista do Prêmio Jabuti de 2020 "Notas sobre a Fome" (Selo Sarau do Binho), de Helena Silvestre, "Se eu tivesse meu próprio dicionário" (Editora Selim Trovoar), de Ni Brisant (que vendeu 16.500 exemplares), e "Abscesso" (Selo Capsiano), de Maria Vilani, mãe do rapper Criolo.

Outros destaques são "Contos de Younu" (Elo da Corrente), de Raquel Almeida, que teve edição bilíngue e foi publicado nos EUA, "Antologia Afrofuturista" (Kitembo), que reuniu vários autores, e "Águas da Cabaça" (Mjiba), de Elizandra Souza.

Divulgados durante a Feira Virtual das Editoras das Periferias, realizada entre os dias 4 e 6 de dezembro, os números mostram o amadurecimento de uma cena literária desde o lançamento do livro "Capão Pecado", de Ferréz — considerado o marco de um movimento literário que ganhou força no ano seguinte, com o surgimento do Sarau da Cooperifa.

É o que afirma o historiador e mestre em Estudos Culturais pela USP Eleilson Leite, coordenador de cultura da Ação Educativa e idealizador da Feira Virtual do Livro da Periferia.

À coluna, Leite relembra a importância, no início dos anos 2000, dos saraus realizados na periferia para formação de leitores. A esses saraus foram também escritores que tiveram a chance de participar das coletâneas publicadas pelos próprios encontros e, mais recentemente, pelos slams, como são chamadas as "batalhas" de poesia narradas. "Nos últimos anos surgiram as editoras como uma terceira onda do movimento literário periférico", afirma.

O historiador diz ver paralelos entre a literatura e o cinema produzidos na periferia nas duas últimas décadas. "O sujeito periférico deixou de ser personagem e passou a ser o próprio escritor ou escritora. Esse movimento foi estimulado pela ascensão do rap nos anos 1990, especialmente pelo grupo Racionais MC's, cujas letras de clássicos como 'Sobrevivendo no Inferno', de 1997, viraram livro há dois anos e entraram para a lista de obras do vestibular da Unicamp", cita.

Para ele, Ferréz é o maior símbolo desse movimento, não só pela importância de seu livro mais famoso, mas também pela publicação de três suplementos da antiga revista "Caros Amigos", todos dedicados à literatura de periferia, que ele chama de Literatura Marginal. "A cena é muito forte e aqui em São Paulo é anterior ao cinema", diz o estudioso, que lembra ainda a importância da publicação, em 1997, de "Cidade de Deus", livro de Paulo Lins que acompanha a cena periférica no Rio.

Felizs - Feira Literária da Zona Sul - Divulgação/Felizs - Divulgação/Felizs
Felizs - Feira Literária da Zona Sul
Imagem: Divulgação/Felizs

Segundo a pesquisa divulgada na feira, metade desses selos está localizada na periferia da zona sul de São Paulo e apenas uma fica em outro município, Embu das Artes, na Grande São Paulo.

A maioria dos leitores dessas obras é formada por moradores das próprias periferias (51,8%), mas o custo para adquirir os livros ainda é um impeditivo para 29,6% dos entrevistados. Já a divulgação é citada como um desafio para 32,7%.

Embora sejam consideradas editoras de pequeno porte, sem grande estrutura de produção, distribuição e divulgação, a maioria (61,1%) possui CNPJ, o que, segundo os organizadores da Feira, aponta para a consolidação do negócio editorial. Muitos desses selos buscam o registro para, além da comercialização, organizar eventos e acessar editais públicos e privados.

Segundo Leite, antes de se consolidar, a chamada literatura periférica teve de lidar com uma série de preconceitos. "Pensava-se que não existissem leitores nas periferias, dado o fato inexorável de haver uma alta concentração de pessoas com baixo letramento na população de nível de renda mais baixo. Mas a periferia é grande e complexa. Não é nada homogênea e tem lá sua classe média também. Os autores das periferias, em geral, têm nível escolar mais elevado, com ensino médio completo e mesmo superior completo. A produção e o acesso à literatura na periferia estão também relacionados à condição social e econômica, mas rompe barreiras da exclusão, atingindo pessoas que se descobrem escritores mesmo com baixa escolaridade."

Um dado interessante, segundo o historiador, é que a maior parte da literatura produzida na periferia —em torno de 75%— é de poesia, que ele classifica como "uma escrita mais livre, menos vigiada pelos padrões canônicos da literatura". Na prosa, afirma, predominam as narrativas curtas, como contos e crônicas. "São poucos os romancistas de quebrada. Mas a qualidade é bem elevada."

Leite destaca ainda que, ao menos em São Paulo, desde 2003 existem editais públicos que apoiam a produção artística na periferia, como o VAI (Valorização de Iniciativas Culturais). A prefeitura paulistana investe R$ 40 mil em projetos de jovens periféricos, além de editais do governo do estado e concursos de instituições privadas. "A própria atuação de ONGs como Ação Educativa são agentes que ajudam a superar entraves e estruturas de exclusão que assolam as pessoas mais pobres. É o que faz esses autores se sobressaírem num campo artístico tão elitizado como é a literatura."

O fortalecimento das editoras periféricas ocorre no momento em que o hábito de leitura está em queda no país. Segundo uma pesquisa recente, pouco mais da metade da população (52%) mantém este hábito atualmente, contra 56% registrados em 2016. Isso apesar do surgimento de novas plataformas de leitura, como os livros virtuais, que ainda têm pouca presença entre as editoras da periferia, segundo o coordenador da ONG. Apenas duas das 18 editoras periféricas citadas no estudo têm experiência em publicar no formato digital.

Para o ativista, o livro impresso tem uma dimensão simbólica fundamental para os novos autores. "Ostentar o que se lê é uma forma de se afirmar. Antigamente, os jovens gostavam de exibir os LPs entre os amigos porque o seu gosto musical, expresso naqueles discos de vinil, diziam muito de sua personalidade e da sua visão de mundo. Creio que com os livros acontece o mesmo. E os livros das periferias são bonitos e são escritos por pessoas cujo perfil social se parece muito com o do próprio leitor."

Leite afirma também que a "forte presença de mulheres e negros entre os autores e autoras cria uma sintonia muito potente que dá uma vitalidade muito grande para a produção literária das periferias".

Eleilson Leite lembra que o crescimento deste mercado na periferia ocorre em um contexto de crise das grandes livrarias, quase todas localizadas nas áreas centrais. Para ele, porém, por mais que haja problemas de gestão nas grandes redes, o problema maior é a falência do modelo, que vitimou também megalojas e redes de hipermercados que hoje se expandem com pequenas lojas.

Na periferia, os livros são vendidos diretamente ao cliente nos circuitos de saraus e nos eventos literários. Metade das editoras articuladas no projeto Câmara Periférica do Livro vende seus livros em plataformas digitais próprias ou de terceiros. Em outras palavras, os livros das periferias são vendidos de mão em mão ou pela internet.

"No mercado de livros estão surgindo pequenas livrarias de bairro com curadoria especializada em segmentos de leitura. E estão surgindo editoras pequenas, de nicho, que respondem às demandas desses pequenos comércios de livros. As editoras das periferias seguem essa tendência. Mas nas periferias há pouquíssimas livrarias. Esse é um desafio para essa rede de editoras enfrentar nos próximos anos."