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Matheus Pichonelli

Pacarrete: filme sobre bailarina esquecida é gatilho sobre nossa decadência

Os atores João Miguel e Marcélia Cartaxo, em cena do filme "Pacarrete" - Divulgação
Os atores João Miguel e Marcélia Cartaxo, em cena do filme 'Pacarrete' Imagem: Divulgação
Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do UOL

05/12/2020 04h01

Cacá Diegues me contou, em uma entrevista publicada aqui no TAB e feita por telefone, em agosto, que leu e assistiu de tudo um pouco durante a quarentena. Entre descobertas, revisitas e algumas decepções, estava encantado mesmo com "Pacarrete", filme de estreia de Allan Deberton que acompanha os últimos dias de uma bailarina e ex-professora de dança em uma cidade do interior cearense, onde já não se reconhece nem é reconhecida.

"É um filme extraordinário, lindo, maravilhoso, e é o primeiro longa-metragem de um jovem do interior do Ceará, Allan Deberton. É onde o filme nacional acerta: quando a gente revela personagens e situações sobre as quais ninguém mais pode falar, senão nós mesmos", disse o diretor de "Bye Bye Brasil", que acabava de completar 40 anos de lançamento — retrato, em outro tempo, de um país em trânsito.

"Pacarrete" estreou em 26 de novembro em 15 cidades. Se, a uma hora dessas, não é assunto nos bares com hora pra fechar nem estampa nossos avatares, fotos de capa no Facebook ou pôsteres nas paredes dos quartos, é porque nos tornamos exatamente o que o filme retrata.

A palavra "pacarrete" é uma derivação da tradução de margarida, em francês. É como gosta de ser chamada a personagem de Marcélia Cartaxo, uma artista sem plateia ou camarote que vê a modernização remodelar a arquitetura de sua cidade natal. Uma modernização que, como um automóvel turbinado de calotas rebaixadas, acelera, embrutece e vulgariza o que estiver pela frente em alto som.

Com nome de flor, aquela personagem resiste ao vento da mudança em um casarão de outro século localizado no concreto e asfalto de uma rua comercial. Ela lava, varre, enche a entrada da casa de flores e bota música na janela como quem monta uma trincheira.

Pacarrete está em guerra e não tem chance de não ser destroçada enquanto sonha em se apresentar na festa de 200 anos do município. Para que todos saibam quem ela é e quem ela foi. Ela, porém, é ludibriada o tempo todo pelos organizadores do evento, a começar pelos gestores culturais da localidade. O que ela tem a mostrar não é o que o povo quer, eles dizem.

Para os olhos embotados de cimento e tráfego daquele novo hábitat, a artista de outros tempos que não se ajustou ao novo figurino é só a velhinha doida que limpa a calçada de casa como se fosse seu último palco. Que canta e fala sozinha sobre o que ninguém mais quer falar e saber. E que, sem plateia a não ser a irmã doente, está emparedada entre hostilidade dos bêbados da cidade e o suspiro de generosidade do dono da bodega, interpretado por João Miguel, que ora parece o último dos cavalheiros, ora parece incorporar o paternalismo cínico de quem faz um gracejo com uma mão e a empurra de volta para casa, e o esquecimento, com a outra.

"Pacarrete" é um filme sobre a resistência, embora seja fácil desistir quando o ensaio para um grande dia que não virá é interrompido pelas promoções anunciadas nos alto falantes.

Como sua personagem, o filme corre o risco de morrer esquecido na gritaria da rua comercial. Quem olha o drama com as lentes do passado vai se lembrar do tempo em que era elegante falar francês, dançar, falar baixo enquanto come ou frequentar balé.

Mas quem olha com as lentes do presente já percebe o cheiro de naftalina sobre os próprios hábitos. Ir ao cinema, por exemplo. Buscar o jornal impresso no quintal pela manhã. Ter um quintal. Ouvir o que ninguém mais ouve.

Nas visitas recorrentes dos tempos pré-pandemia, meu avô que não sabe acessar o YouTube me pedia sempre para entrar "naquele site que tem música velha" e procurar por Francisco Alves, Carlos Galhardo, Vicente Celestino e algum outro ídolo que já não ouve em disco, CD ou DVD — todos os equipamentos estão quebrados ou embolorados, como as fitas em VHS de Pacarrete no filme. O que era sólido se desmanchou e pegou fungos no ar.

Pelos cantos, filhos e netos seguram o riso enquanto meu avô se dilacera no primeiro acorde. Quem fala "ébrio" hoje em dia?

Não faz muito, num fim de festa de firma dominada por centennials, me empolguei com meu primo cantando Raimundos no karaokê e ouvi um elogio/apunhalada de uma estagiária que dizia adorar música antiga. Sim, nossos hits ficaram velhos antes de virarem clássicos. E os clássicos são hoje uma memória rala no acervo das plataformas de streaming com selo retrô e data para sair de catálogo. Estão também nas prateleiras que ninguém mais acessa. Não fosse a pandemia, eu ainda vestiria minha camiseta ridícula em gola V, as meias brancas, e iria a alguma livraria que não faliu buscar livros e filmes para parentes e amigos no Natal. Ia ouvir as mesmas piadas de sempre. Mas viver é resistir.

Em 2004, quando eu era ainda um estudante de jornalismo e sonhava em trabalhar em jornal, recordei e guardei numa pasta com outros recortes uma entrevista de Chico Buarque dizendo que a canção, como a conhecemos, talvez fosse um fenômeno do século passado sobre o qual caberiam apenas releituras e compilações. "A minha geração, que fez aquelas canções todas, com o tempo só aprimorou a qualidade da sua música. Mas o interesse hoje por isso parece pequeno. (...) E há quem sustente isso: como a ópera, a música lírica, foi um fenômeno do século 19, talvez a canção, tal como a conhecemos, seja um fenômeno do século 20. No Brasil, isso é nítido", disse o autor de "A Ópera do Malandro".

Hoje boto Chico para tocar e meu filho me olha com cara de espanto. Ele está mais perto da era de ouro do rádio do que seus ídolos gamers que tocam no repeat da smart tv.

Quando ele nasceu, no divisório 2013, achava que talvez um dia ele tivesse orgulho do pai autor e algum interesse pela videoteca montada antes de ele nascer. Hoje ele me pergunta quantos seguidores tenho e por que brigo no Twitter com seus youtubers favoritos. À entrada de casa, como a personagem de Cartaxo, vou varrendo a pista enquanto passam por lá youtubers, crossfiteiros, entusiastas da nova política, amantes de armas e mensageiros do apocalipse com barba, óculos, Bíblia embaixo do braço e ódio a tudo o que me formou um dia. Como já escreveu Roberto Schwartz, são eles que povoam agora o futuro, enquanto quem até ontem era chamado de esclarecido e oferecia respostas foi mandado para a gôndola do desuso.

Ao fim da sessão, procuro fraques e cartolas pelas ruas como quem ainda não percebe que o deslocado naquelas ruas sou eu. Não sei quantos anos faltam para me tornar, como a personagem de Cartaxo, o doidinho da rua que fala sozinho, sem plateia, sobre filmes, textos e músicas que ninguém se lembra nem quer lembrar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL