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O feminismo invadiu o universo dos super-heróis. Há razões para celebrar ou é pura jogada de marketing?

Não é só impressão sua: o feminismo invadiu quase todos os lados da cultura pop. Provas? Beyoncé pontuou "Homecoming", seu documentário de 2019 sobre os shows no Coachella, com frases de feministas negras; Brie Larson não só quebrou recordes com "Capitã Marvel", filme que é quase um curso básico de feminismo, como exigiu mais mulheres e minorias entre os jornalistas que cobriram a estreia; o livro "O Conto da Aia", de Margaret Atwood, virou série de sucesso 30 anos depois de ser lançado.O filme da Arlequina que acaba de estrear, aliás, saiu com o título "Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa". Sim, você leu certo: "emancipação".

A imprensa internacional tomou um lado: "Por que tantos filmes com inclinações feministas agora? Talvez porque já não era sem tempo". E a CCXP (Comic Con Experience) de São Paulo, um dos maiores festivais de cultura pop do mundo, fechou 2019 com uma presença maciça de mulheres, numa edição marcada pelo protagonismo feminino.

Até mesmo obras teóricas do feminismo vêm sendo publicadas ou reeditadas, tomando as prateleiras das livrarias em seções inteiras dedicadas a "feminismo", junto a livros de ficção e HQs. O caso de amor entre a indústria cultural e o feminismo vem sendo construído há alguns anos, mas há algo de incômodo neste casamento, que tem algo de arranjado.

A Mulher-Maravilha, talvez, possa nos ajudar a entender o que aconteceu.

Corda, bota e cintura fina

"Está implícito que a Mulher-Maravilha é uma mulher sexualmente liberada e seu criador falava que a mulher era superior ao homem, por exemplo", reconhece Carolina Matos, professora da Universidade de Londres e especialista em mídia, gênero e desenvolvimento. "Quando ela emergiu, havia um texto subversivo feminista, mas não foi isso que a cultura popular entendeu."

Parte das feministas já na época intuíram qual seria esse entendimento — uma "super-mulher" que tinha que dar conta de tudo e atendia aos anseios fetichistas dos homens, como era de fato o caso de seu criador, William Martson —, e a relação ambígua do movimento com a personagem foi o prenúncio das disputas entre feminismo e indústria cultural que se seguiriam. O entendimento era que mulheres-maravilhas acabavam por manter as coisas do jeito que são.

Pouco a pouco, entretanto, vários temas do feminismo foram incorporados à cultura de massa e se tornaram senso comum; ao mesmo tempo, parecia que o movimento em si não era mais necessário, isso quando não era visto como vilão — foi o chamado backlash dos anos 1980 e 1990.

A ambivalência dessa relação pode ser verificada ainda hoje, por exemplo, na admiração, com boa dose de ingenuidade, da diretora de "Mulher-Maravilha" (2017) pela personagem. "Levo muito a sério o legado feminista dela", disse Patty Jenkins ao TAB, durante sua passagem pelo Brasil em dezembro de 2019. "A coisa mais incrível que a Mulher-Maravilha pode fazer, e que ela fez por mim quando eu era criança, é representar uma super-heroína completa, não só das mulheres. Amo poder representá-la como uma personagem bem desenvolvida e universal, que influencia e inspira muitas meninas e meninos a verem as mulheres de um outro modo."

Dramas da Loira Odonto

Nos anos 1990, feminismo e indústria do entretenimento se reaproximaram. Sarah Banet-Weiser, professora da London School of Economics e especialista em gênero e mídia, atribui essa reaproximação à percepção de que meninas brancas de classe média dos EUA e da Europa estavam em "crise existencial".

"Aparecem o bullying e o cyberbullying, o sexting começa a causar pânico. Temos também uma subrepresentação muito grave de mulheres jovens e meninas no campo da ciência, tecnologia, engenharias e matemática, e então houve muitas iniciativas e estudos sobre a falta de mulheres em várias áreas — sem falar da carência de não-brancas nesses meios. É aí que vemos essa retomada de um tipo específico de feminismo", explica.

O Brasil não passou pelo mesmo processo de crítica e intervenção feminista na grande mídia nos anos 1970, pelo menos não com a mesma intensidade, muito em função dos anos de regime militar. Nessa época, entretanto, a jornalista Carmen da Silva escrevia a respeito de divórcio, aborto e emancipação feminina em sua coluna na revista Cláudia, e um punhado de publicações independentes repercutiam as lutas e discussões que tomavam corpo fora do país. A partir dos anos 1990, a publicidade feita para as mulheres tomou um rumo ligeiramente diferente — é a era das campanhas sobre autoestima, encabeçadas por marcas como Nike e Dove.

Banet-Weiser prossegue: "O feminismo popular respondeu a essa espécie de crise dizendo: 'precisamos do feminismo, mas aqui está o tipo de feminismo de que precisamos'. É algo relacionado à ideia neoliberal de se sentir bem consigo mesma, uma coisa aspiracional em que, se você falhar, não pode culpar ninguém, além de você mesma. Mas, se tiver confiança e se sentir bonita, então vai ter sucesso". É a mesma crítica que as feministas dos anos 1970 faziam à Mulher-Maravilha: autoconfiança movimenta a economia, mas não é capaz de consertar o mundo.

Uma geração mais politizada

A percepção de que o feminismo era necessário, mesmo na versão superficial, está inserida em uma série de transformações sociais, herdeiras das lutas identitárias dos anos 1960 e 1970. Pautas de gênero — assim como outras, ligadas ao racismo estrutural e às bandeiras LGBTQ+ — foram incluídas na agenda política e no debate público.

"A geração mais nova entrou na vida adulta já numa situação em que a discussão sobre gênero ficou um pouco mais normalizada. Houve mudanças. A palavra 'feminismo' se tornou menos 'suja' e mais aceita", aponta Matos. A propósito: "feminismo" foi eleita a palavra do ano pelo dicionário Merrian-Webster em 2017.

"Embora estejamos reverberando fenômenos globais, acho que os nossos 20 e poucos anos de reconstrução democrática também ajudaram a fortalecer esse quadro", diz Tânia Hoff, professora da ESPM e pesquisadora de mídia e consumo, analisando o caso brasileiro. "Teve um caldo cultural e social que trouxe à tona certas questões. Só é possível fazer uma reivindicação e sustentá-la se há lugar de fala em igualdade. As mulheres e outros grupos alcançaram ali um espaço de manifestação."

É o capitalismo, estúpido!

É óbvio que a indústria do entretenimento não se sentiu simplesmente impelida a seguir o fluxo. Pensando o consumo no Brasil, Hoff explica que, só depois de uma crise da indústria criativa e do marketing, em meados dos anos 1990, é que se começa a reconhecer a necessidade de segmentação na publicidade.

"Por muito tempo, o consumidor imaginado era de classe média, branco, dentro dos padrões patriarcais. Essas mudanças vão se intensificando na primeira década de 2000 e, de 2010 em diante, ganha muito volume." Grupos antes ignorados e estigmatizados na publicidade viraram consumidores, um deslocamento que Hoff considera "significativo".

Em Hollywood, e por motivos semelhantes — crises e necessidade de ampliar o público —, os estúdios de cinema e TV foram obrigados a olhar para além do garoto adolescente médio. Os números mostram que as ainda tímidas apostas na diversidade têm dado retorno.

Uma análise dos 350 filmes de maior bilheteria em todo o mundo, lançados entre 2014 e 2017, indica que filmes e séries com mulheres como protagonista geraram mais lucro que as encabeçadas por homens. Essa tendência se mantém quando olhamos o top 10 de 2019. Outros estudos mostram que filmes com protagonistas mais diversos atraem um público mais diverso — "Pantera Negra" atraiu mais pessoas negras, principalmente as que não costumam ir ao cinema, e "Mulher-Maravilha" teve 16% mais espectadores mulheres do que a média dos filmes de super-herói.

Corrida maluca para agradar

Serviços de streaming, de olho nos algoritmos, produzem e propagandeiam séries com a etiqueta da diversidade. "Jessica Jones", "Orange Is the New Black" e "Cara Gente Branca", da Netflix, são produtos esmiuçados pela crítica cultural e pelos produtores como representantes de uma nova onda na indústria. "Estimulamos a diversidade no escritório, nos sets de produção, nas equipes de criação", afirma a empresa, em comunicado enviado ao TAB.

A Amazon Prime Video, de onde saiu "Fleabag", "Dietland" e "Maravilhosa Sra. Maisel", segue a mesma cartilha. "Queremos atender a todos os públicos, não só aqueles que se sentem confortáveis com a diversidade", diz Latasha Gillespie, Diretora de Diversidade e Inclusão Global dos estúdios Amazon.

Banet-Weiser vê timidez nas iniciativas. "Hollywood responde de forma muito típica e muito segura, é aquilo que as pessoas chamam de 'adicionar mulheres e misturar'. A Mulher-Maravilha existe há muito tempo, mas o filme só foi lançado nesse momento de maior visibilidade do feminismo. A indústria esperou até o ponto de não ser mais arriscado", acredita. "[A versão feminina de] 'Os Caça-Fantasmas' é exatamente o mesmo filme, 'Star Wars' ainda é sobre jedis. Não se trata de alterar a narrativa, é só botar um corpo feminino ali."

Há outro fator aumentando a pressão dos "novos" consumidores: as mídias digitais. "É a possibilidade de ser consumidor, fã e fiscal: são três facetas", diz Hoff. "Nas redes sociais, ele se manifesta, ele cobra. São as disputas que vão propiciar as mudanças."

Exemplo recente dessa tomada de consciência — e da patrulha — aconteceu após a cerimônia do Oscar, em 9 de fevereiro. A "capa feminista" vestida pela atriz Natalie Portman, em que se viam nomes de mulheres da indústria cinematográfica ignoradas pela premiação, foi problematizada nas redes e por Rose McGowan, que a chamou de "fraude" e considerou a atitude mero oportunismo. "Pendure seu casaco de ativista. Você não diz nada, não faz nada para isso mudar", disse.

Que mulher é essa

"O perigo do feminismo popular é que ele foca nas mulheres individualmente, em vez de em políticas de infraestrutura ou estruturais", reflete Banet-Weiser. "É um feminismo corporativo, um discurso carreirista, individualista, ligado ao capitalismo, ao consumismo. A mídia pincela ali algumas características feministas e transforma em produto para ser vendido", concorda Carolina Matos.

Mulher-Maravilha é de novo um dos melhores exemplos. "Ela emergiu como símbolo feminista por uma identificação que podemos ter com a sua força, com a sua independência, como uma pessoa que de certa forma luta contra a violência masculina e o patriarcado. Mas não assume isso como um discurso feminista: ela se deixa sexualizar e entrar de novo na lógica do patriarcado, de colocar ênfase na beleza. O que a gente vê de feminismo ali é um heroísmo, uma independência. É o estereótipo da mulher ideal do Ocidente. Não é toda mulher que consegue se identificar com isso", prossegue Matos.

Fãs de cultura pop hoje assumem posturas bastante críticas em relação ao que consomem. "Normalmente, quando se fala de feminismo na cultura pop, as mulheres representadas são sempre brancas e cisgênero, o que também acaba distorcendo bastante o potencial crítico. Não tem nada de radical", afirma Anne Caroline Quiangala, criadora do blog Preta, Nerd & Burning Hell.

Me representa, mesmo?

Ainda assim, existe certo consenso em torno da importância desses símbolos. E nem mesmo Gal Gadot é imune a eles. A atriz admite que ficou comovida quando assistiu pela primeira vez a uma sequência de "Mulher-Maravilha 1984" (que estreia em junho de 2020). "Nunca tinha visto aquilo, e foi aí que me dei conta e comecei a chorar", disse a atriz ao TAB, sobre a misteriosa cena. "Voltei pra casa e contei ao meu marido: 'Sei que você vai adorar o filme, mas aquela parte, me pergunto se vai ser tão eficaz pra você quanto foi pra mim, porque você viu isso durante a sua vida toda, como homem, mas eu nunca vi'."

Margot Robbie, que interpreta Arlequina em "Aves de Rapina" (em cartaz nos cinemas), afirmou ao TAB: "Ainda não sei por que as pessoas se inspiram nela, mas sei por que eu a amo, consigo entender seus defeitos. Talvez isso seja algo que devêssemos honrar com mais frequência, ser imperfeita e encontrar sua força, apesar das circunstâncias".

"É cada vez mais difícil para Hollywood fazer filmes com papéis femininos muito estereotipados e hipersexualizados, sem oferecer outros tipos de papéis", aponta Banet-Weiser. "Se estão fazendo por dinheiro, tudo bem. Se há aberturas para pensar sobre o mundo e a vida e as práticas cotidianas de um modo diferente, e se Hollywood as explora, que seja, vamos fazer", diz a pesquisadora.

"Para algumas pessoas mais jovens, esse tipo de figura talvez crie uma 'inspiração feminista'", concorda Matos. "É complicado dizer: 'Ah, é um discurso totalmente reacionário'. Não é. É um discurso ambíguo", acredita a professora. "Na comunicação política, se fala muito que essa é uma forma de tentar engajar quem não está engajado."

"A simples circulação e visibilidade do feminismo encoraja as pessoas a fazer coisas que vão além da visibilidade, como protestos, greves e esse tipo de coisa", concorda Banet-Weiser. Ainda assim, ela faz um alerta: "Precisamos não superestimar o que significa a representação. Às vezes algo se torna moda e é como se a desigualdade tivesse sido resolvida. Às vezes a representação é uma derrota, então precisamos ser céticos."

O avanço é sólido?

É preciso manter o ceticismo, apesar dos avanços. Em 2019, tivemos um recorde de 40 das 100 maiores bilheterias norte-americanas protagonizadas por mulheres, e 45% das séries de TV com personagens femininas em papéis relevantes. Atrás das câmeras, entretanto, mulheres dirigiram ou co-dirigiram apenas 12 dos 100 filmes de maior bilheteria (contra 4 em 2018) e chegaram a 31% do total de criadoras, diretoras, roteiristas, produtoras executivas, produtoras, montadoras e diretoras de fotografia nas séries.

Os números que crescem timidamente indicam que a indústria entendeu o recado: não dá para ficar só nas mudanças cosméticas. O público que hoje é "consumidor, fã e fiscal" também está cada vez mais escolado em reconhecer oportunismo, e quer ver transformações substanciais. Como serão os jovens consumidores de cultura pop amanhã? Não se sabe.

"Se a empresa diz que seu produto é para mulheres, 'vou adotar uma causa feminista', então tem que fazer isso internamente também", pontua Tânia Hoff. "Como está o quadro de funcionários? Quantas mulheres atuam na diretoria e nos cargos de decisão? Na criação?"

Algumas empresas têm tomado medidas nesse sentido. A principal delas é ter um cargo executivo responsável por elaborar e supervisionar políticas de diversidade e inclusão, como é o caso de Latasha Gillespie nos estúdios Amazon (Netflix, Disney e Warner também têm posições semelhantes). E o que essa figura faz? "O que tentamos fazer é erradicar roteiros preguiçosos que possam ser nocivos e ofensivos para determinadas comunidades de clientes", explica Gillespie.

É difícil prever se essa postura por parte de quem comanda a indústria do entretenimento vai se manter de forma constante por tempo suficiente para provocar mudanças substanciais e duradouras, ou se em breve vão se voltar para outro modo novo de lucrar. De todo modo, aquela "emancipação" no título de "Aves de Rapina" não está lá de graça.

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