Trap toma o Brasil

Funkeiros e rappers se encontram no ritmo que saiu da internet e seus excessos

O trap chegou com tudo no Brasil. Plataformas de streaming, como Spotify, registram um aumento no consumo de música da ordem de 50%, de 2016 a 2019.

O subgênero criado nos anos 2000 em Atlanta, sul dos Estados Unidos, é um mexido de batidas, sintetizadores e graves robustos e timbres mais melódicos.

Atlanta é lugar de beco sem saída. A ambiência do trap vem da vida dos traficantes, que produzem e vendem drogas em casas chamadas "trap" — origem do nome, que, em inglês, também quer dizer armadilha. Além de falar de sexo, drogas, violência entre gangues e grana, o trap versa sobre racismo, desigualdade social e a volta por cima de pessoas periféricas por meio da fama.

COMPOR NOS APLICATIVOS

O estilo é automaticamente reconhecido pelos beats, que, além das batidas do rap, bebem da cadência dos sintetizadores da música eletrônica e da atmosfera suave, repetitiva e sexy do dubstep.

O ritmo é facilmente produzido em aplicativos de computador e celular. E essa pode ser uma das razões de ser tão viciante: o trap cria camadas múltiplas de sons impossíveis de serem reproduzidos por músicos ao vivo.

O ritmo começou a pegar os brasileiros de jeito em meados de 2013, via Youtube. O visual imponente herdado do afrofuturismo, as batidas pesadas e as letras descompromissadas de artistas como T.I., Gucci Mane e Young Jeezy chamaram atenção de uma galera sedenta por colocar a cara tatuada na luz neon e balançar o corpo todo, não só a cabeça como os rappers.

GUARULHOS OU VITÓRIA?

A origem do estilo, por aqui, é alvo de disputa. Em 2015, em Guarulhos, na região metropolitana de São Paulo, Raffa Moreira lançou "Fiat 1995", com a participação de Dreyhan e Klyn. Com um beat repetitivo e suave, os trappers falam sobre uma batida policial motivada por racismo.

Raffa ganhou fama por fazer música falando da purple drank, droga a base de codeína (substância presente em xaropes contra a tosse) muito associada à cena trap nos EUA. "Minha Sprite é roxa/Você só tem maconha/Eu te acho trouxa/No quesito drogas, eu tô avançado", diz trecho da música "Sprite Roxa", de 2017.

Por seu lado, Naio Rezende, um dos produtores da festa Red Room, em Vitória (ES), reclama o evento de 2014 como o verdadeiro marco inicial do trap no Brasil. Em 2016, a faixa "Sulicídio", do soteropolitano Baco Exu do Blues e do recifense Diomedes Chinaski, inaugura o "rap sujo proibidão" para ladrão bater cabeça.

"O Waka Flocka [um dos artistas responsáveis por disseminar o trap nos EUA], em 2010, tinha um grave tão agressivo que dava vontade de pular. Lembrava a energia do rock. Até então, não tinha isso no rap", relata Nauak, produtor de beats e colaborador da festa "Solta o Trap", que acontece na cena underground de São Paulo há seis anos. "Na época, a galera do rap achava muito agressivo porque tem bate-cabeça. Dizia que não ia virar porque era muito diferente ou porque era 'coisa de gringo', mas, com o tempo, foram evoluindo a festa e o público", diz.

O subgênero é responsável por alguns dos rappers mais populares da atualidade. Em 2018, Post Malone, XXXTENTACION e Cardi B figuraram na lista do Spotify dos artistas mais ouvidos no mundo. Produtores de trap, como Lex Luger e Mike will Made it, já foram solicitados por grandes nomes do pop como Beyoncé, Miley Cirus, Rihanna e Ariana Grande, e por rappers como Drake, Snoop Dogg e Kanye West.

O TRAP DOS RACIONAIS

Se em 2000, o rap nacional era compromisso e não viagem, em meados de 2010 alguns rappers começaram a deixar a cartilha de lado e se aproximaram de novas experimentações. Em 2014, os próprios Racionais MCs inovaram em "Cores e Valores", um álbum com influências da música eletrônica, faixas curtas, letras fragmentadas e mais favoráveis ao consumo.

Em 2018, KL Jay e Ice Blue admitiram que o trap é uma das suas maiores referências na atualidade. "A missão musical hoje é sensibilizar. Antes era conscientizar", disse Ice Blue. "Hoje o que eu tô ouvindo é Migos, Travis Scott e focado em terminar meu disco que tem músicas nesse estilo, que estou estudando para fazer, como o Brown fala, 'algo sempre surpreendente'."

De rosto tatuado como os ícones do trap norte-americano, Derek, do grupo mainstream de trap Recayd Mob, passa a visão: o trap veio suprir a carência do público brasileiro por uma nova estética. "Não tem artista novo no rock. Os caras estão parados", opina ele, que aparece usando grillz dourado em "Plaqtudum", clipe com quase 80 milhões de visualizações no YouTube. "O trap só tem nome de trap. Mas o lifestyle é de rock'n'roll total: diversão, drogas e mulheres."

CARA PRETA TATUADA

"As pessoas acham que a mensagem tá na palavra, mas muita coisa pode ser mensagem", diz Dfideliz, outro "preto com a cara tatuada" - como ele mesmo define -, da Recayd Mob. Para o grupo, a principal mensagem do trap é a autoestima.

"Pode ser que a gente não tenha passado na letra essa mensagem, mas ela chegou. No Instagram, você vai ver uma legião de homens pretos postando foto com muito mais colocação ali."

TRAP É RAP, FUNK É TRAP

Para o produtor Nauak, os artistas de trap se sentem mais livres e têm menos pressão do que os de boom bap (ritmo do rap clássico e mais melódico dos anos 1900 e 2000 no Brasil e na gringa). "Tem muita gente da antiga mudando do boom bap para o trap. Tem muita gente vindo já direto no trap", diz.

Sandrão, do RZO, é um dos nomes da cena mais tradicional que está experimentando o novo estilo. Em 2010, ele lançou tracks em parceria com Dfideliz e com o rapper brasiliense Froid, que também caminhou do rap para o trap recentemente.

SEXO, DROGAS E GRANA

Além da autoestima trazida na mensagem do rap boom bap e o lifestyle "sexo e drogas" do rock'n'roll, no Brasil, o trap ganhou ainda uma outra influência (que, aliás, já foi rejeitada por esses dois estilos): o funk. "Se o funk tá crescendo muito e o trap tá crescendo muito, então é avanço pra nóis porque o trap é o funk e o funk é o trap também", diz o trapper mineiro Sidoka.

O ritmo genuinamente periférico e brasileiro está presente nas gírias e no conteúdo sobre grana, criminalidade e sexo, que circula pelas vertentes ostentação, proibidão e putaria do funk. "A própria 'Plaqtudum' é um funk com beat trap", diz Jé Santiago, da Recayd Mob. Muitos funkeiros também estão embarcando na onda do trap, mais um sinal do elo entre os dois ritmos.

LINGUAGEM E EUFORIA

O mais novo hype da cena, o mineiro Sidoka, de 19 anos, é conhecido pela "levada venenosa" e bem-humorada: fala sobre rolês, pegação, drogas e criminalidade em letras misteriosas acompanhadas de um ritmo veloz e lisérgico.

"Eu sabia que não ia ter que mandar um papo filosófico. Eu nasci para debochar", diz. "A parada que eu boto muito na minhas músicas é a vinda do zero, é a vinda do nada para alguma coisa. E isso inspira as pessoas a falar 'talvez eu tenha salvação no bagulho', tá ligado?"

SOTAQUES E GÍRIAS

Sidoka começou ouvindo nomes da cena gringa como Wiz Khalifa, Offset, Travis Scott e, em novembro de 2019, deve tocar no mesmo palco que o ídolo Young Thug no Festival Cena, que acontece em São Paulo no dia 30 de novembro. O título do seu álbum mais recente, "Doka Language" (2019), é inspirado em "Slime Language", de Thug, e revela a preocupação do artista com a linguagem.

Ele não abre mão do seu jeito de falar, uma maneira de revelar e homenagear sua origem, a periferia de Belo Horizonte, de onde brota uma cena forte de rap, funk e trap. "São as coisas que os meninos falam no bairro e na cidade. Eu quis dizer que talvez essa falta de compreensão do que eu falo é por uma linguagem que quem tá ouvindo ainda não aprendeu. E a gíria é mais um segredo dessa língua", diz.

E AS MINAS?

Tratadas de forma quase sempre depreciativa nas letras do trap, as mulheres começam pouco a pouco a se apropriar do estilo. Ebony, Afrontmob, Onnika, Nabrisa e DJ Attlanta são alguns nomes femininos despontando na cena. "No dia em que estiver no mesmo nível, mulher e homem no trap, aí o bagulho vai ficar muito melhor", diz Jé Santiago, da Recayd. "Porque a gente só consegue dar o nosso ponto de vista e a gente não é mulher."

Dançarina e produtora audiovisual, a trapper Luanna Exxner aposta no ritmo pop trap, com músicas descoladas e referências a personagens como Hello Kitty e Barbie Maconheira. "Escolhi fazer trap porque nele você tem que ser você, falar sobre a sua verdade", diz ela, que também é ligada à comunidade LGBTQI+ e traz isso em sua estética.

TUTORIAL NO YOUTUBE

Paulistana, ela começou na cena trap no Espírito Santo como performer e diretora criativa da festa Red Room, em 2014. Hoje, a festa virou uma produtora audiovisual independente, que cria vídeos da própria Luanna e de outros trappeiros como Naio e Denov. Tendo Cardi B, Beyoncé e Madonna como referências musicais e visuais, Luanna acha que falta mais visibilidade e dinheiro para as mulheres virarem verdadeiras trapstars no Brasil.

Os beats do trap podem ser criados em programas de computador — e até apps no celular —, facilidade que permitiu que muitos jovens começassem a produzir um som autoral dentro do quarto, no estilo "faça você mesmo". "Vi no YouTube um tutorial de como gravar, baixei o programa e, com microfone, desses de cantar, comecei a gravar a voz", diz Sagal, do grupo underground de trap Covil Corporation, que hoje tem um estúdio em Itapevi, município da Grande São Paulo, onde artistas podem gravar suas músicas por 70 reais.

FAÇA VOCÊ MESMO

A produção caseira libertou os artistas da necessidade de ter uma grande gravadora por trás e permitiu o surgimento de mais nomes na cena, seja no underground ou no mainstream. Com tantos artistas, se destacar a qualquer custo nas redes sociais acaba sendo uma prática comum.

E a treta é o meio mais utilizado para atingir o objetivo. "O trap é um bagulho muito da internet. A gente mostra, as tretas aparece. Isso rende e aumenta número. Tem que ter treta no trap", sentencia Dfideliz, da Recayd. É comum encontrar artistas do trap usando stories do Instagram para reclamar do calote no pagamento de produções de clipes, se vangloriar pelo sucesso de colegas da cena e até mesmo mostrar armas ameaçando outros trappeiros.

Na gringa, brigas entre artistas de trap de gangues diferentes já rendeu mortes e prisões. No Brasil, a estrutura da criminalidade, baseada em facções, causou uma polêmica com o paulista Raffa Moreira, que postou stories com armas ameaçando o carioca Meno Tody, que se diz o "real trap", falando sobre a sua atuação no Comando Vermelho.

Mas, até agora, o trap e suas tretas seguem renovando a cena musical brasileira sem machucar ninguém. "Gangue não precisa ter crime envolvido, são pessoas unidas em torno de um ideal. Se for assim, nós é uma gangue, uma gangue de ideia", diz ML, trapper solo que circula por grupos como Livrai-nos e Recayd.

Curtiu? Compartilhe.

Topo