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Gusttavo Lima: as rasteiras e articulações do cantor para chegar ao poder

Com emoção nas músicas e frieza nos negócios, Gusttavo Lima é o cantor mais bem pago do país —faz R$ 1,2 milhão por show. Agora, leva sua fama da música à política. Ele quer trabalhar no Palácio do Planalto.

O projeto presidencial do astro começou quando ele telefonou para alguns caciques políticos em dezembro do ano passado, dias após se recuperar de um período hospitalizado por fortes dores.

Gusttavo disse nas conversas que o problema de saúde o fez refletir, que se sentiu "muito próximo a Deus" e que "havia chegado o momento de ser presidente da República".

Um desses interlocutores foi o presidente do PP, o senador Ciro Nogueira.

"Disse a ele que uma candidatura ao Senado é resultado exclusivamente da sua vontade. Já a presidente depende de muitos apoios. Hoje o Brasil está muito dividido e não é possível ser candidato sem apoio de Lula ou de Bolsonaro."

Aconselhado por Nogueira, Gusttavo buscou a bênção de Bolsonaro.

A conversa foi considerada amistosa por interlocutores, mas o ex-presidente deixou claro que vê apenas a si mesmo ou alguém com seu sobrenome como candidato da direita.

Desacostumado a ser contrariado, o cantor não ficou satisfeito. Afirmou a pessoas próximas que só vai se filiar ao partido que lhe garantir a legenda para a Presidência.

Além do PP de Nogueira, o União Brasil, do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, e o nanico PRTB tentam atrair o astro, que já aparece como um nome forte da direita para enfrentar Lula em 2026.

Caiado, que é amigo e mentor de Gusttavo, também quer ser candidato a presidente, mas passou uma tarde na fazenda do cantor tentando convencê-lo a virar seu colega de partido.

Ele disse ao pupilo que não brecaria seus planos.

Até o nanico PRTB tem outro pretendente: Pablo Marçal, que ficou perto do segundo turno nas eleições para a Prefeitura de São Paulo, mas que foi declarado inelegível por oito anos pelo TRE-SP (Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo).

"Falo com ele [Gusttavo] todo dia. Está animado para a política", diz Marçal ao UOL. O ex-coach afirma que eles podem fazer uma espécie de "primária" no partido em que estiverem.

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Imagem: Arte/UOL

Virada de chave

A ambição presidencial de Gusttavo não surpreendeu ex-funcionários, produtores e empresários de Goiânia, que o descrevem como hábil e ligado ao poder.

Essa turma viu o cantor chegar a Goiás em 2009, sem dinheiro nem prestígio, e dominar um mercado que o havia desprezado nos dez anos anteriores.

Com o sucesso, seus músicos viram o "moleque brincalhão" virar um chefe distante.

Enquanto os cachês cresciam, a banda convivia com demissões. Dois ex-assistentes ganharam processos judiciais após saírem da equipe.

Gusttavo declarava salários menores do que os reais para pagar menos impostos e direitos trabalhistas. A Justiça o condenou pelo esquema, chamado na ação de "caixa dois".

Empresários foram trocados após a ascensão do cantor. Atritos com outros artistas, como seu antigo ídolo Eduardo Costa, também ocorreram.

Além disso, a "revelação" presidencial coincidiu com um período em que o cantor ficou na mira da Justiça de Pernambuco, acusado de lavagem de dinheiro em uma empresa de bets.

Ele chegou a ter prisão preventiva decretada, mas o caso não avançou e foi arquivado em 10 de dezembro.

Mesmo quem saiu magoado do caminho de Gusttavo Lima vê nele dois grandes talentos.

O primeiro é do artista que, hoje, se conecta como ninguém com o Brasil real. O segundo é saber conquistar e descartar relações segundo seus interesses.

A reportagem procurou Gusttavo Lima para comentar os processos, brigas e as pretensões políticas, mas o cantor não quis dar entrevista.

Estranho no ninho do sertanejo

No início de 2009, o promotor de festas sertanejas Rafael Carvalho preparava um show em um bar no Shopping Bougainville, em Goiânia.

Gusttavo Lima e o empresário Rafael Carvalho
Gusttavo Lima e o empresário Rafael Carvalho Imagem: Reprodução/Redes sociais

"Chegou um cara com uma sacola na mão e um violão na outra, roupa humilde, dentes desgastados, dizendo que não tinha onde dormir e o que comer. Queria cantar", diz Rafael.

O empresário recusou, mas diz que Gusttavo ficou por lá e começou a tocar entre as mesas. Acabou deixando-o subir ao palco. E gostou. "Ele era muito magrinho, mas tinha um vozeirão desproporcional à imagem dele."

Rafael quis saber quem era o estranho de 19 anos. "Gusttavo" era Nivaldo Batista Lima, filho de um tratorista e de uma lavadeira de Presidente Olegário (MG), cidade de 18 mil habitantes.

Aos sete anos, começou a cantar em bares no Trio Remelexo, com dois irmãos mais velhos. Aos 13, foi tentar a carreira em Brasília.

Gusttavo foi guitarrista da dupla Jhonny & Rahony. Também virou segunda voz de uma dupla com Alessandro Bonni.

Tocando em pequenos bares, a dupla com Alessandro durou só um ano. Desiludido, Gusttavo voltou para Presidente Olegário em 2008.

Lá, encontrou um primo, Paulo César Dias, o PC Segredo, dono de uma loja de acessórios de celular. Ele o convenceu a tentar de novo, dessa vez em Goiânia.

Gusttavo Lima ao lado da referência Eduardo Costa (acima), recebendo prêmio (à esq.) e em estúdio (à dir.), em 2014
Gusttavo Lima ao lado da referência Eduardo Costa (acima), recebendo prêmio (à esq.) e em estúdio (à dir.), em 2014 Imagem: Ronny Santos/AGNews/Folhapress/Reprodução/Redes sociais

A balada e a virada

Mesmo após o fracasso em Brasília, Rafael apostou no novato.

Entrou como sócio de PC Segredo, que havia virado empresário do primo. Os dois o ajudaram a entrar na cena sertaneja goiana.

Gusttavo também tentava destaque como compositor. Virou parceiro de Raynner Sousa, que tinha mais conexões.

"Quando o conheci estava em situação bem delicada de grana. Chegou a dormir na minha garagem", lembra Raynner. "Era um moleque fácil de ser subestimado", completa.

A gravação do primeiro CD solo foi precária, com um produtor gospel nos fundos de uma igreja em Goiânia.

O primeiro sucesso escrito por Gusttavo foi "Revelação", vendido para uma dupla maior, João Neto & Frederico. Virou hit.

O êxito como autor fez Rafael levar Gusttavo para assinar com a Audiomix, então maior empresa do segmento.

Gusttavo Lima se apresenta no Villa Mix 2018, em São Paulo
Gusttavo Lima se apresenta no Villa Mix 2018, em São Paulo Imagem: Mariana Pekin/UOL

Encontrando o refrão

Gusttavo ganhou investidores, uma agenda cheia abrindo shows de Jorge e Mateus e a promessa de gravar um DVD pela Som Livre.

"Balada (Tchê Tchererê)" foi gravada em 2011 por insistência de Marcos Araújo, diretor da Audiomix. Virou hit até na Europa.

Gusttavo sentiu o poder de um refrão fácil e certeiro e continuou nessa toada.

"O Gusttavo busca sentimento em letras simples. A carreira dele foi montada nisso", diz o amigo e parceiro de composição Júnior Gomes.

No palco, ele já era a atração principal. Fora dele, músicos e produtores dizem que o artista se tornou imprevisível.

"Um dia estava ótimo, te tratava como irmão. No dia de pá virada não olhava nem na sua cara e pedia para pegar café para ele", lembra o guitarrista Front Jr.

Em 2012, Eduardo Costa, que Gusttavo dizia ter como ídolo, chamou o novo astro para conhecer a banda da sua próxima turnê. Dias depois, Gusttavo "roubou" o projeto e contratou os músicos.

Eduardo não quis conversar com o UOL a respeito.

Em entrevista ao podcast do jornalista André Piunti em março de 2023, ele disse ter ficado muito chateado com Gusttavo, mas afirmou que ainda são amigos.

Gusttavo Lima em fase mais recente, apostando no visual
Gusttavo Lima em fase mais recente, apostando no visual Imagem: Reprodução/Instagram

Altos cachês, baixos repasses

Músicos que tocavam com Gusttavo em 2017 dizem que ganhavam R$ 550 por show, enquanto o astro já recebia R$ 280 mil.

Dois ex-funcionários demitidos questionaram o "caixa dois" nos pagamentos e o processaram.

Os dois assistentes de palco trabalharam com o cantor entre 2015 e 2018 e ganhavam R$ 350 por show —em média, levavam R$ 5.900 por mês cada.

Em 2018, o cachê de Gusttavo Lima já era de R$ 300 mil por apresentação.

O astro pedia para os roadies assinarem contracheques com valores menores, o que diminuía a base de cálculo de INSS e gerava pagamento menor de férias, 13º e FGTS.

O cantor perdeu os dois processos. Em 2022, teve que pagar R$ 137 mil a Alderico Júnior. Em 2024, pagou R$ 102 mil a Fábio Carneiro. Eles não quiseram falar com o UOL.

Emerson Biazon, ex-representante da Ordem dos Músicos do Brasil em Goiás, disse ao UOL ter sido procurado por músicos da banda de Gusttavo Lima em 2018.

O cantor queria reduzir o pagamento de R$ 700 por show (na época ele fazia até 30 apresentações por mês, o que dava R$ 21 mil mensais), para R$ 8.000 mensais, fixos.

A OMB tentou ajudar os músicos, mas Gusttavo não recuou. Alguns saíram da banda e outros aceitaram a redução.

Gusttavo Lima posa com Ronaldo Caiado (acima) e agradece a apoiadores após divulgação de pesquisa eleitoral (dir.)
Gusttavo Lima posa com Ronaldo Caiado (acima) e agradece a apoiadores após divulgação de pesquisa eleitoral (dir.) Imagem: Divulgação/Reprodução/Instagram

Saída dos empresários

Gusttavo teve mais dificuldade para trocar os seus empresários.

Marcos Araújo, da Audiomix, conta que, entre 2011 e 2014, o cantor ameaçava não fazer shows para forçar a saída dos sócios.

Ele fez acordos com Jorge, Mateus, Wendell, Maluf e PC. Em 2014, anunciou o rompimento com Marcos Araújo e a saída da Audiomix.

Gusttavo virou seu próprio empresário. Fez parcerias com escritórios de Goiânia para a venda de shows, mas manteve a palavra final.

O distrato mais difícil foi com Rafael, que estava com o astro desde 2009. Ele diz que tinha 7% dos lucros de Gusttavo, mas nunca recebeu a multa nem sua parte do faturamento depois de 2014.

Ele cobra R$ 10 milhões do cantor. O caso está no STJ.

Gusttavo ganhou a ação nas duas primeiras instâncias. Rafael diz ao UOL ser difícil uma ação contra uma figura que, após a fama, construiu conexões políticas e jurídicas.

Além de desenvolver relacionamento com caciques do centrão e da direita, Gusttavo se aproximou da juíza Patrícia Carrijo, presidente da Associação dos Magistrados de Goiás, e de Kassio Nunes Marques, ministro do STF.

"Ele é poderoso demais", diz o produtor sobre o rapaz que reclamou de fome para conseguir um show com ele há 16 anos.

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