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Lidia Zuin

Para decidir o que é tolerável ou absurdo, ética jornalística é fundamental

Apoiadores de Donald Trump invadem o Capitólio - Saul Loeb/AFP
Apoiadores de Donald Trump invadem o Capitólio Imagem: Saul Loeb/AFP
Lidia Zuin

Jornalista e pesquisadora em futurologia. Mestre em semiótica, doutoranda em artes visuais, palestrante, professora e escritora de ficção científica.

Colunista do UOL

13/01/2021 04h00

Lembra quando 2020 começou com o Trump bombardeando o Irã e a gente fazendo meme sobre uma Terceira Guerra Mundial? Ninguém imaginava que 2020 ia ser o que acabou sendo e, agora que ele já se foi, tentamos acreditar que "pior que do tá, não fica".

Mas, calma, porque janeiro já começou com o Capitólio sendo invadido por manifestantes pró-Trump que não aceitaram a derrota do atual presidente dos Estados Unidos. De barbas longas, chapéu com chifre, moletons com mensagens subliminares de apoio ao nazismo e tatuagem de videogame, esses manifestantes não só causaram alvoroço como também fatalidades. Por isso, em um vídeo publicado nas redes sociais, Donald Trump pediu para que esses cavalheiros gentilmente se retirassem do prédio, enquanto afirmou que os amava mesmo assim.

E depois de anos de impunidade a tantas outras publicações mais ou menos controversas, o ex-presidente teve suas contas do Twitter e Facebook suspensas — o que também causou alvoroço entre seus apoiadores e supostos defensores da liberdade de expressão.

Por aqui, no Brasil, abrimos janeiro com a animadora torcida de que a CoronaVac, produzida pelo Instituto Butantan em parceria com o laboratório Sinovac, tivesse alcançado grande eficácia nos casos leves e 100% nos casos médios e graves de contaminação pela covid-19. Isso gerou um novo fôlego nas redes sociais, com usuários comemorando não apenas a descoberta científica, mas o fato de a pesquisa ter sido de autoria nacional. Mas como alegria de brasileiro dura pouco, tivemos dificuldades para receber dados confiáveis sobre a vacina, além do lançamento de uma medida provisória esdrúxula e uma aprovação de sigilo no mínimo irônica advinda do Planalto.

Como se não fosse suficiente ter influenciador digital fazendo festa durante o novo acirramento da pandemia, dias virando com mais de mil mortes sendo confirmadas, ainda temos a ingrata surpresa de ver pessoas como a cantora Elba Ramalho dizendo que o coronavírus foi criado por comunistas para destruir cristãos.

Talvez a constatação dela pareça algo isolado, sem importância, e que foi amplificado apenas pelo seu valor cômico, mas, infelizmente, Elba não está sozinha neste barco — e ela não é novata em surfar essa onda. Já em 2001, a Veja publicou uma matéria que revelava a crença da cantora em ter sido chipada por extraterrestres e, como o jornalista não conseguiu evitar o escárnio, Elba resolveu pedir indenização que, em todo caso, foi negada por juiz com uma decisão que se inicia com a citação "Toda a nossa ciência, comparada à realidade, é primitiva e infantil — e, no entanto, é a coisa mais preciosa que temos", atribuída a Albert Einstein. Ponto para o juiz.

Ciência para quê?

Sites como o Questão de Ciência e o canal Física e Afins são exemplos de trabalhos de divulgação científica sendo feitos com precisão e pulso firme. Destaco esta última qualidade porque, invariavelmente, há o questionamento de que tudo é relativo, de que não sabemos ainda se determinado conhecimento ou teoria é mesmo falso — ou então que estamos sendo preconceituosos, entre outros argumentos. Mas é aí que retomo a citação de Einstein feita pelo juiz.

A ciência pode não explicar todas as coisas, mas ainda assim é a maneira mais eficaz, replicável, comprovável e atestável para isso. O que não significa que ao longo de toda a história da humanidade, em especial no ocidente, pseudociências, religião e misticismo tenham deixado de existir.

Em um artigo escrito por Marisa Peryer para o Questão de Ciência, vemos que, em particular, durante pandemias, desinformação e politicagem sempre foram um efeito colateral. Isso já foi observado mesmo durante a epidemia de cólera, no começo do século 19 e, assim como se vê hoje, também os boatos criados àquela época fizeram com que a população desconfiasse das autoridades e dos profissionais da saúde. O que observamos agora, no entanto, é uma potencialização desses boatos através de um meio de comunicação muito mais abrangente e veloz, que é o caso da internet e das redes sociais.

Como podemos mitigar esses efeitos?

A suspensão das contas de Trump no Twitter e no Facebook ilustra outro desdobramento do que ambas as empresas estão fazendo para tentar reduzir o alastramento de notícias falsas e discurso de ódio. Mais do que intensificar a verificação de conteúdos denunciados ou implementar algoritmos que automatizam a remoção de conteúdos proibidos, agora somos interpelados por mensagens que questionam se realmente vamos recompartilhar determinado link sem antes ter conferido o material ou, então, com legendas que indicam que o conteúdo do tuíte é contestável. Sobre isso, o jornalista Carlos Orsi escreveu, em maio do ano passado, um ensaio explicando as possíveis medidas a serem tomadas na regulamentação das redes sociais.

Orsi ressalta que não dá para dizer que as empresas de redes sociais sejam tão isentas quanto as de serviços utilitários, como provedoras de energia elétrica ou gás. Caso um assassino use corrente elétrica para cometer um crime, não é a provedora de eletricidade que tem que responder, mas, no caso das redes sociais, elas não só oferecem um serviço/plataforma para a publicação de mensagens por parte de qualquer usuário, como também têm seu modelo de negócio baseado no conteúdo dessas mensagens. Quanto mais compartilhada, mais curtida e mais visitada, aquela publicação e seu formato se tornam mais vantajosos do ponto de vista financeiro e mercadológico.

É por isso que, durante algum tempo, víamos tanto conteúdo seguindo o formato "Confira as X coisas mais Y do mundo. Você não vai acreditar no número 3" entre outras manchetes "clickbait". Por conta de o algoritmo das redes sociais não ser assim tão explícito, muitas vezes as estratégias de negócio de comunicadores (influenciadores ou não) e de veículos de comunicação acabam pendendo para esse tipo de abordagem que, aliás, não é inédito.

Jornalismo e publicidade hoje são praticamente inseparáveis, ao ponto de gerar mesmo confusão. Quanto mais regado de sangue, quanto mais polêmico, quanto mais controverso, mais gente consumindo.

Polêmica e audiência

Programas de TV de cobertura policial, talk shows e mesmo conteúdos conduzidos por pessoas que não se profissionalizaram no jornalismo têm esse histórico de dar espaço em rede nacional para personagens no mínimo curiosos.

Os exemplos abrangem desde Gentili recebendo terraplanistas no programa "The Noite" até as várias polêmicas geradas no podcast Flow, ao ponto de que os apresentadores levaram um esporro ao vivo do músico Rogério Skylab — que, para alguns, pode parecer um cara muito doido, mas que se mostra cada vez mais são diante do ritmo da realidade. Não é sempre que isso acontece: é mais fácil virar meme e Trending Topic no Twitter do que tomar, de fato, uma medida imediata.

Esse foi o caso de um programa de TV chileno no qual um dos convidados afirmou que a ditadura militar não havia acontecido no país. Não era uma pessoa qualquer, mas um advogado e economista que publicou um livro tratando do incidente histórico como "revolução militar", e que atua como militante do partido de extrema-direita Fuerza Nacional. Diante de suas constatações, a apresentadora Tonka Tomicic teve a atitude corajosa de pedir para que o entrevistado se retirasse porque o programa não aceitaria esse tipo de promoção de falsidade.

Nem sempre é assim. Um caso óbvio é o programa de humor CQC — que frequentemente recorria ao atual presidente, enquanto deputado, para colher suas declarações polêmicas e, assim, ganhar mais visibilidade. Só que de de piada, ele passou para líder da república e, hoje, uma ex-repórter do programa diz, arrependida, que "jamais imaginaria que outras pessoas concordariam com ele".

Não quero entrar no mérito de que a repórter não tem formação em jornalismo, porque a questão não está no diploma, e sim na ética da profissão — elemento crucial que acaba, muitas vezes, sendo esmagado em alguns formatos de conteúdo. Isso nada tem a ver com o fato de se divulgar um conteúdo com o qual não se concorda. A questão ética do jornalismo diz respeito à própria responsabilidade de sua atuação, ao ponto que a expressão "quarto poder" diz justamente sobre a dimensão de influência que a mídia tem sobre a sociedade.

Quando levamos terraplanistas e antivacinas para bater um papo descontraído no sofá do estúdio, estamos cometendo uma falha enorme ao tornar esse assunto uma pauta expositiva, e não didática. A pergunta é se devemos deixar de convidar essas pessoas para falar em público. A resposta não é simples.

Conforme já abordado em um outro artigo aqui do TAB, toda teoria da conspiração faz mal justamente por deseducar as pessoas a serem racionais e terem um pensamento crítico. Em algum momento, perdemos o tom ao apresentar conteúdos sobre, por exemplo, pseudociências, sem tomar o devido cuidado e deixar claro que aquilo não é comprovado, não é funcional e, mais do que isso, pode até prejudicar as pessoas.

Carlos Orsi cita em seu artigo a frase do filósofo Stuart Mill, que diz que "até mesmo opiniões perdem sua imunidade, quando as circunstâncias em que são articuladas são tais que a expressão constitui instigação direta a um ato pernicioso". E, de novo, caímos na cilada do paradoxo da tolerância argumentado por Karl Popper:

"Tolerância ilimitada culminará no desaparecimento da tolerância. Se estendermos a tolerância ilimitada até para aqueles que são intolerantes [?], então os tolerantes serão destruídos, e junto com eles a tolerância. [...] Nessa formulação eu não sugiro que devemos sempre suprimir os discursos de filosofias intolerantes; desde que seja possível contrariá-los através da argumentação lógica e desde que a opinião pública os mantenha quietos, suprimi-los seria imprudente."

Sabemos já que não adianta reprimir certos sentimentos e assuntos. Eles podem, invariavelmente, "explodir" e acabar tornando as coisas ainda piores. Freud tratou muito disso ao longo da formação da psicanálise, enquanto Byung Chul Han disse que o excesso de positividade e "libertinagem" da nossa sociedade atual, na verdade, acabou gerando esse paradoxo da tolerância.

Se chegamos a um momento histórico no qual pós-verdade se tornou a palavra do ano de 2016, em que temos uma invasão do Capitólio organizada por um grupo conspiratório que, inclusive, está atuando no Brasil, na organização de projetos como o gabinete do ódio, entre tantos outras ferramentas semelhantes, então passamos do limite da tolerância e, com ele, destruímos a tolerância em si.

Em outras palavras, já passou da hora de retomarmos nossa responsabilidade enquanto comunicadores para assumir que não "depende do ponto de vista", e que não se trata de liberdade de expressão. Já vimos que essas teorias não são inocentes. Num dia, se diz que foi chipada por ETs e, em outro, você está falando que um vírus foi criado por comunistas para destruir os cristãos. Talvez quando tivermos uma maior alfabetização midiática isso mude, mas, neste momento, não podemos mais nos dar ao luxo de acreditar no bom senso.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL