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Lidia Zuin

Como Byung-chul Han previu a positividade tóxica dos coaches e do bem estar

Reprodução/Instagram - Gwyneth Paltrow com sua mãe, a atriz Blythe Danner, e a filha
Reprodução/Instagram Imagem: Gwyneth Paltrow com sua mãe, a atriz Blythe Danner, e a filha
Lidia Zuin

Jornalista e pesquisadora em futurologia. Mestre em semiótica, doutoranda em artes visuais, palestrante, professora e escritora de ficção científica.

Colunista do UOL

28/10/2020 04h01

Não é de hoje que as redes sociais vêm multiplicando postagens e perfis com mensagens de positividade, autoajuda, ou de como conquistar qualquer sonho — seja um emprego, um corpo magro, um relacionamento amoroso. O fenômeno dos coaches é recente no Brasil; chegou ao país entre as décadas de 1990 e 2000, mas só recentemente ganhou fôlego.

Embora já se fale em banalização da prática, não deixamos de ver novos nomes e novos cursos milagrosos à venda, em especial durante a quarentena. Páginas de humor como Dicas Anti-Coach, por exemplo, transformam a moda em piada e até denunciam possíveis fraudes.

O Brasil também vem acompanhando outro movimento que já era bem grande nos Estados Unidos — o wellness. Da empresa Goop, da atriz Gwyneth Paltrow, às garrafas de água com cristal custando R$ 300, assistimos a uma crescente onda de resgate da espiritualidade e da ancestralidade que, no entanto, vem acompanhada de consumo — das vivências em tribos nativas de mais de R$ 6 mil até a venda de cristais advindos de trabalho escravo.

"A Sociedade do Cansaço", do filósofo coreano-alemão Byung-Chul Han, traz uma reflexão interessante sobre isso. É verdade que nem o livro e nem seu conceito são novos, mas nem por isso deixamos de cair nas armadilhas já denunciadas por Han há uma década — pior ainda agora, durante a pandemia.

O autor defende que vivemos uma era de positividade exacerbada, algo que parece estranho, ainda mais considerando o cenário político, econômico e agora também de saúde. Han argumenta que interpretar os problemas a partir de um olhar positivo ou de oportunidade é ainda mais tóxico do que a antiga sociedade de comando e controle na qual vivíamos e que foi descrita por Michel Foucault.

O que o filósofo sugere, portanto, é que vivemos em uma época na qual a psicanálise já não faz mais sentido porque, segundo ele, não vivemos mais em um momento de proibições e repressões. Sim, a afirmação é controversa, se considerarmos que existem "graus de liberdade", variáveis de acordo com classe social, raça, gênero e religião, por exemplo. Mas, de maneira geral, temos um pouco mais de liberdade, ao abordar temas outrora considerados tabus ou mesmo de viver de maneira que, em outra época, poderia nos classificar de sujeitos degenerados. O que Han argumenta, portanto, é que se a psicanálise de Freud tratou dos impulsos reprimidos e teve como emblema a histeria, hoje vivemos uma explosão de liberdade e nossas doenças emblemáticas são a depressão, a ansiedade e a síndrome de burnout.

Para as mulheres, que precisam ser boas mães, esposas/amantes e profissionais, isso não é novidade. Aliás, no começo da pandemia, a consultoria 65|10 publicou um estudo falando justamente dessa desproporção entre responsabilidades domésticas e familiares, o que muitos chamam de "trabalho invisível" ou ainda de "carga mental", uma vez que a mulher não fica apenas responsável por executar tarefas, mas também de planejá-las e delegá-las. Claro, o mercado também oferece a prestação de serviços de babás e faxineiras para que haja um tempinho extra para a mulher, afinal, mais do que deixar a casa limpíssima, é preciso ter as unhas feitas, o cabelo hidratado, o corpo sarado e a libido em alta. Não sabe como? Compre o curso.

Gwyneth Paltrow durante exibição especial da série The Goop Lab - Rachel Murray/Getty Images/AFP - Rachel Murray/Getty Images/AFP
Gwyneth Paltrow durante exibição especial da série 'The Goop Lab'
Imagem: Rachel Murray/Getty Images/AFP

"A sociedade da disciplina é uma sociedade da negatividade. Ela é definida pela negatividade da proibição. O verbo modal que a governa é o "não pode". (...) A sociedade do desempenho, cada vez mais, está no processo de descartar a negatividade. A crescente desregulamentação está abolindo isso. O ilimitado "poder" é o verbo positivo modal da sociedade da conquista. (...) Proibições, comandos e leis são substituídos por projetos, iniciativas e motivação. A sociedade da disciplina ainda é governada pelo 'não'. Sua negatividade produz loucos e criminosos. Em contraste, a sociedade do desempenho cria depressivos e perdedores."

Byung-Chul Han não trata especificamente de coaching ou de mulheres, mas a partir da percepção de que todos fazem parte de uma lógica de desempenho. Se éramos proibidos a algo, hoje somos incentivados: é sempre possível conquistar uma versão melhor de si mesmo, o que significa, portanto, que nunca ninguém será bom o suficiente, afinal, não podemos parar nunca. Han menciona, por exemplo, que na época em que a indústria funcionava no modelo fordista, as pessoas (geralmente, os homens) entravam em uma determinada empresa e ali permaneciam por décadas, para o resto da vida. Essa estagnação, mais tarde, tornou-se algo insalubre para as pessoas e, por isso, a jornada de trabalho e as próprias leis trabalhistas foram flexibilizadas, até chegarmos à famigerada gig economy e todas as suas consequências econômicas, sociais e psicológicas. Se, por um lado, resolvemos o problema da "estagnação" do modelo fordista, agora nos afogamos em um "excesso de liberdade" em que o profissional tem a impressão de poder "fazer suas horas", só que não.

Nas palavras de Han, o desaparecimento da figura ou da regra de proibição (por exemplo, jornadas de trabalho bem estabelecidas) não faz com que encontremos a liberdade, mas sim a coação. "O sujeito-desempenho, portanto, doa a si mesmo a essa liberdade compulsiva — isto é, a livre coação de maximizar seu desempenho. O excesso de trabalho e performance aumenta e se transforma em autoexploração. Isso é mais eficiente do que a exploração alheia, uma vez que há uma sensação de liberdade ali. O explorador é também o explorado. O perpetrador e a vítima não podem mais ser distinguidos e tal autorreferencialidade produz uma liberdade paradoxal que subitamente se transforma em violência por conta das estruturas compulsivas que a definem."

Han fala que mais do que ter um sistema de comando e controle como diagnosticado por Foucault, no qual havia uma gerência que impunha uma determinada quantidade de horas a serem trabalhadas ou metas a serem atendidas (muitas vezes ilógicas, como o autor argumenta, inclusive citando as obras de Kafka). Hoje não há nada disso. Escritórios com mesa de pingue-pongue, torneira de chope e o amor pelas segundas-feiras. Hoje, não precisamos de um chefe para sermos produtivos, porque nós mesmos já nos cobramos e nos sentimos na obrigação de sempre nos superar. Dormir tornou-se sinônimo de perda de tempo, o descanso gera culpa como momento ocioso e não rentável, a indisposição psíquica tornou-se um incômodo tal qual um pernilongo nas noites quentes.

Mas nada disso é problema. O biohacking, que outrora explorava tecnologias biológicas e cibernéticas como formas de amplificação das capacidades humanas, transformou-se em uma espécie de nova dieta da moda na qual o jejum intermitente, café com manteiga e comer como um homem do Paleolítico são maneiras de não apenas emagrecer, mas de performar melhor e por mais tempo (longevidade). Ritalina e energéticos fazem parte do cardápio dos universitários e profissionais norte-americanos, como demonstrou o documentário "Take your Pills", da Netflix. Não estamos mais usando remédios e terapias somente para curar uma doença ou modular algum distúrbio, mas sim para desempenhar melhor nossas funções e sermos "super-humanos" — não por nós mesmos, mas como engrenagens de um sistema econômico baseado na exploração que agora, por sua vez, já explora a si mesmo. É o que Han chama de "o último homem" ou animal laborans: um humano depressivo que explora a si mesmo, sem impedimentos externos e que, por consequência, vem a se transformar em um Homo sacer (Agamben), um indivíduo descartável e invisível na sociedade — a imagem do operário nas distopias do século passado, por exemplo.

Grupo de yoga - Erik Brolin/Unsplash - Erik Brolin/Unsplash
Imagem: Erik Brolin/Unsplash

"Ele é predador e presa ao mesmo tempo. O self, no principal sentido da palavra, ainda representa uma categoria imunológica. No entanto, a depressão ilude todos os esquemas imunológicos. Ela transborda no momento em que o sujeito-desempenho não é mais capaz de ser capaz. Primeiro e, acima de tudo, a depressão é uma criatividade fadigada e uma habilidade exausta. A reclamação de um depressivo de que 'nada é possível' só pode ocorrer em uma sociedade na qual 'nada é impossível'. Não ser mais capaz de ser capaz gera um estado autodestrutivo e de autoagressão."

A frase de Slavoj Zizek e Frederik Jameson de que "é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo", portanto, ganha uma nova camada a partir das considerações de Han: estamos exaustos demais para sequer imaginar que há algo além do capitalismo. O discurso da indústria do wellness não quer tornar sua audiência mais produtivas, mas se baseia em uma positividade tóxica abordada por Han como um outro sintoma da nossa época e que contribui com a nossa autoexploração, autocobrança e autodestruição.

Páginas de humor como "Eu não aguento mais o jovem místico" podem fazer piadas com relação às pseudociências que muitas vezes estão inseridas nesse contexto, mas a grande questão levantada em "A Sociedade do Cansaço" é que essa busca pela espiritualidade e um retorno à ancestralidade são típicas de um momento histórico em que Deus está morto e já não há fé — aqui fazemos uma distinção entre fé e religião. Mas se até mesmo diferentes tipos de meditação e yoga ou ainda uso de substâncias psicoativas outrora reservadas a rituais xamânicos se tornaram produtos e etapas de processos criativos, do mesmo modo que o conceito de sagrado feminino se tornou um disfarce de esquema de pirâmide, com o que estamos lidando?

Algo que sempre me deixou curiosa na comunidade wellness brasileira é que os envolvidos estão sempre atrás de novos processos e métodos de cura, o que significa que você nunca estará realmente curado, do mesmo modo que o sujeito-desempenho de Han nunca é suficientemente produtivo. Nas palavras do autor, "a sociedade do desempenho é a sociedade da autoexploração. O sujeito-desempenho explora a si mesmo até se esgotar (burnout). No processo, ele desenvolve uma autoagressão que frequentemente é capaz de escalar para a violência da autoagressão. O projeto acaba se tornando em um projétil que o próprio sujeito-desempenho aponta para si mesmo."

Muro pichado com 'A obrigação de produzir aliena a paixão de criar' - Reprodução - Reprodução
Muro pichado com 'A obrigação de produzir aliena a paixão de criar'
Imagem: Reprodução

Enquanto isso, a sugestão de se criminalizar a atuação de coaches no Brasil segue avaliada no Senado, processos de constelação familiar continuam sendo praticados no judiciário brasileiro e no SUS, que também banca demais Práticas Integrativas e Complementares (PICs). Nos links anteriores há discussões mais profundas sobre a eficácia e os gastos direcionados a essas práticas no Brasil, mas aqui finalizo meu texto com a reflexão (ou provocação) que Han traz ao dizer que, em nosso excesso de positividade, também não conseguimos mais dizer "não". Quantos dos leitores sofrem com a dificuldade de dizer não, de estabelecer limites? De não conseguir ignorar a mensagem de trabalho fora do "horário comercial", de não conseguir recusar uma proposta não remunerada em troca de divulgação, de cobrar o preço que seu trabalho vale?

De certa forma, tudo isso não apenas contribui com aquilo que chamamos de "síndrome do impostor", senão confirma a análise de Byung-chul Han de que somos sujeitos-desempenho que se sentem sempre na capacidade de fazer mais, de estar em todos os lugares, de participar de tudo, de aproveitar o tempo ao máximo, afinal, "tempo é dinheiro". Mas essa é a cilada: para o autor, nada de novo se produz com pressa e com "métodos ágeis" (sprint daqui, SCRUM dali); precisamos de momentos ociosos. Em suas palavras, o repouso do corpo é o sono e o repouso da mente é o tédio, mas sentimos uma culpa quase cristã em nos permitir esses momentos, ao ponto que já esquecemos o que é, de fato, descansar sem a ajuda de remédios.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL