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Lidia Zuin

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Série 'Devs' e o efeito anti-Matrix: viver na ilusão é mais confortável

Cena da série "Devs"  - DIvugação
Cena da série "Devs" Imagem: DIvugação
Lidia Zuin

Jornalista e pesquisadora em futurologia. Mestre em semiótica, doutoranda em artes visuais, palestrante, professora e escritora de ficção científica.

Colunista do TAB

18/06/2021 04h00

Nota: Esse texto contém spoilers da série.

Lançada logo no início da pandemia, em março de 2020, a série "Devs" pode ter passado despercebida para quem não é superfã de ficção científica e acaba, no máximo, indo até "Black Mirror" ou "The Handmaid's Tale". Também exibido no Hulu, o seriado tem direção de Alex Garland, diretor dos filmes "Ex Machina" e "Annihilation".

"Devs" foi sua primeira incursão no formato televisivo — e muitos dos elementos presentes nos outros filmes dirigidos por ele reaparecem aqui: não só o fato de Sonoya Mizuno retornar, agora como protagonista, mas também o foco (e a crítica) à atual cultura das big tech. Mais especificamente, à mentalidade do Vale do Silício.

Depois de ter escolhido um Oscar Isaac barbudo para ser o "tech genius" de "Ex Machina", dessa vez foi Nick Offerman ("Parks and Recreation") que, como Forest, incorporou um misto de Steve Jobs com Mark Zuckerberg que é dono de uma empresa nível Google, aqui nomeada Amaya a partir do nome de sua filha.

Ambos os filmes lidam com distorções da realidade, sendo "Annihilation" uma adaptação do livro de mesmo nome escrito por Jeff Vandermeer e, "Devs", uma obra autoral de Garland. Para a audiência menos fã de "teorias da conspiração", Amaya foi simplesmente o nome que Garland resolveu dar à personagem interpretada pela sobrinha de Mizuno, que se chama Amaya Mizuno-André. De qualquer forma, a personagem, mesmo tendo pouca presença na série, ainda é o fio condutor da empresa e dos delírios de Forest.

Não só a história se passa em São Francisco, como também há um campus onde os funcionários da Amaya trabalham. No entanto, há uma ala separada por uma floresta, uma gaiola de Faraday em proporções arquitetônicas — e que tem como função bloquear campos eletromagnéticos para que o projeto Devs seja realizado sem intervenção externa.

Depois de Sergei Pavlov (Karl Glusman), namorado de Lily Chan (Sonoya Mizuno), ter conseguido desenvolver um algoritmo capaz de prever o comportamento de um determinado platelminto, ele é promovido a fazer parte do projeto Devs e, então, descobrimos que se trata de um grupo de super gênios que usam um computador quântico para desenvolver a mesma coisa, só que em proporções universais. Acontece que Sergei é um espião russo que tenta roubar o algoritmo e, por isso, é assassinado por Forest. É aí que Lily se envolve em tudo, porque decide descobrir o que aconteceu com Sergei e acaba se enfiando numa trama muito maior que o esperado.

De novo, Garland nomeia um dos personagens com o sobrenome Pavlov, que nos remete ao fisiologista russo Ivan Pavlov, criador da técnica de condicionamento pavloviano baseada nos efeitos do estímulo-resposta sobre o sistema nervoso central. Como um espião, Sergei obviamente foi treinado e condicionado para obedecer às estratégias do plano. Ao descobrir isso, Lily chega a questionar se Sergei realmente a amava ou se a havia usado como um elemento de disfarce. Esse fato é especialmente importante porque, conforme a série se desenrola, descobrimos que Forest está tentando desenvolver esse algoritmo que não só prevê o futuro como também recupera o passado a partir de algoritmos probabilísticos, o que o faz concluir que, afinal, a realidade é determinística e, portanto, passível de ser prevista e recuperada indefinidamente.

Essa é uma discussão antiga entre os filósofos. Se, por um lado, alguns autores como Sartre acreditavam em livre arbítrio, outros como Nietzsche já eram um pouco mais céticos sobre essa possível liberdade. No caso de Vilém Flusser, ele não acreditava nem que a realidade era determinística ou mesmo passível de ser adivinhada, porque, no fim das contas, para ele, a realidade era simplesmente o caos. Em "Devs," no entanto, o que ocorre é que, de fato, Forest conquista o maior "sonho molhado dos geeks", como descreve um dos personagens, que é conseguir encontrar o algoritmo perfeito que decodifica a própria realidade.

Se hoje temos pessoas trabalhando em fórmulas que tentam prever o mercado de ações ou mesmo matemáticos que tentam encontrar um padrão nas coisas (como se vê no filme ficcional Pi), Garland esticou esse desejo ao extremo e, para isso, incorporou em sua narrativa a emergente tecnologia da computação quântica.

Claro, já é piada que, quando uma ficção coloca nanotecnologia ou física quântica na trama, é bem provável que seja dita muita besteira do ponto de vista científico — de propósito ou não. Filmes como "Lucy" e "Transcendence", por exemplo, abusaram desse tipo de recurso tecnológico-narrativo para criar um desfecho absurdo e grandioso.

Em "Devs", há análises que decodificam os elementos científicos da série, mas, aqui gostaria de me ater à afirmação de Yuval Harari quando ele diz que a tecnologia, cada vez mais, nos aproxima de transformar o que era fé em realidade. Levando em conta que uma pessoa do século 15 talvez nunca imaginasse que teríamos o tipo de tecnologia que temos hoje, também pode ser que, nos próximos séculos, nossos descendentes consigam desenvolver algo absolutamente aquém da nossa imaginação atualmente.

Na série, encontro uma conexão com minha tese de doutorado e o fato de a morte ser um estímulo à produção cultural, artística e tecnológica. Afinal, Forest começou a desenvolver sua empreitada tecnológica por não aceitar a morte da filha Ae por ter a esperança de que, de alguma forma, conseguiria se unir à ela e à sua esposa novamente. É nesse ponto que a série oscila entre seguir um raciocínio de multiversos, que não é o preferido de Forest, ou de se basear apenas em uma única dimensão, uma única realidade, sendo essa lógica de multiversos existente apenas como cenários probabilísticos, mas não necessariamente como uma outra dimensão em que há uma outra versão sua lendo outra versão desse texto escrito por uma outra versão minha.

Ao entender melhor sobre o projeto Devs e suas implicações, Lily começa a buscar formas de "hackear" esse algoritmo determinista, sugerindo que ela ainda poderia fazer suas próprias escolhas independentemente do que o computador já tivesse previsto. Em uma cena bizarra, os funcionários do projeto Devs colocam uma projeção no futuro de apenas alguns segundos, o que faz com que as reações das pessoas apareçam primeiro na tela e depois, com um pequeno delay, na "realidade". Foi assim que Forest e sua equipe previram o que seria o desfecho dessa incursão de Lily. Não sei se aqui teve o propósito de fazer uma conexão entre Lily Chan e Lilith como a mulher que desobedece ao plano de Deus, mas o que a personagem de Sonoya Mizuno acomete é, justamente, agir de maneira diferente do que havia sido previsto pelo computador. De qualquer forma, o evento catastrófico que fazia com que o computador se tornasse incapaz de prever o futuro a partir dali, acontece assim mesmo — não do jeito que ele imaginou, mas com a mesma resolução.

Ao final da série, uma das funcionárias da Amaya pede para que uma senadora americana continue financiando o projeto e prometa nunca desligar o computador para que a simulação continuasse acontecendo. Isto é, assim como a empresa havia escaneado toda a informação a nível atômico e quântico de todas as coisas, foi possível escanear Lily e Forest ao mínimo detalhe, inclusive de suas memórias. "Renascidos" na simulação em uma época anterior ao início da série, os dois personagens conseguem tomar decisões diferentes para suas vidas porque já conheceram o fim do caminho que seguiram em outra linha do tempo.

Diferente de outras obras que deixam em aberto a possibilidade de a simulação ser também uma realidade, uma outra linha do tempo, "Devs" é determinístico até o fim: mesmo que eles se sintam ou saibam que estão numa simulação, tudo bem: ao menos as coisas estão de volta em seu lugar (Forest está com sua família e Lily resolve voltar com o ex). Quem está de fora daquele computador sabe que ali são apenas dados, algoritmos rodando cenários, mas quem faz parte desse teatro, não.

Para que essa simulação nunca acabe, é preciso que o computador nunca desligue. Diferente da proposta mais "analógica" do seriado alemão "Dark", aqui se aposta na teoria de um supercomputador ser responsável pelo processamento de nossa realidade e que certas coisas estranhas seriam mesmo "erros na Matrix". Mas, em vez de termos um hacker Neo que pretende fugir e acabar com a ilusão, por mais que a verdade seja avassaladora, "Devs" opta pela "mentira" porque esta é mais confortável, inclusive para quem ficou de fora poder lidar com esse desdobramento — mesmo como espectador.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL