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Bernardo Machado

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

No Brasil da motociata, celebra-se a morte e rejeita-se o luto

Coveiros preparam cova rasa para sepultamento de vítima de covid-19 no cemitério do Caju, zona norte do Rio - Herculano Barreto Filho/UOL
Coveiros preparam cova rasa para sepultamento de vítima de covid-19 no cemitério do Caju, zona norte do Rio Imagem: Herculano Barreto Filho/UOL
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Bernardo Machado

Bernardo Fonseca Machado é doutor em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo. Desde 2018, trabalha como professor na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás. Também foi Visiting Student Research Collaborator na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos (2015-2016) e, em 2016, co-escreveu o livro Diferentes, não desiguais: a questão de gênero na escola pelo selo Reviravolta da Companhia das Letras. Desenvolve pesquisas acadêmicas como membro dos grupos Etnohistória e do NUMAS (Núcleo dos Marcadores Sociais da Diferença), ambos da USP.

Colunista do UOL

15/06/2021 04h00

"Perdemos algo de nós naqueles e naquelas que morrem", pondera a antropóloga Adriana Vianna da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Parte do que éramos sublima junto com o adeus, afinal, nossas identidades e nossos valores são tecidos na relação com as pessoas que viraram ausência.

Nos próximos dias, o país atingirá a fatídica marca de meio milhão de vidas ceifadas pela pandemia de covid-19. O cálculo escamoteia as perdas imponderáveis: o sem número de nós que desataram.

Enquanto isso, o governo continua avesso ao luto. "As mortes são centrais na linguagem cênica e política de Bolsonaro", destaca Vianna, isto é, "enquanto algumas mortes são ansiadas — dos vagabundos, comunistas, terroristas, bandidos etc — outras são tratadas apenas como inevitáveis". O martírio ganha ares de destino para uma alegada "purificação" nacional.

E não é sem comemoração que se constitui o calvário do país. O presidente prefere prestigiar, com maior alarde, motociatas a visitar hospitais. No último sábado (12), Jair Bolsonaro desfilou em diversas vias da cidade de São Paulo num evento que poderia ser chamado de "morteciata". Na ocasião — tal como na versão carioca em maio — havia um tom de celebração presente, "o que está sendo feito nestes atos é mostrar que não há nada a ser pranteado. Nesse caso, não é a morte que está sendo negada. É o luto. É nosso direito existencial e político de enlutarmo-nos", analisa Vianna.

Na atual conjuntura, a celebração da morte e a rejeição do luto, ao invés de constituírem um paradoxo, edificam um procedimento político.

Enlutar

"O reconhecimento da perda é fundamental para que a dor seja legítima e legitimada, e o luto faz parte de uma gramática coletiva de reconhecimento", explica a pesquisadora da Cidacs/Fiocruz Denise Pimenta. Nesse cenário, o desfile das motos (ou das mortes) eclipsa o reconhecimento do luto em três aspectos.

Primeiro porque há mortes que pouco sensibilizam. Conforme expõe Vianna, há uma distribuição desigual do "direito à dor" ou à sua validação: "naturaliza-se exposição dos corpos que devem servir e dos corpos que não serão preservados das condições que os ameaçam". Ou seja, existem trabalhadoras e trabalhadores que precisam continuar ativos e, mesmo assim, não farão parte dos grupos prioritários para a vacina — como garis. Suas mortes não despertam a mesma comoção que outras — "o regime de sensibilidades e insensibilidades que opera para a morte, opera para a vida, tendo no racismo sua peça central", alerta Vianna.

Em segundo lugar, carece o reconhecimento, por parte do Estado, dos órfãos da pandemia, explicita Denise Pimenta. Dados do IPEA divulgados em abril revelam que 45 mil pessoas ficaram órfãs no país desde o início do contágio. Em maio, o Presidente da Comissão de Seguridade Social e Família, Deputado Federal Luiz Antônio Teixeira Jr. (PP/RJ), cobrou do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos: "O ministério precisa ter um programa específico para a situação dos órfãos da covid. Não é possível que, depois de um ano da pandemia, a gente ainda esteja mapeando o problema. (...) Nós precisamos de uma solução". Se perdemos algo de nós com quem se foi, o que resta das crianças e adolescentes cujos pais e responsáveis partiram por conta da pandemia e de seu descontrole?

Por fim, nega-se o direito ao luto nacional. "Somos uma nação que historicamente menospreza e ridiculariza os desaparecidos, os mortos", destaca Pimenta, "os traumas sociais não são permitidos ou sentidos de forma coletiva". O atual governo menospreza a compaixão pelo outro e rechaça qualquer possibilidade de comoção.

O futuro do luto

"Nas perdas relacionadas à covid, parece-me que teremos que arcar com consequências que ainda não podemos dimensionar", estima Vianna. As covas abertas, as imagens de pessoas sem ar na porta dos hospitais e o confisco político do luto coletivo fazem parte dos nossos desafios adiante, expõe a antropóloga.

Hoje estamos formando a memória futura de um país corroído pela morte, destaca Pimenta, "uma nação que, muito provavelmente, seguirá na mesma estratégia adotada para a escravidão de pessoas e para ditadura. Uma narrativa em que vítimas, sobreviventes e traumas não existem".

Caso o Estado promovesse um ato nacional para e pelo luto, centrado no cuidado e nos corpos de todas as pessoas afetadas pela doença, poderíamos condensar as dores sublimadas para reatar laços e existências reiteradamente negadas. Contudo, tal tipo de postura parece não fazer parte dos planos do presidente Bolsonaro, afinal, a proposta não sintoniza com suas estratégias políticas — erguidas sob a cisma e o conflito.

Um país que não prevê o luto nega seu passado de dor e torna-se órfão de seu futuro. Diante disso, é preciso enlutar-se e lutar para fazer nascer um país realmente curado de suas mazelas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL