Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
No Brasil da motociata, celebra-se a morte e rejeita-se o luto

"Perdemos algo de nós naqueles e naquelas que morrem", pondera a antropóloga Adriana Vianna da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Parte do que éramos sublima junto com o adeus, afinal, nossas identidades e nossos valores são tecidos na relação com as pessoas que viraram ausência.
Nos próximos dias, o país atingirá a fatídica marca de meio milhão de vidas ceifadas pela pandemia de covid-19. O cálculo escamoteia as perdas imponderáveis: o sem número de nós que desataram.
Enquanto isso, o governo continua avesso ao luto. "As mortes são centrais na linguagem cênica e política de Bolsonaro", destaca Vianna, isto é, "enquanto algumas mortes são ansiadas — dos vagabundos, comunistas, terroristas, bandidos etc — outras são tratadas apenas como inevitáveis". O martírio ganha ares de destino para uma alegada "purificação" nacional.
E não é sem comemoração que se constitui o calvário do país. O presidente prefere prestigiar, com maior alarde, motociatas a visitar hospitais. No último sábado (12), Jair Bolsonaro desfilou em diversas vias da cidade de São Paulo num evento que poderia ser chamado de "morteciata". Na ocasião — tal como na versão carioca em maio — havia um tom de celebração presente, "o que está sendo feito nestes atos é mostrar que não há nada a ser pranteado. Nesse caso, não é a morte que está sendo negada. É o luto. É nosso direito existencial e político de enlutarmo-nos", analisa Vianna.
Na atual conjuntura, a celebração da morte e a rejeição do luto, ao invés de constituírem um paradoxo, edificam um procedimento político.
Enlutar
"O reconhecimento da perda é fundamental para que a dor seja legítima e legitimada, e o luto faz parte de uma gramática coletiva de reconhecimento", explica a pesquisadora da Cidacs/Fiocruz Denise Pimenta. Nesse cenário, o desfile das motos (ou das mortes) eclipsa o reconhecimento do luto em três aspectos.
Primeiro porque há mortes que pouco sensibilizam. Conforme expõe Vianna, há uma distribuição desigual do "direito à dor" ou à sua validação: "naturaliza-se exposição dos corpos que devem servir e dos corpos que não serão preservados das condições que os ameaçam". Ou seja, existem trabalhadoras e trabalhadores que precisam continuar ativos e, mesmo assim, não farão parte dos grupos prioritários para a vacina — como garis. Suas mortes não despertam a mesma comoção que outras — "o regime de sensibilidades e insensibilidades que opera para a morte, opera para a vida, tendo no racismo sua peça central", alerta Vianna.
Em segundo lugar, carece o reconhecimento, por parte do Estado, dos órfãos da pandemia, explicita Denise Pimenta. Dados do IPEA divulgados em abril revelam que 45 mil pessoas ficaram órfãs no país desde o início do contágio. Em maio, o Presidente da Comissão de Seguridade Social e Família, Deputado Federal Luiz Antônio Teixeira Jr. (PP/RJ), cobrou do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos: "O ministério precisa ter um programa específico para a situação dos órfãos da covid. Não é possível que, depois de um ano da pandemia, a gente ainda esteja mapeando o problema. (...) Nós precisamos de uma solução". Se perdemos algo de nós com quem se foi, o que resta das crianças e adolescentes cujos pais e responsáveis partiram por conta da pandemia e de seu descontrole?
Por fim, nega-se o direito ao luto nacional. "Somos uma nação que historicamente menospreza e ridiculariza os desaparecidos, os mortos", destaca Pimenta, "os traumas sociais não são permitidos ou sentidos de forma coletiva". O atual governo menospreza a compaixão pelo outro e rechaça qualquer possibilidade de comoção.
O futuro do luto
"Nas perdas relacionadas à covid, parece-me que teremos que arcar com consequências que ainda não podemos dimensionar", estima Vianna. As covas abertas, as imagens de pessoas sem ar na porta dos hospitais e o confisco político do luto coletivo fazem parte dos nossos desafios adiante, expõe a antropóloga.
Hoje estamos formando a memória futura de um país corroído pela morte, destaca Pimenta, "uma nação que, muito provavelmente, seguirá na mesma estratégia adotada para a escravidão de pessoas e para ditadura. Uma narrativa em que vítimas, sobreviventes e traumas não existem".
Caso o Estado promovesse um ato nacional para e pelo luto, centrado no cuidado e nos corpos de todas as pessoas afetadas pela doença, poderíamos condensar as dores sublimadas para reatar laços e existências reiteradamente negadas. Contudo, tal tipo de postura parece não fazer parte dos planos do presidente Bolsonaro, afinal, a proposta não sintoniza com suas estratégias políticas — erguidas sob a cisma e o conflito.
Um país que não prevê o luto nega seu passado de dor e torna-se órfão de seu futuro. Diante disso, é preciso enlutar-se e lutar para fazer nascer um país realmente curado de suas mazelas.
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