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Bernardo Machado

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

As festas, 2022 e as promessas de um futuro mais tranquilo

27.abr.2016 - Onda derruba mureta e invade calçadão na Ponta da Praia, em Santos. - Mauricio de Souza/Estadão Conteúdo
27.abr.2016 - Onda derruba mureta e invade calçadão na Ponta da Praia, em Santos. Imagem: Mauricio de Souza/Estadão Conteúdo
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Bernardo Machado

Bernardo Fonseca Machado é doutor em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo. Desde 2018, trabalha como professor na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás. Também foi Visiting Student Research Collaborator na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos (2015-2016) e, em 2016, co-escreveu o livro Diferentes, não desiguais: a questão de gênero na escola pelo selo Reviravolta da Companhia das Letras. Desenvolve pesquisas acadêmicas como membro dos grupos Etnohistória e do NUMAS (Núcleo dos Marcadores Sociais da Diferença), ambos da USP.

Colunista do TAB

31/12/2021 04h00

Contrariando expectativas dos filmes natalinos e das propagandas comemorativas, os finais de ano não são necessariamente pacíficos e destinados a um desfecho feliz. Na experiência cotidiana, os dilemas financeiros assolam os bolsos, as crises familiares incentivam a insônia e as pautas políticas insurgem com (e contra os) ânimos. Particularmente nos últimos quatro anos — 2018, 2019, 2020 e 2021 —, a atmosfera de dezembro parece estar desafinada, produzindo um ruído incômodo.

Pé de guerra

Desde 2018, os festejos foram esfolados por desencontros e desacordos político-eleitorais. Relatos de brigas, silêncios constrangedores e rompimentos incontornáveis deram a tônica nas redes, nos grupos de WhatsApp e nos desabafos pessoais. No ano seguinte, em 2019, com o trauma acumulado, surgiram campanhas para "despolarizar" as conversas, articulistas montaram estratégias para desviar de parentes e veículos de imprensa prepararam orientações para munir as pessoas com dados para fundamentar as discussões que se anunciavam. Mesmo assim, os conflitos épicos continuaram invadindo as festas.

Em comum, os dois anos foram tomados pela hegemonia de Jair Bolsonaro, o epicentro do debate público e pessoal. Já eleito em 2018 e após o primeiro ano do governo, em 2019, a atmosfera nacional centrava-se nas desavenças, no que era incontornável e intolerável. O vocabulário bélico do presidente — bem como suas práticas de ruptura — havia contaminado as relações.

Melancolia

Em dezembro de 2020, com quase 200 mil mortes dilacerando o país e com um atraso para a chegada das vacinas no Brasil, o tom era outro. Enquanto as frases do presidente ainda ecoavam em nossa memória — "gripezinha", "e daí" —, a profunda tristeza se esparramou pelos últimos dias do ano. Na época, as retrospectivas fermentaram em campanhas nas redes e nos meios de comunicação. Além das versões tradicionais dos veículos de imprensa, algumas entidades, movimentos sociais e até empresas passaram a produzir suas versões do que consideraram relevante e, com isso, honravam as memórias das vítimas da doença.

A gramática era de uma certa desolação conformada. O clima de guerra, característico do biênio anterior, tornou-se longínquo e a distância sanitária com a qual nos deparávamos tornou as festas mais silenciosas. As relações fizeram falta pela ausência do toque e dos rituais inventados.

Expectativas e imprevistos

Dezembro de 2021 chegou com promessas: os reencontros com festança. Além da ceia, os já famosos protocolos faziam parte do cardápio: "todo mundo vacinado e de máscara", "álcool em gel", "janelas abertas"... Tudo em nome de um abraço represado para vencer a crise sanitária que se instalou. Planos ambiciosos de uma comemoração capaz de retomar as relações que ficaram carentes nesse longo hiato temporal. Um desejo pelos eventos e tudo que simbolizam.

Mas parece que brasileiro não pode se animar muito. A Influenza tipo A do subtipo H3N2 e a nova variante ômicron dão indícios de que a tranquilidade está em risco. Haja paciência e resiliência emocional.

Ansiedade

Mesmo assim, a gramática é outra quando comparada aos dezembros dos anos antecedentes. Não é a guerra ou a retrospectiva, mas uma espécie de impaciência em comemorar e, também, encerrar. Une uma certeza de que 2021 deve acabar, um ano que começou em 2020 (e se arrastou por muito mais de 12 meses) merece terminar e levar consigo os problemas que criou e insistiu. Há um certo cansaço dos protocolos pandêmicos e das guerras políticas que afogaram o país em inflação, miséria e inconsistência programática.

Talvez por isso, as eleições estão antecipadas, seja nas campanhas, seja nas escolhas. Segundo última pesquisa do Datafolha, na intenção de voto espontânea, 64% das pessoas já declaram voto a um candidato e na pesquisa IPEC o número de quem sabe de sua escolha atinge 60% do eleitorado. Certamente não sabemos o que ocorrerá nas votações de 2022, mas parece que hoje há uma parcela significativa de pessoas que quer outubro amanhã. Assim resolve-se o imbróglio e se chega logo a um 2023 repleto de novos ares.

Só tranquilidade

Se há uma espécie de ideia difusa de que as festas são assemelhadas entre si — na atmosfera e nos rituais — os quatro últimos anos demonstraram que elas podem variar (e muito!) e nos fazem sentir falta de tempos mais tranquilos e menos historicamente caóticos. Não necessariamente um retorno para uma tradição estática, mas uma época na qual as relações não precisavam ficar estremecidas e sob o risco, seja de ruptura ou de morte. Um momento em que as relações podiam ser celebradas.