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Bernardo Machado

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Pronomes neutros: linguagem inclusiva aumenta nosso repertório linguístico

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Bernardo Machado

Bernardo Fonseca Machado é doutor em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo. Desde 2018, trabalha como professor na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás. Também foi Visiting Student Research Collaborator na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos (2015-2016) e, em 2016, co-escreveu o livro Diferentes, não desiguais: a questão de gênero na escola pelo selo Reviravolta da Companhia das Letras. Desenvolve pesquisas acadêmicas como membro dos grupos Etnohistória e do NUMAS (Núcleo dos Marcadores Sociais da Diferença), ambos da USP.

Colunista do UOL

29/11/2021 04h00

"Pessoas trans não estão pedindo nada mais do que uma linguagem que reconheça seu desconforto com a regra e com a estrutura linguística dada" explicou Brune Medeiros, travesti não-binária e integrante do Núcleo de Estudos em Discursos e Sociedade da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). O assunto está presente na arena pública e gera as reações as mais diversas — como projetos de lei, decisões judiciais e afins.

No universo dos podcasts, o Larvas Incendiadas tratou do tema recentemente, bem como algumas novelas e programas de TV. No último dia 17, por exemplo, o ministro Edson Fachin do STF (Supremo Tribunal Federal) suspendeu uma lei de Rondônia que proibia o uso da linguagem neutra em escolas públicas e privadas do estado.

Uma história antiga

O debate parece novo, mas não é. Pesquisas no campo da linguística oferecem indícios de que na língua proto-indo-europeia (aquela que deu origem à maioria das línguas do continente), a principal divisão operante era aquela que separava seres animados e inanimados, conforme explica o pesquisador Rodrigo Borba, da UFRJ. Segundo o linguista, "em algum momento da história, esses falantes passaram a produzir categorias mais complexas à medida que outras necessidades sociais e culturais foram surgindo. Os seres animados começaram a ser divididos entre masculino, feminino e, em alguns casos, neutro".

Como resultado, as línguas latinas, derivadas daquela mais antiga, passaram a apresentar o gênero gramatical, mas o organizam de formas variadas: "o francês, o português e o espanhol têm marcações gramaticais para o feminino e o masculino", comenta Borba, "o romeno tem três categorias: masculino, feminino e neutro". Curiosamente, mesmo dentro dessas línguas o gênero gramatical não é exatamente equivalente, afinal, enquanto em português, "borboleta" é gramaticalmente feminino, em francês, "papillon", é masculino.

Masculino genérico

Como uma língua é, em última instância, uma invenção, a estabilização das regras numa gramática passa também por escolhas técnicas e, também, políticas. O linguista Claude Vaugelas (1585-1650), por exemplo, — um dos fundadores da academia francesa —fez questão de sedimentar e naturalizar esse processo histórico. Conforme conta Borba, Vaugelas escreveu que na gramática latina, o gênero masculino seria naturalmente mais nobre, e por isso, deveria predominar todas as vezes que o masculino e o feminino se encontrarem juntos. Isto é, diante de um grupo com 100 mulheres e dois homens, o bom falante da língua francesa deveria dizer "bom dia a todos". Esta forma de enunciar ficou conhecida como "masculino genérico".

Novas demandas

Nem todo mundo ficou satisfeito com essa formulação. Na década de 1970, com fortalecimento institucional do movimento feminista e as reflexões propostas por estudantes em maio de 1968, o debate sobre a linguagem tornou-se assunto, sobretudo em países como Estados Unidos e França. "O movimento destacou como mulheres eram subrepresentadas linguisticamente. Isto é, uma língua inclinada a tornar as mulheres invisíveis, uma linguagem sexista", explicita Brune Medeiros.

No Brasil, o tema ganhou relevância durante a democratização do país, sem grande alarde ou teorização, conforme relembra Borba. Neste período emergiram algumas estratégias para contornar o masculino genérico, como as formas coordenadas: "professores e professoras" ou "professoras e professores". Outros modelos também foram aventados: ao invés de falar "os alunos", tornou-se uma opção utilizar palavras não marcadas como "discentes" ou "estudantes", isto é, aquelas que não denotam gênero explicitamente.

O X da questão

Desde então, as estratégias para a visibilização, a neutralização e a contestação das formas da língua se ampliaram. Uma das primeiras surgiu por volta dos anos 2000, com o uso do "@", como em "professor@s" — uma abordagem mais econômica do que a coordenação masculino-feminino.

Logo em seguida, contudo, outras reflexões ganharam força. O movimento trans e o movimento queer passaram a pautar que a língua não é apenas sexista, mas sim binarista. Isto é, ela tem a tendência de alocar em dois polos binários a existência das pessoas tornando impossível a nomeação de quem não se identificava com o masculino ou o feminino.

O objetivo era "criticar uma estrutura que essencializa e dicotomiza a língua em dois gêneros: masculino e feminino", explica Medeiros. É nesse contexto que surgem outras possibilidades criativas, como o uso do "x" — como em 'professorxs'. Mais recentemente, essa estratégia vem recebendo críticas por ser razoavelmente difícil de ser dita, ficando praticamente restrita à escrita — e por não conseguir ser lida pela maioria dos softwares para pessoas com deficiência visual.

Mais pessoas, mais línguas

"Embora a não-binariedade de gênero não seja um fenômeno novo, a internet possibilitou que essas pessoas se encontrassem e problematizassem o fato de o português reconhecer somente dois gêneros com os quais pessoas não-binárias não se reconhecem" destaca Borba. Diante disso, as pessoas elaboraram outras formas que podem ser faladas e escritas. Deste caldo de debate surge o uso do 'e' como em 'alunes', 'todes' etc., além de novos sistemas pronominais como o "ile" "dile", os chamados "neo-pronomes", expõe Brune Medeiros.

Acrescentar

"O que acontece é um processo de adição de recursos ao repertório linguístico" comenta Rodrigo. "São estruturas que vamos usar e que vão existir uma ao lado da outra", avalia Brune, "não necessariamente uma é maior ou melhor e se sobrepõe a uma outra".

Embora o tema gere controvérsia, ele tem entrado, aos poucos no cotidiano. Há pessoas adotando enunciados como "bom dia a todos, todas e todes". Mesmo em anúncios de emprego, por exemplo, as chamadas têm mudado: "procura-se pessoa desenvolvedora", "procura-se pessoa advogada". Essa formulação neutraliza o discurso, respeita quem for se candidatar ao não colocar gênero no anúncio, destacam as pesquisas feitas no núcleo de que participam Rodrigo e Brune.

Uma demanda por reconhecimento de pessoas não-binárias aparece como uma oportunidade para discutirmos as amarras linguísticas antigas que podem, a todo momento, ser repensadas. Aliás, a ampliação da linguagem não merece ser vista como uma circunscrição, mas uma potencialidade e uma libertação.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL