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Lidia Zuin

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Aquecimento global já está matando pessoas, mas será que isso basta?

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Imagem: Unsplash
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Lidia Zuin

Jornalista e pesquisadora em futurologia. Mestre em semiótica, doutoranda em artes visuais, palestrante, professora e escritora de ficção científica.

Colunista do TAB

18/07/2021 04h01

Em seu mais recente livro, "The Ministry for the Future", lançado em outubro de 2020, Kim Stanley Robinson inicia a ficção descrevendo uma onda de extremo calor e umidade na Índia, responsável por matar mais de um milhão de pessoas. O que era para ser um anúncio hipotético de catástrofe virou realidade em junho último, quando uma onda de calor matou dúzias de canadenses. Há alguns dias, também foi divulgada a previsão de uma nova e intensa onda de calor para o fim de semana no Hemisfério Norte. O risco agora não só é humano mas também natural: estima-se que essa nova onda de calor irá acelerar o degelo dos glaciares.

A questão da justiça climática torna-se ainda mais patente, em decorrência desses eventos. Mudanças no comportamento das chuvas e enchentes, especialmente na Ásia, alterações no nível do mar e dos ecossistemas são fatores que têm obrigado populações a migrar de seus lares. Esse é o caso de ilhas do Pacífico como Tuvalu e Kiribati, e também o de fazendeiros do oeste africano que já estão tendo dificuldade em manter plantações e rebanhos de gado, devido ao aumento na incidência de enchentes e secas. Em Bangladesh, a intrusão da salinidade nos rios está prejudicando as plantações de arroz e forçando cerca de 200 mil nativos a se mudarem a cada ano.

Até 2020, migrações decorrentes de mudanças climáticas não eram reconhecidas pela ONU, uma vez que a Convenção não entendia o clima como um agente capaz de perseguição. A fusão do Centro de Monitoramento de Deslocamentos Internos com a ONU, em 2016, foi um primeiro passo em direção a essa atualização. Em 2018, o comitê contabilizou que 17,2 milhões de pessoas tiveram que deixar suas casas devido a desastres naturais. Com a criação da divisão focada em Migração, Meio Ambiente e Mudança Climática (MECC), o setor passou a prestar suporte internacional em reconhecimento dos migrantes climáticos. Mais do que perder suas casas e trabalhos, essas pessoas, em última instância, podem ainda perder suas vidas, uma vez que essas ondas de calor podem ser fatais mesmo para pessoas com boa saúde.

Em 2020, comentava-se que o aquecimento global iria intensificar tanto as temperaturas que, literalmente, nossos órgãos poderiam parar de funcionar devido ao excesso de calor e de umidade. Pior: não adianta ligar o ar-condicionado, porque isso só prejudica. Países até ontem intocáveis do Norte global também estão entrando na estatística.

Cada vez mais frequentes, essas ondas de calor úmido conhecidas como "wet bulb conditions", em inglês, ocorreram cerca de 7 mil vezes entre 1979 e 2019. De acordo com o cientista ambiental Radley Horton, da Universidade Columbia, nos EUA, "mesmo se as pessoas estiverem com a saúde perfeita, mesmo se elas estiverem na sombra ou usando roupas que, a princípio, facilitam a transpiração, mesmo que haja um suprimento infinito de água, há ainda umidade suficiente no ar, o que torna termodinamicamente impossível prevenir que o corpo superaqueça". Isto é, a combinação de calor e umidade simplesmente impede a transpiração e, portanto, o resfriamento do corpo a partir da evaporação do suor. Confinado a essa situação, o corpo simplesmente para de funcionar.

O calor excessivo pode também afetar a infraestrutura das cidades: no fim de junho, a onda de calor nos Estados Unidos gerou blecautes e corrosão de fiações elétricas. Os custos com eletricidade aumentaram em até 20% em Nova Iorque (maior elevação desde 2012). Em Seattle, o calor excessivo gerou quedas na infraestrutura de energia subterrânea, parte mais difícil de ser consertada devido ao excessivo calor dos equipamentos nas valas.

No Brasil, órgãos como a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) afirmam que o aumento na conta de luz brasileira advém da maior crise hídrica dos últimos 90 anos. Contudo, alguns especialistas e movimentos sociais, como o MAB (Movimento dos Atingidos por Barragens). defendem que esse argumento é uma farsa: segundo um artigo publicado em 29 de junho, o volume de água que entrou nas usinas hidrelétricas brasileiras em 2020 foi um dos melhores nos últimos 10 anos. O problema, então, é de gestão, uma vez que as empresas de energia estão levando os recursos naturais ao extremo, causando seca e crise energética. Devido a essa falta, o país foi forçado a usar as termelétricas, que são uma fonte de produção de energia muito mais cara e prejudicial ao meio ambiente.

Enquanto alguns de nós fazem compostagem e tentam ao máximo reduzir sua pegada de carbono no mundo, indústrias como a da moda e da pecuária continuam poluindo o planeta e gerando gases de efeito estufa massivamente. Cerca de 50 mil brasileiros morrem por ano devido à má qualidade do ar, uma consequência de ações como o desmatamento e queimadas, além das mudanças no uso da terra (por exemplo, uma floresta primária ou secundária sendo derrubada para dar lugar à pecuária ou agricultura). Em 2019, esses fatores lançaram 968 milhões de toneladas de gases de efeito estufa na atmosfera.

Também foi nesse ano que o Internal Displacement Monitoring Centre (IDMC) registrou, no Brasil, mais de 200 mil novos deslocamentos internos devido a desastres ambientais. As principais causas foram chuvas fortes e inundações, bem como secas, estiagens prolongadas e processos de desertificação. Com o tempo, porém, não é só o nordeste que será afetado: já há extremos climáticos sendo identificados na Amazônia.

Em outras palavras, a "culpa" por esses efeitos colaterais recai menos nas pessoas do que na indústria e na maneira com que nos organizamos econômica e politicamente. A célebre frase de que é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o do capitalismo vira redundância. Há aqueles que ignoram ou sequer acreditam que o clima está mesmo mudando. Outros pretendem simplesmente zarpar deste planeta quando a conta chegar. Se mesmo a extinção de animais e plantas não for suficiente para que o mundo corporativo realmente acorde, que dirá a morte de seres humanos devido ao aquecimento global?

É pessimista a perspectiva quando consideramos que, durante a pandemia, com mais de 500 mil mortes só no Brasil, ainda há empresas, políticos e cidadãos ignorando as orientações de segurança e as provas da mortalidade do coronavírus. Em um contexto de necropolítica, fica difícil acreditar que a morte de seres humanos seja um estressor suficientemente bom para a derrocada de grandes estruturas socioeconômicas e políticas. Mas a verdade é essa: já estamos morrendo devido ao aquecimento global e, mesmo quando a morte é próxima, há aqueles que ficam presos eternamente no estágio da negação.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL