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Lidia Zuin

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Viena erra ao publicar arte com nudez no OnlyFans em protesto à censura

Museus de Viena no OnlyFans - Reprodução
Museus de Viena no OnlyFans Imagem: Reprodução
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Lidia Zuin

Jornalista e pesquisadora em futurologia. Mestre em semiótica, doutoranda em artes visuais, palestrante, professora e escritora de ficção científica.

Colunista do TAB

31/10/2021 04h01

O Conselho de Turismo de Viena resolveu recorrer ao OnlyFans, plataforma conhecida por publicar conteúdo adulto pago, depois de o Museu Albertina ter tido sua conta suspensa pelo TikTok, em julho, devido ao compartilhamento da obra do fotógrafo japonês Nobuyoshi Araki, que incluía seios femininos obscurecidos.

Isso também acontece nas redes sociais de Zuckerberg pelo menos desde 2017, quando uma mulher postou uma foto da Vênus de Willendorf, estátua de 30 mil anos, e teve a publicação removida pelo Facebook sob a alegação de que se tratava de conteúdo pornográfico. Em outro caso, o Instagram também derrubou uma pintura de Peter Paul Rubens, em 2019, porque considerou que a inclusão de nudez na obra era considerada pornográfica, apesar de a intenção ter sido de "natureza criativa ou artística".

Segundo Helena Hartlauer, representante do conselho, a cidade e suas instituições culturais estão achando "quase impossível" usar obras de arte com nudez em materiais promocionais.

Ela disse isso também baseando-se no incidente de 2018, quando o Museu Leopold teve dificuldade em promover a exibição da coleção de nus de Egon Schiele — órgãos reguladores de publicidade da Alemanha, Reino Unido e Estados Unidos se recusaram a incluir essas imagens nas campanhas. No entanto, mais tarde, o conselho conseguiu enviar novamente os pôsteres com tarjas cobrindo os corpos desnudos e a frase "Desculpe - 100 anos depois, mas ainda muito provocante".

Ao incluir essas imagens no OnlyFans, os primeiros assinantes e apoiadores da página iam ganhar um cartão turístico com créditos para visitar os museus e galerias vienenses. Essa foi a estratégia para tentar reacender o turismo da capital austríaca, depois de uma queda registrada entre 2019 e 2020.

Embora seja uma decisão acertada, em termos de marketing, optar pelo OnlyFans limita o alcance — existem redes sociais gratuitas com uma grande base de usuários que não removem nudez consensual, como é o caso do Twitter. Nesse caso, porém, a campanha veio junto do questionamento sobre como essas plataformas estariam censurando obras de arte, o que é controverso, porque "quem é que decide o que é censurado ou não?".

A resposta está nos algoritmos e no uso da inteligência artificial para a automação de revisão de conteúdo. Mamilos femininos, por exemplo, não são permitidos, em contraposição aos mamilos masculinos. Conteúdos gráficos de violência e sexo também são automaticamente derrubados ou então mais tarde removidos, ao passar por nova avaliação, solicitada por denúncia. Em vista disso, diferentes coletivos artísticos se manifestaram argumentando que o algoritmo não está bom e talvez nunca fique, mas já é tempo de aprimorá-lo — daí a hashtag #FixtheAlgorithm.

Mais recentemente, redes sociais antes usadas para a publicação de conteúdo com nudez passaram a limitar esse tipo de postagem. Foi o caso do Tumblr mas também o do OnlyFans, que anunciou em agosto que iria banir conteúdo sexual explícito, o que causou revolta: diferentes entidades de proteção aos trabalhadores sexuais se manifestaram contra essa decisão que, pouco depois, foi revertida.

O caso é que a Mastercard está desde abril com uma ação para impedir a publicação e comercialização de conteúdos sexuais explícitos que não sejam autorizados pela pessoa, ou então que envolvam menores de idade. Assim, mais do que cobrar técnicas de verificação mais efetivas ao OnlyFans, a operadora de cartões preferiu simplesmente vetar esse tipo de conteúdo que, de fato, é publicado no OnlyFans.

Em artigo, a ativista feminista Julie Bindel argumenta que, apesar de a proibição do OnlyFans parecer boa notícia, essa era uma decisão estranha demais de ser tomada por uma empresa movida pelo lucro:

"Por que eles se arriscariam a perder uma parte tão grande de sua renda? Para preservar seu lucro? Não consigo imaginar a conversão de executivos que, de repente, perceberam que o site se tornou apenas mais uma plataforma para pornografia. Apesar de ser comercializado como um Instagram ousado, está claro que OnlyFans nunca teria lucro com a venda de bolsas."

Em entrevista à BBC, um moderador do OnlyFans chegou a comentar que havia encontrado conteúdo ilegal e extremo em vídeos publicados na plataforma — e isso inclui violência, uso de armas e abuso de animais, ainda que esses materiais sejam proibidos pelas regras do site. O funcionário admitiu que seus chefes o criticaram por "moderar demais" o conteúdo enviado.

"O OnlyFans foi criado para fornecer pornografia feita sob medida aos homens. A chamada política de uso aceitável no site fará pouca ou nenhuma diferença para exploradores e predadores. Aqueles que ganham dinheiro explorando mulheres vulneráveis não são boas pessoas. Remover conteúdo pornográfico é um movimento positivo, mas o OnlyFans precisa ser moderado ao ponto em que se torne mais oneroso do que vantajoso vender sexo. Os corpos das mulheres nunca deveriam estar à venda." - Julie Bindel

Museus de Viena no OnlyFans - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

A medida, de todo modo, foi revertida. Em uma publicação no jornal The New York Times, foi defendido que o OnlyFans estava mudando o trabalho sexual para sempre ao oferecer um ambiente seguro a esses profissionais, mas, por outro lado, a plataforma também abriu espaço a jovens que ficaram tentados pelas recompensas financeiras. Esse foi o caso de meninas com menos de 18 anos que foram capazes de burlar o sistema de verificação de idade e assim puderam se registrar no site para ganhar dinheiro e presentes.

Há mais problemas. Vários adultos têm reclamado de problemas como stalking. Muitos usuários do OnlyFans são ex-perpetradores sexuais que estão stalkeando e vendendo imagens de suas vítimas sem consentimento.

Diante da crise do COVID, Sandra D. Guerrero (membro da Assembleia Abolicionista de Madrid) observou que as pessoas passaram a aceitar e naturalizar ainda mais o conteúdo pornográfico, bem como a redução de mulheres a "meros objetos sexuais, atacadas e desumanizadas." Em suas palavras:

"A imprensa, como se isso fosse algo completamente normal, divulgou amplamente um anúncio do PornHub, um dos sites pornôs mais visitados da web, de que estaria oferecendo seu serviço 'Premium' gratuitamente durante o 'Estado de Alarme' (lockdown) na Espanha. Enquanto isso, os relatórios policiais e as acusações de abuso infantil, de que a empresa é acusada, não receberam atenção da mídia."

Assim como o PornHub, que explodiu em popularidade nos últimos dois anos, chegando a oferecer acesso premium e gratuito durante o lockdown, o OnlyFans ampliou vertiginosamente sua base de clientes e produtores de conteúdo na pandemia. A plataforma chegou a anunciar coisas como "Coronavírus me deixou sem emprego, mas agora eu ganho 1.600 euros com meus nudes no OnlyFans", ou "OnlyFans: Você também pode ficar rico como estrela pornô".

Fora isso, vale também salientar as origens obscuras do OnlyFans, que hoje tem Leonid Radvinsky como proprietário de 75% da empresa. Radvinsky formou sua fortuna criando sites que compartilhavam logins e senhas vazados para plataformas de pornografia que incluíam pedofilia e bestialidade (ato de fazer sexo com um animal). O criador do OnlyFans é o empresário britânico Timothy Stokely, filho de banqueiro. Assim, o OnlyFans não parece ser uma iniciativa a princípio libertadora e protetora de trabalhadores sexuais. Não parece ser o local perfeito para que uma instituição de turismo, junto a museus e galerias, publique obras com nudez ou consideradas para maiores de 18 anos.

Para acessar conteúdo no OnlyFans, o usuário precisa se cadastrar e se inscrever no perfil. De saída, estamos falando de uma iniciativa de monetização de obras de arte que podem até ter perdido seus direitos autorais. Também não foi indicado que uma parte dos recursos seria revertida para artistas contemporâneos, por exemplo. Então, se o propósito é questionar os algoritmos das redes sociais, não faz sentido fazê-lo em uma rede paga. E, se fosse o caso de popularizar acesso, por que não usar o Twitter?

A atitude do conselho vienense parece ter menos a ver com um debate sobre erotismo e pornografia do que uma tentativa de gerar buzz às custas de uma plataforma popular, mas não menos controversa e questionável.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL