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Lidia Zuin

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Os longas de super-heróis são atalhos para 'bombar' filmes mais simples?

Robert Pattinson como Batman - Reprodução/Warner Bros.
Robert Pattinson como Batman Imagem: Reprodução/Warner Bros.
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Lidia Zuin

Jornalista e pesquisadora em futurologia. Mestre em semiótica, doutoranda em artes visuais, palestrante, professora e escritora de ficção científica.

Colunista do UOL

19/03/2022 04h00

Lançado há duas semanas, o filme "The Batman", dirigido por Matt Reeves chamou a atenção do público — mas por quê? Por que o ex-vampiro brilhante agora dá um toque emo ao órfão rico? Por que a icônica Mulher Gato volta às telonas sob a interpretação de Zoë Kravitz? Por que Paul Dano, ator que consolidou seu trabalho em filmes "cult", pareceu uma escolha bem acertada para o Charada? Ou então por causa da maquiagem incrível que fizeram no Colin Farrell para transformá-lo no Pinguim?

Independentemente do motivo específico, a verdade é que estamos vivendo décadas de sucesso para obras audiovisuais de super-heróis. E, nesse ínterim, há uma batalha mais ou menos discreta entre os fãs de Marvel e os fãs da DC — um conjunto que possui interseção, porém.

Enquanto a Marvel, agora parte da Disney, já achou sua fórmula de contar histórias no cinema, a DC aposta em uma maior liberdade criativa para os diretores — algo que já acontecia nos quadrinhos. Talvez o mais próximo disso, no caso da Marvel, tenha sido o filme "Eternals", que deu (mais ou menos) chancela criativa para a premiada diretora Chloé Zhao, ou então a série "What If", seguindo esse trajeto de multiversos que está tomando conta da franquia, no momento.

A questão é que, depois de terminar de assistir ao filme "The Batman", fiquei em dúvida se havia gostado mesmo ou não. Não que isso importe, mas foi o que me inspirou a fazer a pergunta: será que Matt Reeves queria mesmo contar uma história do Batman ou só pegou um atalho no sucesso dos super-heróis? Quer dizer, será que se Reeves fizesse um filme de um vigilante que caça criminosos loucos em uma metrópole, mas não é órfão e nem se veste de morcego, chamaria tanto a atenção?

Algumas pessoas compararam esse novo título ao estilo de direção de David Finch ou apontaram semelhanças óbvias a filmes como "Seven" e "Jogos Mortais". De forma parecida, o filme "Joker" com Joaquin Phoenix também foi comparado a outras obras anteriores, como "Taxi Driver" ou "Um dia de Fúria".

"Joker", aliás, foi um filme que causou bastante barulho, seja pela atuação de Phoenix ou pela proposta de contar a história de um Coringa incel e de ideais tão duvidosos quanto ambíguos. Certas frustrações sentidas pelo personagem são muito plausíveis e vivenciadas por muitas pessoas no dia a dia — o que torna as ações do vilão momentos de catarse talvez até semelhantes ao que alguns sentiram ao assistir "Bacurau", por exemplo. Mas, a princípio, pouco importa se ele se tornou o Coringa e se existe um Batman em Gotham: a mensagem é outra.

Como não sou entendida de quadrinhos ou de super-heróis, recorri a colegas e consegui achar algumas pistas que respondem à minha pergunta.

Primeiro, a DC sempre deu liberdade criativa para os autores explorarem o enredo dos personagens — tanto que há dezenas de versões de cada um deles, como no caso do próprio Coringa. Por outro lado, os diretores não estão necessariamente pegando o atalho dos super-heróis para poder filmar uma superprodução, até porque o orçamento varia bastante mesmo dentro das franquias (e mais dinheiro não significa necessariamente maior bilheteria e sucesso da crítica).

Muito bem recebido pela crítica e também com uma notável bilheteria, "Joker" teve um orçamento de 55 milhões de dólares, um valor muito mais baixo do que o menor orçamento da Marvel, que foi o filme do "Homem Formiga" (130 milhões). "The Batman" também não foi uma superprodução hollywoodiana em nível de investimento: o filme custou 150 milhões, valor parecido com aquele dedicado ao filme da Viúva Negra (200 milhões) que, por sinal, alguns acham meio "b movie" por conta de efeitos gráficos de qualidade duvidosa. Aliás, vale também mencionar que o orçamento de "Eternals" foi de 500 milhões, mas em questão de bilheteria, aparentemente foi um dos piores a performar nos últimos dez anos da Marvel no cinema.

Independentemente se você gosta ou não de super-heróis, a verdade é que o gênero está em alta, mas não é só o dinheiro que justifica isso. Apesar de "Avengers: Age of Ultron" ter sido um dos filmes mais caros da história, há toda uma exploração de personagens mais secundários ou filmes solo que podem ou não dar certo. Mesmo com Scarlett Johansson tendo sido aclamada no papel de Viúva Negra, um filme solo parece não ter segurado a onda. Por outro lado, um personagem muito menor (pelo menos na abordagem cinematográfica) como Loki ganhou uma série solo e apareceu em muito mais filmes do que o previsto, porque originalmente ele deveria ter simplesmente morrido no primeiro filme do Thor.

No caso da DC, fica um pouco mais complicado falar sobre isso por causa de todo o problema que aconteceu com Snyder e "Justice League", mas faria sentido pensar que personagens já queridos pelos fãs tendem a ser melhor recebidos. O que me faz pensar no caso do filme "Red Notice", a mais cara produção da Netflix até hoje (200 milhões de dólares), mas que teve uma bilheteria de apenas 2 milhões (estimados). Será que se Gal Gadot, que faz parte desse filme, tivesse interpretado uma versão super autoral da Mulher Maravilha, o filme teria sido menos "flopado"? Não sei, é um cenário totalmente hipotético.

O que tudo isso mostra é que, apesar de as grandes produções geralmente estarem concentradas em filmes de super-heróis, ainda tem muita coisa acontecendo para além do "mainstream". A produtora A24, por exemplo, coleciona filmes que tiveram baixo orçamento em comparação às franquias de super-herói, mas que tiveram uma ótima recepção da crítica e de bilheteria. "Hereditário" custou 10 milhões e rendeu 80.2 milhões em bilheteria, além de ter uma nota de 89% no Rotten Tomatoes e 7,3/10 no IMDb.

Então, retorno à pergunta inicial: será que os diretores estão tomando um atalho da popularidade dos super-heróis para contar histórias autorais apoiados em enredos e franquias já estabelecidas? Não dá para saber, a não ser que algum diretor tenha dito isso explicitamente. O que ocorre é que todos os diretores da trilogia "The Dark Knight", "Joker" e "The Batman" já disseram que não têm interesse em incluir seus filmes no universo cinematográfico da DC, no qual o Batman que vale é o de Ben Affleck e o Coringa é do Jared Leto.

Será, então, que eles não poderiam simplesmente ter contado a história de "Joker" sem que ele fosse o Coringa e ainda assim ter sucesso de recepção?

Difícil responder, mas a hipótese que fica é que, independentemente do orçamento (seja na produção ou na divulgação da obra) e das celebridades envolvidas em um projeto, há fatores muito mais subjetivos em jogo: o legado do personagem e dos quadrinhos (fator afetivo), o trabalho feito pelos atores ao incorporarem o personagem (como Hiddleston e Loki ou Johansson e a Viúva Negra), e, claro, o quanto os executivos estão interessados e dispostos a arriscar — afinal, não é toda vez que a Marvel acerta como acertou, em nível de bilheteria e crítica, em "Guardiões da Galáxia".

Com um investimento de apenas 200 milhões, o filme faturou mais de 700 milhões em bilheteria trazendo personagens menos populares dos quadrinhos para as telas. Mesmo como leiga tanto no universo de produção cinematográfica quanto dos quadrinhos, arrisco dizer que, apesar de os filmes de super-herói serem um atalho pela popularidade dos personagens e de seu legado, não é o dinheiro investido nesses projetos que vai garantir o sucesso.

Por isso mesmo, talvez seja mais seguro fazer uma fanfic de "Taxi Driver" protagonizada pelo Coringa do que, de repente, fazer um filme sobre um motorista de aplicativo aleatório que se revolta contra a gig economy e, assim, se torna um gênio do crime.