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Matheus Pichonelli

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Livro conta saga, quase nunca gloriosa, de torcedores de futebol

Torcida do Palmeiras no estádio Fonte Luminosa, em Araraquara, em jogo contra o Cruzeiro em 2012 - Ricardo Nogueira/Folhapress
Torcida do Palmeiras no estádio Fonte Luminosa, em Araraquara, em jogo contra o Cruzeiro em 2012 Imagem: Ricardo Nogueira/Folhapress
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Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do UOL

28/08/2021 04h00

Nos últimos anos, eu me tornei o pior tipo de torcedor.

Em dias de jogos difíceis, desses que rendem gozação por dias nas redes ou no trabalho, faço de tudo para dormir mais cedo ou me tranco no quarto, sem celular. De lá só saio quando a partida termina. Um fiasco, eu sei.

Agarrado num fiapo que resta de racionalidade na relação time-torcida, digo que prefiro sofrer, se for o caso, só depois do resultado. Antes e durante tento, quase sempre sem sucesso, esquecer que meu time está em campo. De desolação já basta o Brasil.

Eis que, no auge da minha conversão a uma categoria abaixo da de torcedor-de-sofá, me chega em mãos o livro "Forasteiros - Crônicas, vivências e reflexões de um torcedor visitante", escrito pelo jornalista e amigo Rodrigo Barneschi e recém-publicado pela editora Grande Área.

Em tempos pandêmicos, o livro é uma das maiores declarações de amor que já pude ler ao futebol e a tudo o que ele representa quando é observado pela perspectiva do torcedor comum. Um torcedor que acompanha sua equipe para onde ela vai, em busca não só do resultado, mas do encontro — com ruas, estradas, amigos, bares, cenários, histórias.

Das caravanas por 45 estádios de 28 cidades do Brasil, Argentina, Bolívia e Uruguai, visitados entre o fim dos anos 1990 e o início dos 2020, Barneschi tira da mochila histórias como a de quando viu um torcedor se ajoelhar na arquibancada do Mineirão, em Belo Horizonte, tirar da mochila uma réplica de 30 centímetros da imagem de Nossa Senhora, e passar o resto de uma partida decidida nos pênaltis virado de costas para o campo. Faz sentido? Não faz. Ou faz. A graça do livro e do esporte, no geral, é justamente não saber.

Barneschi é desses torcedores capazes de viajar de muletas até Belo Horizonte para assistir a uma partida, com o pé direito para o alto, apoiado na cadeira da frente, três dias depois de romper o ligamento do tornozelo (correndo pelas escadarias de outro estádio, a 580 km dali). E de viajar do Rio a São Paulo com os tênis encharcados de lama após ser tratado como gado no estádio Caio Martins. E de se juntar a outras 1.800 almas escoltadas pela polícia para cruzar parte da cidade a pé até chegar às vias íngremes do Pacaembu com paralelepípedos tomados por óleo diesel (um oferecimento do time adversário) sem travar contato com 35 mil torcedores rivais.

É capaz também de pegar uma van lotada de torcedores colorados a caminho do Beira-Rio, em Porto Alegre, sem respirar para não dar bandeira de que era forasteiro ali.

As histórias foram recolhidas durante os anos em que o autor condicionou suas decisões, como agendamento de férias, programas em família e até a data de seu casamento, em função do calendário de seu time, o Palmeiras. (Atenção, torcedores de outras equipes: como prometeu logo nas primeiras páginas, o autor conseguiu se despir de resquícios de clubismo para privilegiar uma narrativa em defesa de interesses comuns, tomada por referências universais. Entre elas a reverência às derrotas, mais comuns, traumáticas e marcantes do que gostariam os aficionados de qualquer time).

Essas histórias quase nunca são contadas nos registros dos resultados de uma partida de futebol, quase sempre resumidos pelo placar e, eventualmente, o número de presos e feridos. Não vale rodapé nas crônicas das partidas épicas — e, menos ainda — dos modorrentos encontros do meio de tabela para baixo disputados em estádios mal-iluminados, carcomidos, sem estrutura ou um bar que preste pelas redondezas.

Pois é ali o território do jornalista, que redesenha a via crucis, quase nunca gloriosa, dos que, sob olhares desconfiados de anfitriões, forças de segurança e até de parte do jornalismo esportivo, enfrentam vias marginais, estradas, ruelas, becos, pontos de ônibus desertos e corredores de aeroportos desconfortáveis para chegar a uma festa a qual não são bem-vindos. Não por acaso essa caminhada, a certa altura do livro, é comparada à dos caubóis dos filmes de faroeste que pisam pela primeira vez num bar tomado por desconhecidos e ao som de Ennio Morricone.

"A obstinação por seguir o clube a todos os lados me transformou em uma pessoa lastimavelmente radical e incapaz de fazer concessões. Passei a me sentir ofendido diante da pergunta 'você foi ao estádio?', pelo simples fato de alguém considerar a hipótese de eu não ter ido a uma partida do meu time", escreve.

Por ironia, no novo universo das arenas multi-uso e suas torcidas únicas, nada disso parece fazer sentido quando o acesso é privilégio de quem pode pagar pelo espetáculo, que nem sempre tem a ver com o esporte. Muitas vezes, aliás, os times são enxotados das próprias casas para dar lugar a megaeventos, mais festivos e lucrativos do que o ambiente — ele mesmo admite — doentio do futebol.

Em nome dos negócios, os gestores das arenas enterraram com as velhas arquibancadas e tobogãs a paixão e a apreensão pelo instante que nenhuma lente de celular posada para a selfie, longe da torcida rival, é capaz de documentar.

É este universo prestes a desaparecer antes mesmo da pandemia que Barneschi tenta resgatar de seu destino aparentemente inevitável: o esquecimento.

Não é só saudosismo. Por contraditório que pareça, sustenta o autor, é no enfrentamento do adversário, com os cânticos e provocações entre torcidas, que reside o respeito entre eles. O mesmo respeito que o torcedor forasteiro deve guardar pelos organismos vivos que, entre cimento, anéis, postes mal iluminados e vergalhões, trazem marcas, camadas de sucessos e fracassos que podem ensinar ou não. O que move o torcedor a frequentar esses estádios é outra coisa. Mas o quê?

No prefácio da obra, o historiador Luiz Antonio Simas deixa uma chave para a compreensão. Busca na história dos Tupinambás a ideia de que o inimigo é um constituinte do ser e, como tal, não pode ser aniquilado, já que isso representaria a impossibilidade da nossa própria existência.

Para ele, o livro funciona como uma oferenda a Exu, o orixá das ruas, mensageiro e senhor da inquietude dos caminhos. Seu autor "finca a bandeira na encruzilhada em que o jornalismo, o memorialismo, a sociologia do esporte e a literatura de viagem se encontram".

A quem não vê qualquer sentido em uma vida dedicada às arquibancadas, é difícil compartilhar a mesma febre. É difícil inclusive entender quem o faça. Mas a relação time-torcida é parte constitutiva da identidade de quem forjou, e segue a forjar, um universo coletivo ao redor da bola.

Boa sorte para quem quiser entender o sujeito brasileiro sem levar essa paixão em conta. A minha, revigorada pela leitura, quero levar às arquibancadas do estádio, qualquer estádio, assim que tudo isso passar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL