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Matheus Pichonelli

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Frisson com 'malão do Lula' dá o tom de como será a eleição em 2022

Clique viralizou após Lula aparecer de sunga e chamar atenção com atributo físico - Reprodução/Twitter/@JanjaLula
Clique viralizou após Lula aparecer de sunga e chamar atenção com atributo físico Imagem: Reprodução/Twitter/@JanjaLula
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Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do UOL

25/08/2021 04h00

Posso estar enganado, mas até pouco tempo — quatro anos?, oito?, duas semanas? — o tamanho da coxa e o volume embutido na cueca não eram exatamente os atributos levados em conta na hora de escolher, fazer campanha e vibrar pelo candidato favorito.

Uso o substantivo masculino de propósito.

Uma candidata mulher que posasse com o namorado mostrando as coxas a pouco mais de um ano da eleição teria praticamente sepultado as chances de ser eleita. "Teria" porque na medição de forças até lá estão dois candidatos homens favoritos e uma terceira via que não foi ainda inventada e já foi convertida ao substantivo masculino.

O frisson em torno da (bela) foto do ex-presidente Lula postada por sua namorada é tão sintomático quanto compreensível.

Ela dá o tom de como serão as eleições de 2022, se todo mundo chegar inteiro até lá.

Quem deu o caminho para entender esse frisson foi o ator e humorista Paulo Vieira. Ele escreveu em seu Twitter: "O que eu tô amando nos memes do 'malão do Lula' é que isso vai doer muito no Bolsonaro amanhã. Debate não dói, números não doem, evidências não doem, mas essa questão fálica é por demais delicada no bolsonarismo".

Pura verdade.

No dia em que a foto viralizou, Fernando Haddad, adversário de Jair Bolsonaro em 2018, falou sobre biologia, antropologia, linguística e relações sociais em uma entrevista a Pedro Bial. É possível que os fãs de uma liderança incapaz de somar 5 com -4 não tenham franzido a testa.

Numa briga de meninos no parquinho, dá para dizer sem medo de errar que foi o atual presidente que começou com essa história de botar a virilidade acima de tudo, e seus desdobramentos da masculinidade frágil acima de todos.

Dos muitos entulhos que os amigos imersos nas redes bolsonaristas pescam e compartilham, chamou a atenção, há poucos dias, um certo "teste de viadagem" postado por apoiadores do ex-capitão para saber com quem o interlocutor se identifica.

Entre os "crimes" contra a masculinidade estavam assistir a musicais, gostar de vôlei, ver peças de teatro, ser vegano, ser antifascista, gritar "Fora, Bolsonaro" e postar foto de arco-íris nas redes. Basicamente, se você não mastiga pedregulho nem espreme a abelha pra beber o mel, não é digno de viver naquela morada cheia de bíceps, armas e culto ao corpo masculino.

O problema é que toda vez que este presidente com histórico de atleta, o único homem que pode e deve ser amado pelos machões do teste, tenta mostrar o muque o resultado é um misto de fiasco com vergonha alheia.

Bolsonaro vira piada quando tenta fazer flexão nos quartéis e quase se estropia. Quando quer posar de Rambo vestindo roupa de mergulho. Quando escapa pelas portas dos fundos de debates e entrevistas longe das perguntas camaradas das emissoras amigas. Quando faz carinha de quem tá gostando demais ao empunhar um fuzil. Quando evoca Johnny Bravo pra dizer que quem ganhou foi ele e disfarçar a insegurança inerente ao exercício do poder. E quando grita que é "imbroxável" para provar que... bem, deixa pra lá.

Bolsonaro passa vergonha em todas essas performances porque é um senhor de 66 anos que poderia facilmente privilegiar outros predicados da vida adulta se não aquilo que outro ator, Pedro Cardoso, chamou de ilusão da própria virilidade.

Mas não. O esforço em manter a pose e performar seu mito do homem que não se vacina, que usa dinheiro público pra comer gente, que casa com a mulher mais nova, que não teme e não erra é contrastada pela dureza de um elemento fora do cálculo chamado realidade. No Twitter, a ágora do deboche dos tempos virtuais, essa lente da realidade é expandida até quebrar as redes.

Foi lá que os adversários do presidente, como o garoto do fundão que sabe o que dá febre, perderam os amigos mas não perderam a piada. Correram para dizer: meu candidato é mais viril que o seu.

Daí os memes produzidos em escala industrial com montagens dos rivais olhando entre invejosos e frustrados para as coxas petistas.

Como num ciclo inevitável, a trollagem não passou pelo filtro da problematização, que não passou pelo filtro dos problematizadores da problematização que nessas horas parecem emprestar o ranço do adversário para quem o mundo está muito chato, cheio de "frescura", não se pode mais nem brincar etc.

Não tenho procuração nem vontade de entrar nessa refrega, mas desconfio que quando alguém se apropria da linguagem do rival para provocá-lo, o risco é permanecer num campo em que o outro joga em casa — e melhor. A tréplica não demora a vir com tiros para o alto (ou não), berrante, rolês de tratores, passeios de moto, cara de mau.

De sopapo em sopapo, os braços marombados, feitos para a trollagem ou não, acabam deixando o lugar inabitável para quem tem mais a mostrar além do muque. Tente só imaginar uma quarta, quinta ou sexta via feminina tentando botar o pé neste debate. A começar pelas redes. Não visualizou? Pois é.

Como escreveu em seu Facebook a minha amiga Joanna Burigo, mestre em gênero, mídia e cultura pela London School of Economics, "se resta em alguém alguma dúvida sobre a força do domínio ideológico patriarcal cis hétero e falogocêntrico sob a que vivemos, sugiro pensar no que a imagem do Lula na fotografia oficial do Stuckert com a Janja e a lua causou".

Bem-vindos a 2022.

E deixem os braços e pernas de franguinhos do lado de fora. Aqui os "fracos" não têm vez.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL