PUBLICIDADE
Topo

Matheus Pichonelli

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Fãs de Bolsonaro converteram bandeira em signo do ódio. Isso é imperdoável

Protesto de Sete de Setembro a favor do presidente Jair Bolsonaro, na avenida Paulista, em São Paulo - CELSO LUIX/ESTADÃO CONTEÚDO
Protesto de Sete de Setembro a favor do presidente Jair Bolsonaro, na avenida Paulista, em São Paulo Imagem: CELSO LUIX/ESTADÃO CONTEÚDO
Conteúdo exclusivo para assinantes
Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do TAB

08/09/2021 04h01

Na semana passada, depois de uma consulta de rotina, me permiti tomar um café no centro da cidade com a família. Em cada esquina, a memória de algum lugar que não visitava havia um ano e meio era reativada.

"Ali vinha com sua mãe às sextas-feiras."

"Naquele bar juntamos os amigos do trabalho pela última vez."

"Olha lá o antigo restaurante alemão. Ainda estou digerindo aquele joelho de porco."

Numa distração, botei o pé e fui entrando num café/lanchonete da área e me deparei com uma imensa bandeira do Brasil à porta.

Recuamos.

Nos segundos até encontrar outro lugar mais arejado para sentar e conversar, mentalmente tentei montar um cubo mágico imaginário que alinhasse os sentimentos de culpa e incompreensão pelo ato quase inconsciente.

Em outros tempos, e não faz tanto tempo assim, aquela bandeira não me faria sentir outra coisa senão euforia e sensação de pertencimento. Poderia ser a decoração para a Copa do Mundo, um sinal de que ali havia comida brasileira, ou uma experiência gastronômica com referências à história nacional.

Tenho 38 anos e saí poucas vezes do país.

Da última, em minha viagem mais longa em tempo e distância, levei comigo uma mala na qual metade do espaço foi reservado para camisas de futebol. A da seleção brasileira, do Palmeiras e da Ferroviária, time da minha cidade.

Essa última era uma espécie de documento de identidade quando andava por São Paulo nos tempos de faculdade. "Viva Araraquara", costumava ouvir quando encontrava um conterrâneo por ali.

A segunda camisa costumo usar, além do dia seguinte às vitórias, em viagens para fora do estado. Foi minha credencial para fazer novos amigos no interior de Alagoas, certa vez, quando os moradores da cidade me ofereciam cerveja e churrasco de graça para me indenizar da vitória histórica do time local contra o meu, em 2002.

Já a camisa da seleção, me contou um amigo mais viajado, seria uma garantia de boas vindas para quem fez o curso básico de brasilidade em qualquer lugar do mundo.

A mais ou menos 12 mil quilômetros de casa, me dei conta de que estava na terra do rúgbi, e que ali provavelmente até o Neymar poderia almoçar em paz sem ser aborrecido com pedidos de selfies e autógrafos.

Quando ficamos longe de casa, mesmo que por um período curto, a vontade de aprender a cultura local é proporcional à vontade de falar sobre nosso lugar de origem. Nosso lugar de origem, afinal, é o lugar mais incrível da Terra. Porque é nosso lugar de origem.

No anedotário das histórias de faculdade, os amigos ainda se lembram do dia em que, naquele raro segundo em que a música para e as pessoas à mesa ficam em silêncio, o restaurante inteiro me ouviu dizer a um convidado estrangeiro: "You have to go to Araraquara". E tinha mesmo. Posso provar. Fica para uma próxima crônica.

Anos depois, fora de casa por tanto tempo pela primeira vez, me preparava para catequizar os fãs de rúgbi locais com meu kits de brasilidade níveis básico (tipo futebol, samba, carnaval), intermediário e avançado.

Não fazia nem quatro horas que havia desembarcado e já misturava na conversa com uma nova amiga indiana assuntos como Caetano Veloso, maracatu, Clarice Lispector, guaraná Jesus, as coxinhas de Bueno de Andrada, a Unicamp e o Dudu do Palmeiras. Cada frase tinha embutida uma pergunta do tipo: "não é muito incrível ser conterrâneo de alguém que cruza uma esquina e lembra que quem vem de outro sonho feliz de cidade aprende depressa a chamar aquele lugar de realidade?"

Para minha sorte, tinha um tradutor influente para fazer a nova amiga entender aquilo tudo que eu começava a batucar entre lágrimas, com uma paixão que jamais imaginei haver em mim.

Lembrava de tudo isso enquanto andava cabisbaixo em nossa cidade, à procura de outro café. Meu pachequismo recente nos Jogos Olímpicos e Paralímpicos, em que bastava ver atleta com camisa amarela para acordar a vizinhança com gritos e xingamentos contra russos, americanos e alemães, me deixava mais confuso diante da repulsa ao ver a bandeira do meu país naquele café/lanchonete — e nas casas da vizinhança, e nos carros do cruzamento à frente, nos avatares de redes sociais, nas ruas em defesa de sei-lá-o-quê no Dia da Independência.

Às vésperas do 7 de Setembro, a ostentação daquela bandeira já erguia um muro onde antes havia apenas pontos de conexão. Ela dizia que daquela porta para dentro havia um brasileiro de verdade e do outro lado, não. Esse outro não era bem-vindo ali, ainda que só tivesse passado perto de transgredir o código penal quando derrubou Coca-Cola em uma das páginas do livro durante uma aula de direito.

Aquela bandeira chamava para um jogo tão desigual quanto desonesto.

Do "outro lado", alguém no máximo poderia levantar a bandeira de um partido ou movimento social. Mas a apropriação da bandeira do Brasil como resposta política era a apropriação arrogante de quem imagina transcender as diferenças e realmente acredita pairar acima de tudo.

Por ironia, a ostentação daquele signo não implicava amor ou devoção a sincretismos que só se tornaram possíveis por aqui. Pelo contrário. Ainda está para ser estudado o autoproclamado patriota que detesta registros elementares do Brasil. Não é que o sujeito não gosta de samba. Ele despreza quem está, a uma hora dessas, protestando contra um inominável marco temporal que pode terminar de esfolar os direitos indígenas. E despreza com a mesma intensidade quem está num laboratório público, produzindo in loco a vacina que pode nos salvar do morticínio.

Já faz alguns dias que desisti de tomar aquele café e voltei a me refugiar novamente em casa. Mas a razão da minha repulsa ainda é um cubo mágico e imaginário desalinhado.

Num exercício improvável de semiótica, chuto que aquela bandeira à entrada da lanchonete era um recado claro de que ali não éramos bem-vindos. Se não estamos em guerra, nunca estivemos tão perto disso.

Aquela trincheira imaginária avisava aos forasteiros que ali habitava alguém "fechado com Bolsonaro" e outras frases feitas que, somadas, não têm mais repertório do que as expressões decoradas pelo boneco do Luccas Neto.

Até aí, tudo bem. O problema é que dentro desse conjunto é possível, provável até, visualizar alguém armado ou pré-disposto a se armar. Alguém com quem devo pensar muito bem sobre o que digo e como me apresento para não virar alvo.

O detentor da bandeira é o detentor da "verdade". E a verdade não comporta dúvidas, vírgulas, contestações. Ele está armado, treinado e orientado para agir contra o câncer que atinge e degenera todo mundo que não age e pensa igual a ele. Segundo a lógica do líder da seita, a metástase atinge alguns órgãos vitais do funcionamento de um corpo social supostamente adoecido. A oposição, os outros entes da federação, os sistemas de pesos e contrapesos de uma república federativa, a imprensa que ousa dizer que aquele mito, torcido e retorcido, é só um grande picareta com pendor autoritário.

É ali, num canto daquele corpo escrito "imprensa", que me vejo como um célula divisível que precisa ser extirpada pelo método mais violento e invasivo para a purificação do país.

Dá mesmo para cruzar essa porta?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL