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Matheus Pichonelli

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Procura-se tio bolsonarista que viu presidente com Valdemar e perdeu a voz

                                 Valdemar Costa Neto e Jair Bolsonaro                              -                                 Reprodução/YouTube
Valdemar Costa Neto e Jair Bolsonaro Imagem: Reprodução/YouTube
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Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do UOL

04/12/2021 04h00

Tio Cosme desapareceu.

Faz uma semana que o mais engajado membro do WhatsApp da família não escreve, não responde, não interage nem compartilha imagens da construção de Brasília, nos anos 1950, com legendas do tipo "Bolsonaro está mudando o Brasil e a Globo não quer que você saiba".

Não adianta chamar no privado, telefonar, mandar carta, bilhete ou vasculhar as redes sociais para obter qualquer pista sobre seu estado de saúde. Ele simplesmente não responde. Não atende. Não dá sinal de vida.

O sumiço, ao que parece, não tem a ver com futebol. Amigos já haviam sido bloqueados por ele quando miravam sua fleuma a cada derrota do Palmeiras. Mas no sábado o Palmeiras ganhou, e ele também nada disse.

Tia Ofélia, sua irmã, deu o diagnóstico: não está sendo fácil para ele entender o que o homem quer. O homem é Jair Bolsonaro.

Dias antes da final da Copa Libertadores da América, no sábado (27), tia Ofélia contou que o irmão ficou paralisado na frente da TV ao saber que o presidente, declarado palmeirense, mandou avisar que no dia do jogo "somos todos Flamengo".

Tio Cosme ficou em dúvida se "todo mundo" também incluía ele, palmeirense desde criança. Na dúvida, ele apagou a foto de capa no Facebook com o presidente levantando a taça de campeão brasileiro no Palestra em 2018.

Segundo a tia, o velho Cosme não deu sinal de tristeza ou alegria em nenhum momento do jogo. Estava mais confuso do que quando, por conta de umas questões paralelas, se desligou do mundo e comeu o feijão congelado do pote de sorvete em 27 de outubro de 2002.

Tia Ofélia desconfia que a conversão em tempo recorde ao flamenguismo foi o menor dos seus problemas.

Tio Cosme, e isso todo mundo que observou suas mensagens na véspera percebeu, estava excitadíssimo com o que chamou de posição firme do presidente em relação ao PL de Valdemar Costa Neto. Não se sabe se era blefe ou não, mas ele jura que chegou a apostar que o ídolo não se associaria a um ex-aliado do Polvo para concorrer à reeleição. (Ele não fala o nome de Lula em público).

Tio Cosme jurava que as notícias sobre a filiação eram uma invenção da Globo e da extrema imprensa para injuriar o presidente. A estratégia do presidente, dizia ele, era deixar a notícia correr para em seguida desmontar a farsa, mandando um dos artífices do "mensalão" às favas e descendo dos céus com um novo partido para chamar de seu.

Na terça-feira (30), Bolsonaro assinou a ficha de filiação em um evento com um banner imenso onde se lia: "O presidente que faz o maior programa social do mundo agora é do PL".

Foi demais para Tio Cosme.

Se há uma vantagem em permanecer no grupo de WhatsApp da família mesmo após a hecatombe parental de 2018, é que ainda está lá o registro em imagem e som de tudo o que tio Cosme disse nos últimos três anos e meio. E qualquer pesquisa no acervo familiar leva à conclusão de que tio Cosme definitivamente não votou em Bolsonaro para que ele criasse o maior programa social do mundo, como os neoaliados estão dizendo. Tio Cosme votou no deputado doidão justamente porque via nele a alma gêmea de quem passou os últimos 18 anos chamando programa de transferência de renda de "bolsa esmola".

A esperança de Tio Cosme não era um país sem fome. Era poder trocar a faxina, o corte na grama e outros serviços da casa por um prato de comida com quem não tinha outra opção senão aceitar.

Bolsonaro era a encarnação de um desejo mal disfarçado. Nas festas de fim de ano, uma das brincadeiras favoritas dos sobrinhos-netos era um jogo de adivinhação chamado "Seu Cosme ou Bolsonaro?". A ideia era criar um banco de itens e tentar descobrir quem era o autor de frases como "Você não consegue uma pessoa no Nordeste para trabalhar na sua casa. Porque se for trabalhar, perde o Bolsa Família". Ou "O cara tem três, quatro, cinco, dez filhos e é problema do Estado. Vai viver de Bolsa Família, não vai fazer nada. Não produz bem, nem serviço. Não vai fazer nada".

O pastiche de sentenças do tipo produzidas por Tio Cosme fazia do jogo uma parada duríssima.

As mensagens violentas sobre "o maior esquema de compra de votos" do planeta hoje envelhecem no barril de carvalho do WhatsApp. Como envelhecem (mal) os áudios apaixonados de Tio Cosme dizendo que Bolsonaro, diferentemente do Nine (o outro apelido do monstro que habita sua cabeça), jamais beneficiaria um filho dele como governante, deixaria a Polícia Federal fazer o seu trabalho sem qualquer tipo de privilégio (pois nada a temer), privatizaria tudo quanto é estatal para estancar a roubalheira, botaria uma pedra no toma-lá-dá-cá, faria de Sergio Moro o seu braço direito na luta contra a corrupção e nunca, jamais, em hipótese alguma, misturaria decisões públicas com interesses pessoais, ideologias com escolhas técnicas.

Aqui e ali, tudo foi aos poucos se adaptando às mudanças de rotas anunciadas pelo presidente. Mas mesmo para o padrão Tio Cosme o exercício tem sido insano.

Basta conferir, nos mesmos arquivos o que ele já disse e já desdisse sobre vacinas. Uma hora Bolsonaro é o cara por ter apostado na cloroquina e barrado o maior programa de implantação de chips, morte e invalidez do planeta. No outro ele se rende aos esforços do governo para comprar lotes de vacina até 2022. Na dúvida, tomou uma dose só, para que o lado negacionista não prevalecesse sobre o medo da morte.

Não é o único impasse da consciência. Não se sabe o que Tio Cosme achou da foto do presidente abraçado e sorridente ao lado do amigo escolhido ministro do STF que agora poderá julgar atos e integrantes do governo. Tio Cosme, como contamos acima, está mudo há alguns dias.

O jogo de fim de ano está em risco.

Na temporada passada, o tio se gabava por ter, na lista de músicas mais tocadas de seu streaming, o hit "Se gritar pega centrão", do cantor e compositor general Heleno. Na peleja daquele ano, acertou quem atribuiu a ele a frase segundo a qual "esse país só vai pra frente no dia em que o último deputado do centrão for enxotado de Brasília com o chicote feito das tripas do último mensaleiro".

Isso foi antes da escolha de Arthur Lira (PP-AL) para o comando da Câmara. E da filiação ao PL do Valdemar, dias após Bolsonaro declarar que sempre foi do centrão.

Tia Ofélia desconfia que Tio Cosme esteja no quarto anotando tudo o que dizem os ídolos da Jovem Pan para, antes do Natal, fazer certinho o movimento de contorcionismo retórico sem quebrar a espinha da coerência. Dessa vez é possível que nem o Caio Coppola possa ajudar.